quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Natal


Eu só tive um Natal marcante nesses 26 anos de vida. Eu tinha 7 anos, e ainda acreditava em tudo, até em Papai Noel. Naquela noite, porém, meu pai colocou uma barba postiça e enchimento na barriga para encher a roupa do velhinho e nos entregar presentes. Eu tinha pedido uma Barbie e ansiava desesperadamente pela meia-noite. Lembro de nos anos anteriores eu ter tentado esperar encontrar o Sr.Noel e receber o presente em mãos, e aproveitar para tirar uma foto com minha máquina de brinquedo, que eu achava que funcionava. Nunca consegui ficar acordada. Mas, naquele ano de 1990, decidi que receberia minha Barbie do próprio Papai Noel e ponto final. Só que eu não contava com meu pai fantasiado.

Logo que ele chegou, nós, crianças, começamos a gritar de emoção. Eu fiquei meio cabrêra porque olhei bem nos olhos do pseudo-velhinho e vi os olhos do meu pai: pretinhos, pequenos, rasgados, que eu olhava toda noite quando papai me respondia minhas milhares de dúvidas sobre o mundo. Aliás, a resposta mais importante das mil perguntas foi quando eu soube que tinha tirado um 5,5 em álgebra e não consegui dormir pensando na surra que eu ia levar. Chorando, perguntei a meu pai se ele ainda gostaria de mim se eu tirasse nota baixa, e ele disse que jamais deixaria de me amar, não importa o que acontecesse. Lembro que fui dormir o melhor sono que já tive.

Bom, lágrimas à parte, eu olhei nos olhinhos de Papai e descobri, aos 7 anos, que Papai Noel não existia. Era uma farsa. Não apenas porque meu pai tinha acesso fácil a suas roupas, mas, sobretudo, porque ganhei de Natal uma "boneca Biluca" e não uma Barbie. Ainda guardava a esperança de acordar com meu verdadeiro presente, mas a Biluca não se transformou na princesa Barbie após a meia-noite.

Fui pedir explicações ao meu pai e ele me contou meia-verdade. Disse que tinha se endividado e não pôde comprar minha Barbie, mas que compraria no meu aniversário. Disse ainda que Papai Noel tinha mandado comprar o que eu queria, mas como papai estava liso, só pôde comprar a Biluca. Eu lembro que disse:
"-Papai, não precisa mais mentir. Papai Noel não existe, porque se existisse o filho de Zefinha ( a menina que trabalhava na minha casa) tinha ganho a bicicleta que ele pediu, e ele não ganhou nada."

Hoje, passados 19 anos dessa data, ainda me surpreendo com minha desesperança com o Natal. Fico triste e sempre penso na imensa multidão de pessoas que perceberão que Papai Noel não existe. Não ganharão presentes, e sim, sobras. Os meninos sonharão com bicicletas e meninas com Barbies, e sequer ganharão Bilucas. Mas, não fico triste por Papai Noel não poder atendê-los. Fico triste por eu não me vestir do bom velhinho, ainda que invisivelmente, e concretizar sonhos infantis por aí. Meu pai, agora há pouco, foi nos Hospitais Padre Zé e Laureano, distribuir as roupas que tínhamos separado. Também comprei algumas bolas de futebol para os meninos dos sinais. Mas me sinto uma ameba por não viver o sentido do Natal todos os dias.

Jesus nasceu e todo ano ele renasce de novo, nos corações de manjedoura que existem pelo mundo. Durante o resto do ano, Ele permancerá ali, caso o acolhamos. Mas eu não consigo. Expulso o menino Jesus cada vez que penso só em mim, nos meus desejos menores, dentro do meu egoísmo e do meu mundo pequeno. Ponho Jesus pra fora cada vez em que compro presentes para um monte de gente e não ajudo com uma moeda sequer aqueles que estão nos sinais, debaixo do sol, e não recebem ajuda de ninguém. Não enxergo Jesus nas crianças doentes, nem vou visitá-las. Não cuido de Jesus através dos mais humildes. E diante disso, como celebrar o nascimento daquele que nós abandonamos?

Mas eis que Joelma, mãe de Jamyle, uma menina com síndrome de Guillan-Barré que tenho o prazer de ajudar há 4 anos, me manda uma mensagem de agradecimento pelo presente de Natal que mandei:

"Vivi, obrigada por fazer Jamyle agradecer a Deus pelo Natal. No fim, o que precisamos é de anjos, que estão com a gente o tempo todo, e não de papai Noel que só aparece uma vez por ano. Que Jesus esteja com você neste Natal."

Minha angústia de não poder abarcar sozinha as dores do mundo se transforma em alívio por saber que posso fazer alguma diferença, mesmo que seja mínima, para alguém. Acredito que posso, sim, acolher Jesus dentro do meu coração e fazer com que Ele permaneça lá.

Que Jesus possa hoje, transformar cada leitor deste blog em anjo, e que Papai do Céu tome emprestado a roupa do Noel e dê de presente a cada coração do mundo um pouco mais de caridade e esperança. Que o nosso ano novo seja cheio de bondade, amor e paz. Que cada um possa fazer a diferença na realidade que lhes cerca. E que esta prece seja atendida, antes da meia-noite.


Feliz Natal para todos!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009


Assisti hoje "É proibido fumar", com Glória Pires, ótima como sempre, e Paulo Miklos, ótimo como nunca, no elenco. O filme conta a história de uma típica solteirona que vê no vizinho que acaba de se mudar, a chance de voltar à vida- ou ter uma.

A soma de elementos cotidianos reais (nunca vi um filme retratar tão bem o motivo de uma mulher voltar a se depilar, e de como uma mulher muda o figurino quando está apaixonada), com uma dose de irrealidade plenamente aceitável (se pode morrer das mais variadas bizarrices), torna o roteiro rápido, leve, bem-humorado e sobretudo, humanizado, cheio de sutilezas.

A gente começa a perceber qual vazio o cigarro preenche na vida da protagonista, e a ver como relacionamentos podem ser concebidos de forma oposta por homens e mulheres, e ao mesmo tempo, ver que muitas vezes, o medo de ficar só nos faz menos éticos.

Enfim, adorei o filme, principalmente a trilha sonora, deliciosa, cheia de Jorge Ben Jor...

Ah, ah, ah, que nega é essa
Prendada e caprichosa
É a nega que eu espero
Pra acabar com a minha solidão




domingo, 13 de dezembro de 2009


Ninguém devia morrer sem ter ido ao show de Nando Reis ao menos uma vez na vida.E ficar até o fim, o que não é pra qualquer um, diga-se, porque o cara é um fenômeno : cantou 3h sem parar. Eu estou sem voz, mas ainda consigo escrever...

Essa música eu não conhecia. É linda.


"Ainda não passou"


Triste é não chorar
Sim eu também chorei
E não, não há nenhum remédio
Pra curar essa dor
Que ainda não passou
Mas vai passar!
A dor que nos machucou
E não, não há nenhum relógio
pra fazer voltar... O tempo voa!
Triste é não chorar
Sim eu também chorei
E não, não há nenhum remédio
Pra curar essa dor
Que ainda não passou
Mas vai passar!
A dor que nos machucou
E não, não há nenhum relógio
pra fazer voltar... O tempo voa!
Eu não suporto ver você sofrer
Não gosto de fazer ninguém querer riscar o seu passado
E o que passou, passou
E o que marcou, ficou
Se diferente eu fosse será que eu teria sido amado?
Por você, por você

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Um dia alguém me disse
que era pra eu crescer
que assim não podia ser
que eu precisava padecer
para chegar ao Paraíso

Um dia alguém me disse
que era pra namorar
e que mesmo sem amar
eu deveria me casar
antes do segundo sol

Um dia alguém me disse
que só se ama uma vez
que devo acordar antes das seis
que o salário não dá pro mês
E que eu devia ganhar mais

Um dia alguém me disse
que eu não era bonita
que eu não estava bem na fita
que eu tomei mais margueritas
E que falei o que não podia

Um dia alguém me disse
que eu precisava ter isso
e aquilo, e depois disso
virei alguém que sempre escuta

o que alguém disse.

E decidi falar
o que estava na minha telha
debaixo da cadeira
em cima do edredom
tudo meio desarranjado
tudo meio esculhambado
e saindo do tom

Comecei a dizer
que eu não precisava padecer
que o paraíso era mais perto
que a cidade não é deserto
que eu podia sentir prazer
em ser, em viver, em ensurdecer
para as coisas que
alguém me disse.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Data pra comemorar


Eu sempre gostei muito do meu aniversário. Chegava novembro e eu começava a contagem regressiva: "faltam 21 dias...faltam 10 dias...faltam 2 dias...". Confesso que até meu aniversário de 25 anos, eu agia assim. Não sei se foi o fato de eu ter entrado na minha "quarterlife crisis" (crise dos 25), se estou ficando adulta ou se apenas virei um porre de pessoa, mas o fato é que o dia 22 de novembro tem um sentido diferente pra mim hoje. Diferente, não ruim.
Fui cumprir meus mandados nas favelas do Recife. Vou de sandália de dedo e blusa solta. Me sinto mais leve. Quando entro na comunidade, falo de forma simples, experimento uva verde na feira, cumprimento os intimados e saio de lá dizendo: "-Não deixe de ir pra audiência não, porque aí o juiz vê que isso é bronca safada e acaba logo tudo." Nas minhas certidões, não me limito a dizer " intimei fulano de tal" e além disso, emendo: "Faz-se mister que a situação de insalubridade que afeta a família seja levado ao conhecimento do Ministério Público" ou "as crianças estão submetidas à indigência extrema...". As minhas certidões mais parecem um relatório social.

Mais recentemente, quis incluir em uma certidão toda minha fúria de ter sido informada pela mãe do intimado, que o mesmo estava no presídio de segurança máxima do Recife por tentativa de furto, há mais de dez meses. Não acreditei e ela me mostrou os documentos que comprovavam o que ela dizia. O rapaz ficou com o celular da vizinha na mão e disse "perdeu! é meu agora", a vizinha não levou na brincadeira e gritou para a Polícia que passava no local: "prende ele, tá tentando me roubar!". Os policiais colocaram o rapaz de 18 anos no camburão e roubaram sua história. Preparei um habeas corpus na hora, do jeito mais amador e mais sincero que pude, mandei ela assinar e interpor junto ao Juizado.

Saí de lá enfurecida por me lembrar que um assassino fdp como Pimenta Neves, que matou a Sandra Gomide friamente, está livre e solto, mesmo sido condenado. Por lembrar que só os advogados bem remunerados detém o monopólio do saber Direito, enquanto os Defensores Públicos mau pagos (ou não) acumulam mil processos em cada dedo da mão e muitas vezes nem sabem o que fazer em cada um.

Saindo de Brasília Teimosa, fiquei observando toda aquela gente, e misturada à raiva,à tristeza, e à compaixão que sentia naquele momento, vi um caminhão de gás passar e com a travessia, banhar um menininho de lama, diante da estreitura do beco pelo qual passava. O menino, que não devia ter mais de seis anos, banhado de água preta, olhou pra mim e disse: "é foda, né?" e começamos a rir. A felicidade nos cumprimentou e ficou ali em nós por um bom tempo, até nos desperdimos.

Segui meu caminho com um sorriso discreto no rosto e um bem mais largo na alma, tendo a certeza de que a gente decide o que permanece em nós. Me senti comemorando por eu estar viva sem ter de esperar o 22 de novembro atestar isso.

Lembrei da Alice no País das Maravilhas, que comemora, com o Chapeleiro Maluco, o seu desaniversário e ganha um bolo. Ele pede pra Alice calcular o número de desaniversários em um ano e sugere que mais valem 364 desaniversários que 01 aniversário só.

E aqui vou eu, comemorando mais 363 desaniversários e esperando que depois do dia 22, eu ainda tenha muitos desaniversários a comemorar.

domingo, 8 de novembro de 2009

Reciclando...

Todo mundo sabe que nós, mulheres, temos variações hormonais que conseguem nos transformar em Lady Diana a Amy Winehouse no enorme período de 28 dias. Pois bem.
No meu momento Winehouse, eu sempre procuro dar vazão à minha fúria fazendo trabalhos braçais. Talvez seja reflexo dos ensinamentos da minha filósofa pré-socrática favorita, Vovó Tina, que diz que depressão é "falta de uma lavagem de roupa". Lá vou eu procurar roupa pra lavar, mas para não me enfurecer ainda mais com cheiro de água sanitária na mão, fui arrumar meu quarto, do chão ao teto.
Enquanto eu ia jogando tudo que eu encontrava no guarda-roupa no chão, incluindo cartas, mil resumos sobre o mesmo assunto, roupas mofadas, tinta guache seca, e mais centenas de coisas que se reproduziam como coelhos, eu espirrava sem parar, suava e ainda cantava alto, e Sofia (minha gata), olhava tudo com atenção,como se indagasse: "e ainda dizem que eu que sou a irracional desta casa..."

Quando separei as caixas dos papéis, abri uma delas e me deparei com uma população de lembranças. Tudo o que me foi caro por algum tempo, estava ali, desde cartas de amigas da 6ª série a flores secas dadas por antigos amores.

E a cada cartão aberto, lá ia a testosterona embora pra dar lugar ao estrogênio, a Amy Winehouse saiu de cena e entrou a Maria do Bairro. Chorei até cansar, chorei como há muito tempo eu não chorava, e chorar pra mim sempre tem gosto de libertação. Mas dessa vez, meu choro não era triste, nem permeado de melancolia, meu choro era bom, de saber que eu tinha uma história.

E quando percebemos que, mais do que receber poemas, vivemos poesia, é encantador.
Por um momento cheguei a pensar que vivi mentiras (ou como diz o Ney Matogrosso: "jurei mentiras e sigo sozinho"), que os laços não eram eternos, e que o destino de todo mundo é mesmo partir. Chorei dessa vez com tristeza e medo de tudo cair no mesmo vazio. Mas depois que as lágrimas (e o mar e Elias) limparam a vista, pude ver com clareza o quanto cada momento é único, e não eterno. Até porque se fosse eterno, não seria único.
Tudo o que a gente vive é bonito na limitação. Do tempo, do amor, da distância. Limitado a uma fase, uma época, uma vida. Não há tristeza, e sim beleza a ser lembrada.
Quando terminei de arrumar tudo, estava exausta e com fome. Mas, de alguma maneira, me sentia mais leve e mais organizada com o rumo da vida. Hoje eu sei que o momento que eu vivo é a única coisa que me interessa. E o Herbert Vianna fez uma música linda que diz mais ou menos o que eu devia ter dito neste post:

"Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim

O céu de ícaro tem mais poesia que o de galileu
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Querendo ver o mais distante e sem saber voar
Desprezando as asas que você me deu
Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua

Merecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu.

Eu hoje joguei tanta coisa fora
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Cartas e fotografias gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim."

sábado, 7 de novembro de 2009


Posso jurar que descobrir como fazer tomate seco mudou minha vida!E ficou "baita bom", como diriam os gaúchos!

Quem quiser um potinho a um preço módico (só o custo dos igredientes),

é só pedir. Contanto que sejam leitores do blog, claro, hehe! =)))

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"Eu sou contradição..."

De vez em quando, aliás, de vez em sempre, alguém me diz :"Nem parece que é você". Essa frase geralmente vem em forma de desapontamento, ou surpresa, mas o fato é que muitas vezes eu mesma duvido que uma só Vivianne permaneça no comando durante boa parte do tempo. No dia em que criei este blog tudo o que eu queria era me encontrar debaixo das minhas várias máscaras, por isso o nome "Nu Canto". Queria me despir das minhas várias faces e descobrir quem eu era de verdade. Mas eis que até hoje, depois de 2 anos, cada post aqui tem uma faceta diferente. Ao invés de me reduzir a uma só, acabei me multiplicando por aqui.

E claro que para mim é estafante conseguir entender como posso ser tantas, sem ter uma grave perturbação mental. Possuo alter-egos tantos que posso até batizá-los com minhas profissões imaginárias, sai a Vivianne professora de Direito Previdenciário, entra a Oficial que cumpre mil mandados, chamo a escritora amadora,depois saio para pintar telas, virar artista circense com Renan, falar sobre Nietzsche, cantar Vanessa da Mata, ouvir Beatles e Funk Carioca quase ao mesmo tempo em que escrevo um artigo sobre a nova lei da adoção, penso em me candidatar a vereadora, enquanto estudo pra ser delegada ou psicóloga, e vou na Escola Freudiana ouvir palestras. Isso tudo pode ser visto em 5 minutos no teatro delivery da minha vida.

Pode até ser que seja culpa da minha "mente inquieta" (fui diagnosticada uma vez como tendo DDA- distúrbio de défict de atenção, mas nunca tomei ritalina, diga-se), mas acho que quase todo mundo é assim, múltiplo.

Um dos meus poetas favoritos descreve tal sensação de forma irretocável, no poema "Tabacaria":

"Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)... Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,eu sinto-me vários seres.Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço. "

No quadro abaixo, o artista plástico vai além de Fernando Pessoa e, na tela, demonstra que o poeta é múltiplo, isto é: a fragmentação pessoana teve a sua expressão máxima com a criação dos heterônimos, destacando – se destes – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis – que são os mais representativos e estão representados no quadro.


E ainda não somos únicos, apesar de "múltiplos". O artista Phillip escreveu de forma eloquente:

"O que tenho, isso sim, é uma variedade de personificações que sei fazer, e não só de mim mesmo – uma trupe de artistas que possuo internalizada, uma companhia permanente a quem posso convocar quando é preciso um eu, um estoque em expansão de peças e papéis que formam meu repertório. Mas com certeza não tenho um eu independente de meus esforços impostores e artísticos de ter um. Nem iria querer um. Eu sou um teatro e nada mais que um teatro”. (Philip Roth – O avesso da vida – página 363 e 364).

Whitman também endossa o pensamento : "Eu sou contraditório e imenso. Há multidões dentro de mim."

Depois de ver tantas pessoas dentro de mim brigando pelo posto do meu "eu" verdadeiro, eu poderia até parafrasear Herbert Vianna e cantar "Se eu queria enlouquecer, esta é 'a chance' ideal..." , mas penso que o melhor caminho é aceitar nossa multiplicidade e tentar fazer com que elas tenham algum traço em comum. Talvez seja este traço que nos define, como gostam os arquitetos. E pra deixar meu traço neste post, eu lembro do único que conhece todas as minhas personagens e ainda assim, me faz ser única.
"Não sou santo nem sou anjo e nem demônio eu sou só eu
Imperfeito, insatisfeito, mas feliz, aqui vou eu
Eu sou contradição, eu sou imperfeição, só Deus é coerente
Já sorri, já fiz feliz, já promovi, já elevei
Já chorei, já fiz chorar, já me excedi, já magoei
Eu tenho coração mas sou contradição
Deus acerta sempre..."


(Fábio de Melo)

domingo, 25 de outubro de 2009


Bastardos Inglórios é uma obra prima. Não é à tôa que dizem ser o maior sucesso de Tarantino, superando Pulp Fiction. "Bastardos" é leve (mesmo com cabeças cortadas), divertido e inteligente.

A atuação de Brad Pitt é impagável, com um sotaque bizarro e um queixo articulado que fazem do "Aldo" o melhor personagem de Pitt, sem dúvida. Aquele ator do filme "Adeus, Lenin" (também um ótimo filme) , Daniel Brühl, também aparece, mas tive a impressão que ele não me convenceu como um soldado nazista que mata centenas e é aclamado pelo alto escalão nazista. Pra quem viu o outro filme, ele continua o mesmo menino bonzinho que fazia de tudo pra não deixar a mãe descobrir que o muro de Berlim havia sido derrubado.

O melhor de "Bastardos" é que quando o filme acaba,depois de assistirmos judeus exterminando nazistas, saímos com uma incrível sensação de vingança, como se a justiça (de Talião) tivesse sido feita. Pelo menos, na ficção.

sábado, 24 de outubro de 2009


I wanna know what love is,
I want you to show me
I wanna feel what love is,
I know you can show me

I'm gonna take a little time,
A little time to look around me
I've got nowhere left to hide,
It looks like love
Has finally found me

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Só para mulheres II

Não sei ao certo o que fiz pra passar o status de "sabe muita coisa sobre relacionamentos", mas a verdade é que muita gente me pergunta qual atitude tomar diante de impasses amorosos.
Eu realmente não sou nem um pouco gabaritada pra falar sobre este assunto, até porque já tive muitos altos e baixos, de sofrer como uma refugiada de guerra, e também de ser tão indiferente e fria como um iceberg.
Mas, de alguma maneira que não sei bem como explicar, nunca tive problemas em ter alguém que estivesse interessado em me conhecer mais. Não, não estou de forma alguma dizendo que a explicação é porque eu sou bonita (mentira), inteligente(mentira), ou qualquer outro adjetivo que possam me qualificar como a "última bolacha do pacote", mas acho que descobri, depois de sofrer com coração partido, o que eu tinha feito de errado e decidido mudar radicalmente.Depois dessa mudança, as coisas ficaram bem mais fáceis, e até mesmo previsíveis, o que me dá uma certa autonomia em falar, mesmo que eu não tenha nenhuma tese para comprovar.
Bom, depois de ter me ferrado há algum tempo, ao invés de ficar chorando o tempo todo (eu realmente nunca suportei a ideia de chorar por alguém que me rejeitou), eu fui fazer terapia, comprei pilhas de livros, conversei com muita gente e devorava revistas femininas. Não sei se isso tudo realmente ajudou, mas o que realmente mudou minha forma de encarar as coisas foi conversar com Luana e Virgínia, durante 1 ano inteiro de pós-graduação sobre nossas experiências amorosas. Naquelas conversas (obrigada, amigas), nós podíamos ver, com clareza, o quanto tínhamos atitudes semelhantes e não era à tôa que estávamos solteiras e sofrendo por histórias antigas mal resolvidas.
E fui percebendo que só o fato de termos um dia propício para conversarmos (tomando chocolate quente e comendo empadinha de charque), devolvíamos a nós mesmas a capacidade de nos ver de verdade, com nossos desejos, nossas expectativas, e sobretudo, percebemos o nosso valor.
Com certeza essa foi o grande divisor de águas nas nossas vidas: descobrimos que temos valor. E como temos! Não posso falar em nome das meninas, mas posso garantir que essa descoberta foi uma revolução para mim.
Comecei a não ter medo de ser eu mesma, e aposentei as máscaras que me faziam ser quem eu achava que devia ser. Comecei a estudar com um afinco muito maior, em descobrir que meu futuro dependia apenas de mim. Devorei livros de filosofia, psicologia, romances e best-sellers que sempre quis ler, mas nunca tinha tido tempo, simplesmente porque quando estava envolvida com alguém, o mundo era resumido (e reduzido) àquela pessoa. Nunca me esqueci da frase que me impulsionou nesta época: "Transforme-se no homem com quem você deseja se casar". E foi isso que eu fiz. Mas continuei usando salto e batom, e a chorar com "As Pontes de Madison".
Antes que esse post se transforme em um confessionário, o que posso dizer é que desde que comecei a me interessar muito por mim mesma, e a investir em me tornar alguém muito melhor pra mim, e não pra alguém, a qualidade da minha vida amorosa subiu muito de patamar.
Descobri que homem não suporta mulher que não se valoriza.
Muita gente diz que "não suporta joguinhos", do tipo que espera umas 4 horas pra retornar uma ligação "para bancar a difícil". Não acho que é assim. É bem diferente "bancar"a difícil e realmente ser difícil. É bem melhor retornar uma ligação depois quando realmente se tem outros afazeres, do que simplesmente se martirizar durante uma eternidade só pra parecer que não está disponível. Pior que isso é ligar antes dele, e dizer que está com saudades.
Isso não faz ninguém se apaixonar (mulheres, quem aqui gosta de homem pegajoso?). Pelo contrário, gente disponível demais cansa. Não sei bem por que homens gostam tanto de caças, jogos e troféus, mas pensar que homem não tem prazer (muito mais que nós) na arte de conquistar uma mulher é bobagem. Tudo bem, pra nós mulheres não há mal agum em abrirmos o verbo e dizer o que gostaríamos, o que estamos sentindo, etc, etc (outro detalhe: a gente não precisa falar tanto), mas homem funciona diferente. Enquanto ele não souber que você foi conquistada, ele não vai descansar. E como "fingir" que ele não a conquistou? Simplesmente não finja. Mas não se deixe conquistar fácil. Mulher que presta não é muito fácil de encontrar. E se você for uma delas, faça jus ao seu valor.
Esqueça do ditado "homem bom tá difícil", e ao invés de se submeter, mude o ditado para "mulher boa tá difícil"e se valorize. Se valorize antes, durante e depois de um relacionamento.
Antes: não faça um esforço hercúleo pra conquistar alguém ou para ter uma chance de ter um segundo ou terceiro encontro para se fazer conhecer. Homem que vale sua atenção geralmente é aquele que naturalmente se interessa em conhecer você melhor.
Sossegue o facho se ele não ligar, e nem se sinta rejeitada se isso acontecer. Na verdade, toda mulher deveria se sentir aliviada quando um cara que a beijou na noite anterior não liga no outro dia, pois ela se livrou de um mala em tempo recorde e ele mesmo se encarregou de dar o fora, o que economiza nosso tempo.
Não ligue, não fale muito sobre suas questões pessoais, não se entregue logo (em todos os sentidos). Lembre-se sobretudo do dito popular que diz que homem não pensa antes da "entrega",mas pensa depois, enquanto a mulher pensa muito bem antes e depois não pensa mais.
E se apenas desempenho sexual segurasse alguém as garotas de programa certamente estariam com muitos pretendentes a marido na fila.
Durante: Seja companheira, divertida, amorosa. O que é bem diferente de ser carente, insegura, pegajosa. Ou, ao contrário, ser dominadora, achar que o namorado é um escravo predestinado a satisfazer suas próprias vontades. Encontrar um equilíbrio é um desafio, mas eu suponho que tentar é um caminho seguro. Pelo menos, é divertido tentar abrir mão da possessividade e da carência e se descobrir livre, não dependendo de alguém para se sentir bem consigo mesma.
Depois: Se você não foi uma boa namorada, aproveite para ser a melhor ex-namorada que já existiu. Nada de rastejar por alguém que não nos ama mais, ou insistir para que o passado tenha ultratividade (termo jurídico, desculpem), ou seja, fazer com que o que existia continue a existir da mesma forma. Não adianta mudar o rumo das coisas. Se acabou, é porque já tinha terminado há mais tempo e ninguém percebeu até que o estalo soou de alguma forma. Então, mantenha a dignidade e acredite que o que vem pela frente SEMPRE é muito melhor (se há alguma frase que eu gostaria que vocês acreditassem é nessa).
Bom, já escrevi muito e tudo isso pareceu bem auto-ajuda, o que para muitos, é repulsivo.
Mas senti necessidade de escrever sobre o assunto diante de algumas dúvidas femininas típicas.
E sobre a conclusão de por quê dizer tudo isso, eu relembro aquela propaganda da L'oreal-Paris em que a Penélope Cruz diz, no final:

"Porque você vale muito!"

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

(Tela de P. Gauguin)

"Cada promessa é uma ameaça;
cada perda, um encontro.
Dos medos nascem as coragens;
e das dúvidas, as certezas.
Os sonhos anunciam outra realidade possível,
e os delírios, outra razão"

(Eduardo Galeano)

terça-feira, 13 de outubro de 2009


Esse fim-de-semana prolongado foi excepcional para mim. Passei horas e horas dentro de vários ônibus, sozinha, o que me fez contemplar muita coisa, sem precisar falar muito.
E isso me fez um bem enorme.

"Os sábios iogues dizem que a dor da vida humana é causada pelas palavras, assim como toda a alegria. Nós criamos palavras para definir nossa experiência, e essas palavras trazem consigo emoções que nos sacodem como cães em uma coleira. Nós somos seduzidos por nossos próprios mantras (Eu sou um fracasso... Estou só... Sou um fracasso.,. Estou só...), e nos transformamos em monumentos a esses mantras. Passar algum tempo sem falar, portanto, é uma tentativa de se desvencilhar do poder das palavras, de parar de nos asfixiar com as palavras, de nos libertar de nossos mantras sufocantes."

Do meu livro favorito, de Liz Gilbert. Aqui tem uma amostra grátis pra quem quiser lê-lo em pdf:http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/20070308-comer_rezar_amar.pdf

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

"Hic et nunc"

O título do post serve para todos os textos escritos no blog. Significa "aqui e agora". Porque é no momento presente que todos nós deveríamos viver, embora a gente tenha essa mania desgraçada de perder tanto tempo pensando no que ainda vai vir.
Escrevi há algum tempo aqui sobre felicidade. Um dia depois eu estava numa tristeza só, depois de uma discussão em família. No outro dia, eu ainda chorosa e pensando sobre o que havia acontecido, alguém me disse: " soube que vc está feliz da vida, li no blog..."
Não sei se tais comentários conseguem provar o que Nelson Rodrigues dizia, que a gente só descobre quem gosta realmente de nós na hora da alegria, e não da tristeza, pelo simples fato de que a felicidade incomoda.
Bom, mas o fato é que passei algum tempo sem escrever aqui para não transformar o blog em uma espécie de "diário de uma bipolar", que alterna textos eufóricos e deprimidos. Ao invés disso fiquei pensando nas minhas frases e me solidarizei comigo mesma: "Estou feliz" não significa: "Sou feliz". A felicidade não é um estado de espírito,é um momento. Estar em paz dura mais tempo, se sentir bem consigo mesmo, idem, mas ser feliz o tempo todo não existe.
É uma falácia acreditar nas coisas eternas,imutáveis e plenas. Não existe no mundo alguém que seja totalmente feliz e realizado, que não tenha conflitos, que não passe por fases em que gostaria de morrer só um pouquinho e acordar depois da tempestade ter passado.
Talvez o principal motivo de vivermos tão angustiados e com a depressão à nossa porta é justamente por acreditarmos que certamente há alguém mais feliz, mais realizado, mais próspero, mais amado, mais saudável, mais bonito e mais sábio que nós. O ideal de perfeição nos assombra para uma realidade intangível, que ao invés de nos instigar a seguir em frente, muitas vezes nos imobiliza.
Essa ilusão acaba por influenciar no nosso cotidiano de tal maneira que podemos comprometer todo nosso salário em busca de uma padrão de vida que não nos corresponde, mas pode nos inebriar de algo que seja próximo do que consideramos "ideal".
O Amor também carece de realidades. Dizem que só é feliz quem ama, mas a gente esquece de que quando sofremos por amor é o tempo em que somos mais infelizes. Não sabemos lidar com o contraditório de uma relação. Se hoje eu amo e estou feliz, porque amanhã será diferente? Porque vai ser assim, sempre. "O pra sempre sempre acaba" é uma verdade irrefutável. Mas isto não quer dizer que o que muda será pior para nós. Pelo contrário, se muda, é porque nós mesmos mudamos, e perceber as mudanças pode nos trazer amadurecimento. Ao revés, não perceber as mudanças e não saber lidar com elas, tentar tornar as coisas imutáveis, só traz ressentimento, decepção e mágoa, pelo simples fato de que não há como eternizar um momento por uma vida inteira, ainda que ele tenha o sabor de eternidade.
Não sei se a crise dos 25 anos está começando ou terminando pra mim, mas sinto que a pergunta mais substancial pra mim hoje é aquilo que dizem, mais ou menos assim:
"o que importa não é o que a vida fez com você, mas o que você fez com o que a vida fez de você."
Hoje eu só me interesso em saber se me orgulho do que me tornei com o que a vida me trouxe. E acho que a vida me trouxe todos os mapas que me fizeram alguém muito melhor, com todo sofrimento, busca, dúvidas e conquistas.
Durante muito tempo achei que a vida tinha um viés determinista, com sentenças prontas e acabadas:
"toda mulher tem de achar o amor da sua vida e casar até os 25 anos";
"Toda mulher deve ter um filho";
"a mulher linda, esguia e sorridente, com um filho e uma filha de mãos dadas, e um marido amoroso e bem-sucedido do lado, que está ali, estampado no outdoor do prédio em construção, realmente existe, e será você!"
Essas frases não condiziam com o que eu vivenciava de perto (eu pensava: ela é casada e vive infeliz? como pode? ela tem filho e ele é um peste? como?), e eu comecei a mudar, mesmo contra o piloto automático que muitas vezes me dirigia. Não estou afirmando que encontrei o caminho das pedras. Longe disso. Ainda me sinto extremamente confusa com minhas escolhas, tenho medo do futuro (" e da solidão em minha porta", como diria o poeta), sou insegura, indecisa e faço burrice a cada 2 minutos.
Mas aprendi a experimentar cada acontecimento como uma oportunidade, quase como um teste empírico a me provar se minhas escolhas davam frutos na minha própria personalidade. Complicado? Nem tanto. Tente fazer algumas perguntas sobre o que você deseja e depois veja se seus atos correspondem ao seu desejo...
Ninguém sabe ao certo para quê nasceu e por que está no mundo, e se Deus não tiver uma boa resposta para tudo isso, vivendo bem a gente pelo menos aproveita essa "grande piada", como diria Oscar Wilde.
Só o que posso dizer é que não sei do amanhã, e nem desejo saber. Posso fazer planos, mas também posso mudá-los. E isso não faz de mim alguém instável. Pelo contrário. A minha estabilidade depende da minha consciência em saber escolher todos os dias. E se a escolha for reiterada por muito tempo, é sinal de que desejo aquilo para o resto da minha vida.
E ao invés de temer o que irá me acontecer nas próximas horas, eu tento me concentrar nos minutos de agora, em que tenho a oportunidade de perceber o meu tempo e de decidir o que farei com ele.
E acabo me lembrando da pergunta que eu sempre fazia aos 6 anos de idade, quando não entendia nada sobre a passagem do tempo, e que até hoje nenhum adulto conseguiu me responder (e eu mesma me incluo aqui):
"Por que não se fala 'hoje' ao invés de 'ontem' ou 'amanhã' ? "

sábado, 3 de outubro de 2009

Tim Maia dizia que o Brasil é o único país do mundo onde traficante se vicia, cafetão se apaixona, e prostituta tem orgasmo. Eu acrescentaria mais uma pérola: O Brasil também é o único país do mundo em que alguém envolvido em corrupção (foi condenado a devolver R$420 mil ao estado do Amapá, por ligações escusas com o cliente político) , sem nenhuma pós-graduação, e reprovado em todos os concursos que prestou, é o mais novo ministro do Supremo Tribunal Federal.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Dia

Deus passou o dia inteiro comigo hoje
Veio em forma de luz, como um vaga-lume
a iluminar a noite cinzenta e triste
Me acordou com perfume de casa limpa

Depois, passou entre meus pés
com os pêlos do bichano a me fazer cócegas
Não satisfeito, me fez comer macarrão
E escrever uma carta pedindo perdão
E me livrou de ambas as culpas

Deus hoje me falou em vozes femininas
talvez as taurinas sejam a força
de que o mundo precisa
Ainda que eu desconfie da posição das estrelas
e do Cosmos nisso tudo

Literário,Deus me fez ler alguns trechos de livros
para acalmar o terremoto que estava por vir
Me abriu os olhos para os evangelhos contemporâneos
aqueles que não estão na Bíblia
mas invadem livrarias
em forma de prosa e poesia

Deus me fez pensar que após a plenitude
pode (e há de) vir o declínio
Mas isto não se tornará um hábito
Porque alcançarei um equilíbrio

Deus me disse hoje, quase sussurrando,
em forma de canção do Bon Jovi,
mas ao invés do "I´ll be there for you"
Ele me diz: "Eu estou aqui por você."
Não sei se já comentei aqui sobre meu livro favorito- "Comer, Rezar, Amar". Mas o reli hoje como se fosse uma prece, e entre as reveladoras passagens do livro, existe essa:

"As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não! Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesma, e depois vão embora. Acabou! "
(Richard do Texas)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Ser feliz é questão de vontade, sim"


Chega uma hora na vida em que a gente tem que escolher. E renunciar. E seguir em frente. Por muito tempo, me iludi, fazendo escolhas e ao mesmo tempo recusando ser aquilo que havia escolhido. Tudo isso porque achava que não existia um caminho meu, e outro caminho seu, eu achava que existia "o" caminho. E este caminho, perfeito e acabado, que passei tanto tempo procurando, realmente não existe, nem nunca existirá.

O que temos são caminhos novos, que a partir de nossas escolhas, serão trilhados. Cansei de fazer "jurisprudência" da minha vida. Pra quem não entende muito esses termos do juridiquês, jurisprudência são decisões que servem como referência para julgamento de um determinado assunto comum. De forma análoga, sempre pautei muito minhas decisões pelo que já havia acontecido comigo antes. Se, por exemplo, me apaixonei e sofri, eu não me apaixonava mais. Se sempre chutava letra "c" e errava, comecei a chutar na letra "a". E fui percebendo que também errava. Ou seja: apesar da minha escolha ter respaldo, na verdade, cada pergunta era única, e cada resposta também. Deve ser assim com a vida.

A gente não tem nenhuma garantia que as mesmas escolhas terão resultados iguais. E também não há como saber se escolhas diferentes produzem efeitos diferentes. Cada momento que vivemos na vida é único e "instransferível". Não dá para comparar situações, embora elas se pareçam. A gente muda todo dia. Às vezes precisamos mudar muito para continuarmos sendo a mesma pessoa.

Tenho me sentido mais feliz em perceber a maturidade dando pistas que está se aproximando de mim. Tenho tido a coragem de tentar fazer meu próprio caminho, buscando ser feliz, mais do que estar certa. Vejo que quase sempre as pessoas que menos se importam com a opinião alheia são as que são mais livres. Estou tendo a oportunidade de escolher ser feliz, embora quase sempre eu tenha optado por não despertar inveja alheia e quase até a compensar as coisas boas com outras ruins. Isso se torna um hábito muito perigoso, porque a gente começa a relativizar nossas conquistas (lembrei da música de Pato Fu: "as brigas que ganhei nem um troféu como lembrança, pra casa eu levei/ as brigas que perdi, estas sim, eu nunca esqueci..")
"-Ah, você passou no concurso? que coisa boa!!!"

"-É, mas o salário nem é tão bom..."

Isso é triste. E mais triste ainda é que existem pessoas que só se interessam pela parte do "mas...". Talvez por isso que existam tantas desculpas pra felicidade no mundo.

Dessa vez, ando sorrindo sem ter medo de ninguém. Porque a minha vida, afinal, está nas minhas mãos. E nas de Deus.

E, como diria o Sivuca e o Chico,


"pela minha lei, a gente era (é) obrigado a ser feliz."

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Recebi esse texto hoje, da sócia do blog, Ana Cecília, e adorei! Obg, Ana. Vc é gente finíssima!!!;)


Gente Fina... (Martha Medeiros)

Gente fina é aquela que é tão especial que a gente nem percebe se é gorda, magra, velha, moça, loira, morena, alta ou baixa.
Ela é gente fina, ou seja, está acima de qualquer classificação.
Todos a querem por perto.
Tem um astral leve, mas sabe aprofundar as questões, quando necessário.É simpática, mas não bobalhona.
É uma pessoa direita, mas não escravizada pelos certos e errados: sabe transgredir sem agredir. Gente fina é aquela que é generosa, mas não banana.
Te ajuda, mas permite que você cresça sozinho.
Gente fina diz mais sim do que não, e faz isso naturalmente, não é para agradar.
Gente fina se sente confortável em qualquer ambiente: num boteco de beira de estrada e num castelo no interior da Escócia.
Gente fina não julga ninguém - tem opinião, apenas.
"Um novo começo de era, com gente fina, elegante e sincera."
O que mais se pode querer? como o próprio nome diz, não engrossa.
Não veio ao mundo pra colocar areia no projeto dos outros.
Ela não pesa, mesmo sendo gorda, e não é leviana, mesmo sendo magra.
Gente fina é que tinha que virar tendência.
Porque, colocando na balança, é quem faz a diferença.

sábado, 29 de agosto de 2009

Lya Luft

As coisas boas

“Acho nosso momento tristíssimo. Mas vejo muita gente fazendo coisas positivas, jovens ou velhos com esperança, pessoas espalhando o bem.”
Recebo e-mail de um jovem de 16 anos reclamando, num texto lúcido e bem escrito, de que sou pessimista. Pois escrevi na última coluna que “ninguém faz nada”, quando, segundo ele, eu deveria dar uma mensagem esperançosa a quem quer “mudar o mundo”. De alguma forma, isso me comoveu. Quase todos queremos melhorar o mundo na juventude, e é bom querer não ficar rançoso, amargo ou queixoso na idade adulta. Pior ainda, chato na velhice. Sou esperançosa e otimista, por isso mesmo não posso escrever apenas sobre coisas amenas, e infelizmente não tenho mensagem nem receita para o mundo melhorar. Pois eu sou apenas mais uma pessoa que de um lado se alegra, de outro se aflige. O número espantoso de leitores desta revista me dá uma sensação de comprometimento com a não-alienação. Escondendo a realidade é que não se vai poder mudar ou melhorar coisa nenhuma.

Acho nosso momento tristíssimo. Até jornais estrangeiros importantes, que em geral não nos dão bola, registram os fatos que andam ocorrendo no Senado e em outras instâncias solenes como “coroamento da corrupção brasileira”. A impressão que se tem, que eu tenho, é que ninguém anda fazendo grande coisa, ou pouca gente faz alguma coisa para melhorar. Escrever que “ninguém faz nada” é uma hipérbole literária, é como dizer, sem realmente querer dizer isso, “morri de ódio”. Acho, sim, que muitos responsáveis não fazem nada, ou fazem o mal: desviam ou aplicam de maneira irresponsável dinheiro destinado aos pobres, desprezam a educação e a cultura, cospem na saúde, enganam uma montanha (não, um verdadeiro Everest…) de gente que merecia coisa melhor.

Mas também vejo muita gente fazendo muita coisa positiva, gente querendo acertar, jovens ou velhos com esperança, pessoas espalhando o bem. Cada vez que um de nós é leal com alguém, faz uma coisa boa; cada vez que respeitamos o outro com suas diferenças, seus dramas e necessidades, fazemos uma coisa boa. Cada vez que somos decentes em vez de perversos, cada vez que cultivamos compreensão e respeito em lugar de rancor, cada vez que somos carinhosos, alegres, solidários, fazemos coisas muito boas.

Cada vez que um jovem estuda, trabalha, e se constrói como pessoa produtiva e positiva, faz algo muito bom. Cada vez que um pai presta atenção no filho, cada vez que uma mãe é dedicada sem depois cobrar isso, fazem uma coisa boa. Cada vez que alguém fuma seu último cigarro, bebe seu copo derradeiro, cheira sua ultimíssima carreirinha e dá o primeiro passo numa nova vida, faz uma coisa maravilhosa. Sempre que alguém recusa uma baforada de maconha, negando-se a homenagear os traficantes que amanhã vão matar seu filho ou trucidar seu amigo, está fazendo uma coisa muito boa.

Quando olhamos uma árvore na beira da estrada, a luz do sol num gramado, a chuva na vidraça, a criança observando um besouro, um bebê dormindo, um velho rodeado pelos filhos, estamos fazendo uma coisa muito boa; cada professor mal pago que atende com dedicação seus alunos, cada médico de uma saúde pública apodrecida que cuida com humanidade de seus doentes faz uma coisa muito boa. Sempre que uma mulher aproxima os filhos do pai mostrando que ele é um ser humano, está fazendo uma coisa boa; cada filho que abraça o pai que já não o pode sustentar faz uma coisa boa. O político que rema contra a correnteza permanecendo honrado faz uma coisa muito boa.

Fazem-se muitas coisas boas neste mundo, e por isso ainda não nos matamos. Por isso ainda estamos abertos ao belo, ao bom e ao outro. Por isso vale a pena viver. Mas, sinto muito, o ser humano é um animal predador: o desejo de destruir e arruinar coexiste em todos nós com a bondade, a decência, a dignidade. Que fazer? Somos assim. Se pudermos estar do lado do bem, querendo melhorar o mundo, viva! As coisas não estarão perdidas, a amargura não vai nos dominar, a sombra acabará fugindo da claridade, e continuaremos sendo, mais que feras, humanos. Mesmo quando alguém escreve sobre as realidades menos bonitas, elas não precisam prevalecer. E muita gente continuará fazendo muita coisa boa, aos 16 anos, aos 68 ou aos 86.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Drummond

Infância

Meu pai montava a cavalo,
ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:- Psiu... não corde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito
E dava um suspiro... que fundo !
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Às vezes fico me perguntando como nós, pobres seres humanos mortais, podemos ter a chance de nos transfigurar em seres divinos e eternos pela força do amor.
Quando vejo essa foto da minha irmã em um nítido gesto de amor com meu (lindo!) sobrinho, fico me perguntando se precisamos mesmo de um paraíso longíquo e ilusório para experimentar a eternidade.
O amor nos faz melhores, nos faz diferentes e ao mesmo tempo, tão iguais. Quando me sinto triste ou sem perspectivas de futuro, lembro que talvez a minha grande possibilidade no mundo seja apenas experimentar esse sentimento, e isso faz toda uma existência valer à pena.
Quando lembro de Renan e começo a desejar profundamente que ele seja saudável e feliz por todo o tempo em que ele estiver nesse mundo, fico pensando que naquele instante em que só desejo a felicidade de outra pessoa, o amor se torna real e concreto, capaz de me fazer chorar sem motivo, ou que este motivo seja um fim em si mesmo: o amor. E acredito no amor não como um substantivo, mas como verbo- amar- que surge nas atitudes e nos nossos gestos mais simples.
E é maravilhoso poder observar que cada um descobre o seu próprio jeito de amar, como naquele poema da Adélia Prado em que ela descreve uma mãe muito braba que nunca dizia que amava a filha, mas lhe penteava os cachinhos molhados antes da menina ir para a escola. E antes que eu chore lembrando de como minha mãe se parece com essa que Adélia descreveu, penso que talvez minha missão na vida seja justamente essa: perceber o amor ali, escondido pelos cantos.
Duas frases de Kant tiveram um especial significado para mim nestes últimos dias, mas depois eu escrevo sobre isso, prometo.

"Toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço."

"A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade."

(Kant)

sábado, 8 de agosto de 2009


-Vou ao supermercado, não abra a porta pra ninguém, não importa quem seja, ok?
-Ok.
(...)
-Mamãe!! E se for a Felicidade?

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Traumas
Composição: Roberto Carlos e Erasmo Carlos

Meu pai um dia me falou
Pra que eu nunca mentisse
Mas ele também se esqueceu
De me dizer a verdade
Da realidade do mundo
Que eu ia saber
Dos traumas que a gente só sente
Depois de crescer
Falou dos anjos que eu conheci
No delírio da febre que ardia
No meu pequeno corpo que sofria
Sem nada entender
Minha mulher em certa noite
Ao ver meu sono estremecido
Falou que os pesadelos são
Algum problema adormecido
Durante o dia a gente tenta
Com sorrisos disfarçar
Alguma coisa que na alma
Conseguimos sufocar
Meu pai tentou encher de fantasia
E enfeitar as coisas que eu via
Mas aqueles anjos agora já se foram
Depois que eu cresci
Da minha infância agora tão distante
Aqueles anjos no tempo eu perdi
Meu pai sentia o que eu sinto agora
Depois que cresci
Agora eu sei o que meu pai
Queria me esconder
Às vezes as mentiras
Também ajudam a viver
Talvez um dia pro meu filho
Eu também tenha que mentir
Pra enfeitar os caminhos
Que ele um dia vai seguir
Meu pai tentou encher de fantasia
E enfeitar as coisas que eu via
Mas aqueles anjos agora já se foram
Depois que eu cresci
Da minha infância agora tão distante
Aqueles anjos no tempo eu perdi
Meu pai sentia, sentia o que eu sinto agora
Depois que cresci
Meu pai tentou, tentou me encher de fantasia
E enfeitar, enfeitar as coisas que eu via

Romance

Sou suspeita pra falar de um filme de Guel Arraes, com Wagner Moura, Bruno Garcia e Vladimir Brichta no elenco, e que mistura cordel e Lajedo de Pai Mateus no meio, mas eu adorei o filme "Romance". Principalmente pelo romance...
Ah! Neguinha
Deixa eu gostar de você
Pra lá do meu coração
Não me diga nunca não

Teu corpo combina com meu jeito
Nós dois fomos feitos muito pra nós dois
Não valem dramáticos efeitos
Mas o que está depois...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

(Re) pensando.

É impressionante perceber que alguns autores conseguiram elaborar teorias que nos orientam de modo ímpar e nos alertam sobre acontecimentos cotidianos cheios de significado. E hoje, especificamente, ao reviver uma situação recorrente,lembrei da Lei do Eterno Retorno, da qual falava Nietzsche. Eis um trecho:

"E se um dia ou uma noite se alguém se esgueirasse na tua mais solitária solidão e te dissesse: Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes. E não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande na tua vida há de retornar a ti, e tudo na mesma ordem e sequência."

A partir daí, podemos pensar em algumas indagações:

1) Será que a vida que eu vivo hoje, eu gostaria de revivê-la indefinidamente, do mesmo jeito? Se a resposta for positiva, ótimo; se negativa, é bom repensar nossas escolhas.

2) E por falar em escolhas, o que eu faço diante de acontecimentos que se repetem ao longo da minha vida? Deixo tudo acontecer ciclicamente, repetindo os mesmos padrões (e os mesmos resultados, diga-se) ou tenho coragem suficiente de fazer novas e diferentes escolhas, tendo atitudes novas diante de velhos cenários?

3)As escolhas que fazemos por meio de nossas atitudes costumam sempre voltar para nós. O que fazemos de bom, sempre volta em forma de um bem maior; e o que fazemos de ruim, segue a mesma lógica?

Bom, o que devemos pensar é que temos a possibilidade extraordináriade não sermos escravos do passado (até porque, se mentalizarmos que tudo será igual, fatalmente será, acredite), de podermos, através de uma situação atual, entendermos nossas atitudes anteriores, reinterpretando o fato e recriando nosso próprio passado, retirando mágoas que já não existem e pesos que não nos servem mais.
Interpretando o que já nos aconteceu de forma leve, e principalmente, nos colocando na posição da outra parte, por exemplo, quase sempre percebemos que o julgamento não é tão implacável, que a dor não é tão aguda, que os papéis de vilão e mocinho quase sempre não existem.O que geralmente acontece é vislumbrarmos que escolhas(as nossas e as alheias) são feitas por seres humanos, carregados de precariedades, dúvidas,medos e desejos de serem felizes. Ao colocarmos tais parâmetros em nossa visão das coisas, podemos experimentar a força do perdão, que se opera em nós mesmos.

E aí é que surge a chance de se fazer novas escolhas diante de situações semelhantes que "retornam" a nós. E assim, recriamos nosso passado, sendo autônomos ( no dicionário, uma ótima definição: "quem se governa"!) no presente, e moldando o nosso futuro a ponto de nos fazer desejar viver esta mesma vida quantas vezes nos for permitido.

E eu diria que essa mistura de livre-arbítrio e determinismo nos faz verdadeiramente felizes, felicidade essa que nasce da certeza de estarmos no caminho que escolhemos e não que a "vida" escolheu!

"O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado."


(M.Medeiros)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"O que eu quero...(desa) sossego"

Semana passada escrevi no "quem sou eu" do orkut o único adjetivo que se encaixa perfeitamente no que já descobri de mim: desassossegada. Embaixo do adjetivo, escrevi "ainda bem". Uma colega minha, então, enraiveceu-se e me escreveu: "Vivianne, você devia agradecer pela vida que tem , por ter emprego, família, saúde, e não viver sempre com dúvidas existenciais". Eu até lembrei da música do Raul Seixas, Ouro de Tolo:
"Eu devia estar contente/Porque eu tenho um emprego/Sou um dito cidadão respeitável/E ganho quatro mil cruzeiros por mês..."
Bom, aqui vai minha resposta pra quem comunga do mesmo pensamento. Mas vou logo avisando que,como diz o Gabo, no seu livro Memória de minhas putas tristes: "Não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego".

Primeiro, o termo "dúvidas existenciais" deveria ter sido melhor explicado. Acho que ninguém duvida de que existe. É só beliscar o braço ou cortar os pulsos. =) Dúvidas sobre o "por quê" de existirmos, aí sim,é bom de ter. Aliás, se eu não tivesse dúvidas, iria ser uma niilista insuportável: "eu não sou nada, não existo para nada e vamos acabar em nada." Ser desassossegada é o contrário. É buscar, incessantemente, não cair no vazio de sentido, não viver sem questionar, sem buscar alternativas para as escolhas previsíveis, não se conhecer, não se descobrir. Viver no previsível não é para mim, ainda que isso seja a busca de muitos.
No entanto, ser desassossegada não significa ser deprimida, ser triste, não grata pelo que já consegui, não amar a vida nem as pessoas que fazem parte dela. Não é, absolutamente, nada disso, embora todo mundo possa ter suas crises e eu não escape delas. Mas, para mim, o meu desassossego é simplesmente não me conformar com o que basta. Porque, de um jeito ou de outro, quando tudo nos basta, acaba. E pra mim é cedo pra acabar.
Meu desassossego é o que me mantém viva. É o que me faz ir mais longe, pensar outras coisas, fazer outros planos em busca de uma plenitude que talvez nunca chegue, mas que me faz caminhar e seguir em frente. Ainda não descobri o sentido da vida, e quem sabe (e acredito nisso) o sentido seja diferente para cada um. Talvez por isso eu, além de dúvidas, também tenha algumas certezas (temporárias, quem sabe!) e entre elas está a de que minha existência vai muito além de uma vida "casa-mesa-banho".
As dúvidas me fazem ir mais fundo, mergulhar na minha humanidade e não me satisfazer só com o superficial de cada coisa. Por outro lado, não acho que para isso seja preciso tornar-se erudito, prolixo, arrogante. Às vezes, quando vejo uma certa "previsibilidade" no ar, eu simplesmente aceito, porque, na verdade, ninguém tem o caminho certo pra ser feliz. Meu irmão é feliz ouvindo forró no último volume o dia inteiro. Eu sou feliz lendo tudo que me dê pistas para as respostas que procuro. Isso não faz de mim melhor que ele. Nem melhor que ninguém. Ele deve ter suas respostas, já eu quis ir mais longe. Problema meu. Literalmente.
Por isso, meu desassossego é sossegado. Não vivo tomando remédio tarja preta, nem achando que minha vida não tem um propósito. Justamente por ter um propósito é que acabo vendo significados. E significados levam tempo para serem descobertos. E é delicioso ser desassossegada para investigar.

Anseio por muita coisa ao mesmo tempo, sonho com várias coisas, sinto tudo com uma intensidade fulminante, e o que eu quero ainda não tem nome. Isso cansa mesmo, mas é assim que respiro, que vivo,que (não) durmo. Não tenho como fugir da minha ânsia de caminhar rumo ao indefinido. Frequentemente sonho que sou uma águia voando para nenhum lugar. Meu inconsciente deve estar por trás disso, Lacan, Freud, Frankl ou Deyna podem explicar.
Claro que vou sendo feliz no caminho. Mas acho que tristeza também faz bem. Solidão, idem. Não tenho vergonha em dizer isso. Aliás, esse post é bem "nu", sem máscaras. Pois é, a minha estabilidade é ser instável, por vezes feliz, triste, e quase sempre tendo uma vontade que não passa e que nem quero que passe. Mudo de humor, de interesses, de sonhos, de cores, de pele. Sou uma eterna mutação em busca de mim, experimentando ser diferente pra ver o que mais palpita. Meu coração é livre, tem asas, e por mais contraditório que seja, acabo amando demais, sentindo demais, (Alceu nos canta: "o coração dos aflitos pipoca dentro do peito") e o amor é quem me salva quando tudo isso parece impossível de se encaixar e ao mesmo tempo, me faz respirar e dizer que sou desassossegada sim...ainda bem.

E como bem sintetiza a Martha Medeiros:

"Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam antes de concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam."


p.s: Pra quem não entendeu nada, "sossegue". ;)
p.s 2: Pra quem quer entender, pela poesia, o que se passa, o "livro do desassossego" , obra ímpar de Fernando Pessoa é ótimo. Pela "prosa", "Mentes Inquietas", da psiquiatra (sim!!!) Ana Beatriz Barros, é a pedida.
p.s 3: desassossegados do mundo, uni-vos!
A miséria do meu ser

A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.
Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.
É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Barbárie e caos.

Eu sei que utilizo o blog quase sempre pra falar de coisas boas e sentimentos que nos elevam,de alguma forma. Mas há ocasiões em que a perplexidade invade todos os espaços, principalmente nossa humanidade e sobre o sentido de ser, afinal, humano.
Meu irmão me liga nesta manhã, eu ainda dormindo, e diz: "tu nem vai acreditar,mas vê na televisão o que estou vendo ao vivo. " Corri e vi a notícia: um homem(?) e sua mulher(?) assassinaram uma família inteira com golpes de facão. Crianças de 2, 6 e 10 anos foram mutiladas. Uma delas se escondia no guarda-roupa quando teve as mãos decepadas pelos assassinos. Eu realmente não consigo entender até que ponto vai a maldade humana.
Não estou dizendo isso de modo clichê ou com aquele lamento inútil dos que "não tem nada a ver com isso". Como já disse outras vezes aqui no blog, vivo preocupada com a perda dos valores, dos significados,dos propósitos, do respeito à dignidade de uma pessoa. Mais que apenas preocupação, tento agir de modo coerente com o que acredito. E os mais primordiais ensinamentos sobre respeito ao próximo (não apenas vindos das pregações de Jesus, mas de muitos mil anos atrás, quando os antigos filósofos lembravam de não fazer com o outro o que não gostaríamos que fizessem conosco) estão sendo esquecidos, execrados, inutilizados por um mundo onde mais vale o bem próximo do que o bem do próximo, sempre.
O que Zygmunt Bauman fala sobre a "sociedade líquida", dos tempos líquidos, de tudo o que hoje se perde na fluidez dos tempos, em que nada é duradouro e propósitos sólidos são diluídos, é inteiramente verdadeiro. Basta ver o motivo dessa chacina. Qual foi? Bem, o algoz da família dissolvida não sabia o que explicar. Disse apenas que dias antes, havia partilhado uma galinha com a família assassinada (eles eram vizinhos) e ele e sua mulher haviam ficado com os pedaços menos nobres da ave.
Eu, realmente, não consigo suportar fatos como esse. E muitos dirão: mas o que sua indignação aqui no blog muda as coisas? Pode ser que realmente, não mude nada. Mas, apenas contemplarmos todos os dias o mal, como as pessoas sofrem, como a inação é permanente, e dizer que nada podemos fazer é uma desculpa fraca e pouco convincente, até mesmo para nós mesmos. Como o próprio Bauman diz: "Não há como negar que em nosso planeta abarrotado e intercomunicado dependemos todos uns dos outros e somos, num grau difícil de precisar, responsáveis pela situação dos demais; enfim, que o que se faz em uma parte do planeta tem um alcance global. "
Concordo com ele. E digo que não vou me acostumar nunca a notícias como essa. Vou continuar alertando a mim e aos que me são próximos para enxergarmos além do nosso próprio nariz, retirando o poder que a individualidade assume hoje para, ao menos alguma vez, nos preocuparmos com quem está ao nosso lado. Nossas crenças individuais não podem suplantar o respeito à vida humana, à dignidade do outro, à correlação existente entre o meu bem-estar e o seu. Podemos até não modificar coisa alguma no mundo, mas, por favor, não vamos, nem podemos, nem devemos deixar que o mundo nos modifique a ponto de sermos apenas mundanos, e não verdadeiramente humanos.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Se cada dia cai
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira do poço
da sombra
e pescar luz
caída com paciência.

(Pablo Neruda)

terça-feira, 30 de junho de 2009

Só lembrando: os comentários são respondidos no mural!
E quem quiser mandar e-mail pra elogiar, esculhambar, pedir conselho, mal falar, fofocar, ou mandar textos para publicar aqui tb pode: viviannefreitas2@hotmail.com.
Ouvidoria Nu Canto: Chique, não?

Verdade e Liberdade


Por muito tempo, por medo de magoar as pessoas, eu falava "mentiras sinceras" , tentando suavizar o impacto de uma verdade. Confesso que até hoje, quando a situação é extremamente delicada, eu ainda invento algumas desculpas, na tentativa desesperada de não magoar aquele que deseja não ouvir o que verdadeiramente se quer dizer.
Mas, ultimamente, tenho preferido respirar fundo e simplesmente ser verdadeira. Os politicamente corretos dirão que esta é a atitude que revela o caráter e a dignidade de alguém, e por isto mesmo, sempre deve ser tomada, independente das circunstâncias. Mas eu ouso dizer que não é fácil. Não é fácil mesmo. Principalmente nos assuntos do coração, que mexem com aquela primeira necessidade básica de todo ser emocional que é saber-se amado. Quando sabemos que somos amados por alguém, é como se, de repente, passassemos a existir. Daí porque é tão fácil, nesses tempos de extrema carência em que vivemos, dizer um 'eu te amo' no fim de um telefonema. Aquela frase, por uma incrível mágica, acaba criando no outro a segurança e o conforto de sentir-se acolhido por alguém, ainda que a frase seja repetida quase de forma mecânica, e por vezes, de verdade duvidosa, apenas para manter uma certa dependência.

Mas vem o outro lado, quando temos a certeza de que não amamos alguém. Quando sabemos que essa verdade é passado (não amei), presente (não amo) e futuro (não amarei)? Como dizer isso a alguém que suplica, sedento, por uma centelha de amor para sentir-se vivo?

Essa talvez seja a questão com a qual eu nunca soube lidar, justamente porque sei o quanto a rejeição dói. Me coloco no lugar do outro e dói em mim saber que vou provocar sofrimento em alguém. Por isso sempre usei dos mais variados subterfúgios para tentar não dizer às claras que eu não estava a fim.

Só que, dia desses, enquanto eu lia ocasionalmente a Bíblia, lá estava a grande saída: "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará." Deus me perdoe, me perdoe mesmo, por estar usando de suas palavras para postar aqui no blog, mas eu não tenho como fugir da preciosidade deste ensinamento. Saber a verdade e não omiti-la é simplesmente, libertador. Não esconder o que se sente, liberta não apenas quem fala, mas principalmente quem ouve. Não mais confusão ou mistério diante dos silêncios ou das desculpas, sabe-se enfim, a verdade.

Talvez se conseguíssemos falar o que sentimos, muitas carências, traumas e solidão seriam resolvidos. Até mesmo porque silenciamos também em dizer ao outro o quanto ele é importante para nós. Às vezes, nos meus extremos de solidão, eu chegava a pedir aos meus amigos e namorados que me escrevessem cartas e depoimentos virtuais, na tentativa de saber sim, que eu era amada, e muitos me chamavam de carente. Pode ser, mas ainda assim, gosto da verdade. A verdade sempre me libertou. Se você pode me dizer o quanto eu sou importante, porque deixar que eu pense que eu não valho muita coisa?

No reverso desse lado, temos o quanto é importante também, dizer que não, não amo, não quero, não tenho interesse. E dar ao outro a possibilidade de se libertar para encontrar alguém que verdadeiramente o ame. Nada de "relações de bolso", que são aquelas em que vc sabe que não quer amar o outro, mas o deixa ali, no bolso, para caso mude de idéia. Não temos esse direito.

Peço desculpas ao Cazuza,mas "mentiras sinceras não me interessam"...

sábado, 27 de junho de 2009


Fiquei orgulhosa de mim hoje. Aprendi, sem alarde, a não repetir mais os mesmos erros, e consegui fazer diferente. Consegui, em meio a mais uma turbulência na vida, a respirar e dizer: "vamos em frente". A angústia, ansiedade e medo, esses três irmãos infelizes, não conseguiram me acelerar em ritmo descompassado. Porque chega um grande dia em que você descobre que tem um imenso poder nas mãos. O poder de decidir o jeito mais ameno e mais calmo de lidar com as coisas, porque definitivamente, nada é eterno, tudo se esvai sem que possamos deter. Não adianta tentar encaixar à força o que não nos cabe. Aprendemos essa lição de maneira tão clara que chega a se confundir com insensibilidade.Mas não é. É sensibilidade além do usual. É saber que a vida se desenrola em ciclos, e através das marcas que cada início ou cada fim nos deixa, podemos ver com clareza a diferença entre as duas coisas.

Antes, por imaturidade, ou até mesmo falta de poesia em ver a beleza por trás dos tempos, escapamos de ser melhores, ou deixamos que aquela centelha de felicidade nos fuja. Hoje, não. Hoje tenho a obrigação de olhar além, de saber que nenhum desespero ou apego exagerado é bom, porque aprendemos que tudo na verdade, está onde deveria mesmo estar, como se tivesse sido milimetricamente planejado, mesmo que achemos que nossas dúvidas desviaram o rumo das coisas. Não.

Nunca acreditei no determinismo do futuro e do destino, mas acabo aceitando, placidamente, que a espera é algo que sempre nos traz boas e felizes surpresas. E cá, pra nós, é como se tudo tivesse sido planejado mesmo. Mas só as coisas boas. Porque eu realmente não acredito no Deus do castigo que leva os bons antes da hora. Isso sim, é acaso. Acredito que temos um caminho de retorno, em busca do que nós verdadeiramente somos, e que, por descuido, perdemos. Com o tempo, o precioso tempo, vamos nos reconhecendo nos lugares que nos deixamos, e que sempre foram nossos, ainda que nunca tivéssemos ido até lá. Vamos nos descobrindo naqueles jardins secretos, na música que fala ao coração, no poema nunca lido, no sentimento desconhecido. E eu não me canso dessa busca.


"Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria...

Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos...

Essa... a alegria que ele quer."

(J.Guimarães Rosa )


p.s: Por falar em Guimarães Rosa, soube hoje, na Tv Senado, que quando ele era cônsul do Brasil na Alemanha, em plena 2ª Guerra Mundial, acordou de súbito em uma noite, com uma vontade desesperada de fumar. Vestiu o casaco e foi até um bar que ficava aberto até tarde e comprou um maço de cigarros. Quando voltou, seu prédio tinha sido bombardeado. O cigarro, literalmente, salvou sua vida...

"É dificil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo."


Clarice Lispector.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Meus anticorpos me odeiam. Quando é véspera de qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, desde casamento de anão até eleição de presidente de SAB (ainda existe? hehe), eles resolvem simplesmente, aproveitar a festa com antecedência e não trabalham. Desta vez, estou com conjuntivite. Acordei parecendo o Mike Tyson quando apanhou do Holifield e ficou com um olho inchado e o outro aberto. Até chorei p/ ver se não eram lágrimas acumuladas, mas não surtiu efeito. É, parece que no São João eu vou ter que rezar mesmo é pra Santa Luzia dar um jeito nos meus "zólhos". Isso é o que eu chamo de verdadeiro "mau olhado"...vixe.

Como é de praxe nessa época, aí vai um cordelzinho: (Um ótimo blog pra quem gosta de xilogravura é o "blog.jvicttor.com.br", com lindos trabalhos do artista, como este abaixo)

A menina dos zói
Quando a moça adormeceu
Viu, sem ver, o rapaz
Ficou,enfim, em paz
Mas abriu um olho e percebeu
Que ele não estava lá

O outro olho se recusou
a se abrir pro outro caminho
preferia ficar sozinho
mas continuava tristonho
e perseguiu no sonho
a volta do amado
ele tava do outro lado
do olho que se abriu

E a moça ficou tonta
sem saber o que fazer
se ia pra trás ou pra ponta
quase a enlouquecer
Mas de repente apareceu
a Santa Milagrosa
e depois de tanta prosa
uma pomada ofereceu

A moça esfregou e pediu
pra não ficar cega,
oferecia muita reza
se a Santa lhe curasse
que uma solução mostrasse
pro problema que surgiu

A pomada era potente
e fez a coitada enxergar
que o problema era esperar
pra ser feliz pra sempre

A moça precisava urgente
ver só o que lhe bastava
só assim a paz lhe alcançava
e ela ficou toda contente

Agradeceu a Deus, o bom pastor
e o outro olho se abriu
queria ver o balão que subiu
que chamaram de esperança
e que nem uma criança
a moça chorou e sorriu
e nem lembrou mais que sentiu
aquela dor, enfim, passou.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Nu TOP!

Não sei quem indicou o Nu Canto, mas recebi um e-mail hoje dizendo que nosso blog querido havia sido indicado e que eu devia fazer o cadastro para participar. Fiquei muitíssimo feliz, muito mesmo, e queria saber quem foi essa pessoa tão legal que apareceu lá pra indicar meu e-mail! Puxa, sei que nosso canto aqui não tem muita chance de ganhar, mas só de ter leitores tão bacanas, ele já é um grande vencedor!!! Prometo postar mais, prometo! E pra quem quiser votar no blog, aí do lado tem o link! E se a gente ganhar, eu vou fazer uma festança daquelas, ao vivo, com todo mundo. Ah,e deixem logo o e-mail de vcs aí, com informações sobre suas pessoas (vai que isso aqui se transforma em blog casamenteiro...). Beijos, gente. E obg, mesmo!!!!

terça-feira, 16 de junho de 2009

"Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé - não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. (...) Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. (...) Sinto uma dor enorme de não ser dois e não poder assim um ter partido, outro ter ficado com todas aquelas pessoas."

(C.F.Abreu)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"Não sou feliz,mas tenho namorado"


Aos que já viram a peça "Não sou feliz, mas tenho marido" (cuja autora é minha xará argentina, Viviana Goméz) me perdoem pegar esse título emprestado, mas acho a idéia simplesmente genial. Ainda não vi o monólogo, mas me permito tecer algumas considerações sobre o que tenho visto por aqui: ter um namorado (noivo, peguete ou tantas outras derivações) às vezes é mais uma forma de ter sucesso perante os outros do que verdadeiramente se sentir feliz.

Observo muitas mulheres infelizes com as relações que tem, mas que não abrem mão de jeito nenhum de ter um parceiro, por mais "tampão" que ele seja. É como se servissem apenas para mostrar à platéia: "olha só, tem alguém que me quer" e incutir nas solteiras-sozinhas uma idéia de fracasso que, definitivamente, é estúpida.Mas existe. E o pior: surte tanto efeito, mas tanto efeito, que por vezes, vejo mulheres maravilhosas que deviam ter um parceiro à altura, se contentando com um brucutu qualquer que acham que período fértil é assunto de agricultor.

Eu entendo perfeitamente que medos existem,e talvez o mais comum entre eles seja o medo da solidão. Mas não consigo classificar namoros estéreis como tentativas de fugir de tal receio porque eles conseguem transformar o medo em realidade: ter apenas um "namorado" pode ser muito mais solitário do que ser solteira.

E é fácil perceber o quanto mulheres (e homens) caem nesta armadilha. Basta uma olhadela em um shopping. Vemos casais que não se olham, não se tocam.Mulheres cansadas de ouvir seus companheiros, como se eles fossem um fardo, uma "cruz que deve ser carregada" como tantas dizem. Homens que não se cansam em adiar noivados, casamentos, por simples medo de terminar a relação e não encontrar "uma mulher direita", ou então correr o risco de que outro saiba valorizar a mulher por quem já não sentem paixão alguma.

Não jogo pedras nesse tipo de comportamento simplesmente porque sei que é uma atitude quase isenta de culpa. Se todos dizem que "é impossível ser feliz sozinho", o que todo mundo quer é encontrar alguém para amar e se sentir amado, como pressuposto de felicidade.

Mas é nisso que devemos focar: na felicidade. E não digo que relacionamentos são garantia de felicidade permanente, porque, definitivamente, não são. Mas alguns nos proporcionam uma possibilidade concreta de nos sentirmos melhores, a partir do olhar do outro sobre nossas belezas ocultas. Isso é o que todo mundo busca, e com razão. O que não podemos, de jeito nenhum, é nos conformar com uma tentativa, porque ela é só uma tentativa!

Ouço muitas frases do tipo: "Não tenho coragem de entrar pro mercado de novo, ter que ir pra balada, conhecer, esperar um tempão de namoro de novo..." ou "Vou casar com esse mesmo, porque hoje em dia homem bom tá difícil" ou a clássica "quando a gente casar, melhora". E o resultado, a gente já prevê..."Não sou feliz, mas tenho marido". E se já era difícil terminar um namoro, imagine um casamento...e lá se vem filhos, responsabilidades, e o tempo se encarrega de nos perguntar um dia: "Mas o que foi que você fez?". Aquelas pessoas a quem queríamos impressionar não pagaram a pena. Fomos nós. A vida era uma só, e não nos demos conta disso.

Fizemos escolhas esperando ser felizes no futuro, e no trajeto, fomos infelizes. E o pior: a felicidade dos romances medievais não veio. Valeu à pena?
Mulheres esperam, homens também. Mas são esperas diferentes. Mulher espera se apaixonar pelo mesmo homem de novo. Busca que ele queira isso e faça surpresas, transforme-se, e vai levando a relação esperando o milagre do encantamento acontecer de novo. Homem, nesse estágio de tédio, só espera uma nova paixão. E basta aparecer uma mulher que lhe devolva os batimentos cardíacos para ele ter coragem de acabar a antiga relação. Eu sei que parece simplista, mas é assim que acontece. E de um jeito ou de outro, alguém sofre, por algo que poderia ser evitado.

Ser solteiro não significa, de modo algum, ser só. Não falo de "ficantes" que sufocam a solidão, e sim de nós mesmos, de descobrir nossas próprias belezas, de nos apaixonarmos por tudo aquilo que é bonito em nós e não tínhamos tempo para perceber, simplesmente porque nos acostumamos a ouvir do outro. Talvez as melhores relações venham justamente com o auto-conhecimento, que nos permite não termos mais medos nem inseguranças, pois já sabemos do quão somos valiosos.

Quando a gente aprende a tirar o cascalho e ver que por debaixo dele,há uma pedra valiosa, não temos mais que nos submeter a preços de bijouterias. Já sabemos do nosso valor e só aceitaremos ser levados por quem souber nosso preço, por quem tiver o trabalho de pegar uma lente e examinar cada detalhe nosso que faz de cada um de nós uma peça rara e valiosa.

Que o dia dos Namorados seja mais que uma data comercial. Seja o dia em que você examine,com cuidado,se antes de ter alguém do lado, você está enamorado de si mesmo. E se tiver alguém, se ele é mesmo "namorado", se tem "amor" no meio. Se estiver solteiro, aproveite para se tornar a pessoa que você quer encontrar.

Por fim,esqueçamos tantos medos.

Porque medo maior é mesmo o de não ser feliz!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Fiquei tão feliz com os últimos comentários de vocês que vim aqui só pra atualizar esse nosso canto. Me sinto até meio responsável por fazê-lo, já que acredito no que a raposa disse ao pequeno príncipe (lembram, né?). E só pra colocar mais uma lenha nisso, saibam que vocês também me cativaram,e são extremamente responsáveis por este blog. Bel, querida, claro que lembro de vc, e ler seu comentário foi uma "epifania", dessas que nos fazem não saber bem o que dizer...muito obrigada.
Para os fiéis escudeiros que comentam sempre, só me resta agradecer muito mesmo porque são vocês que mantém a chama dialética acesa. E para os que leem, mas não comentam, também o mesmo agradecimento, pela mesma lógica, ainda que a chama acenda pelo "impulso vital". ;)
***
Enfim,muita coisa acontecendo nesta semana me fez pensar em uma infinidade de assuntos pra conversar aqui. Talvez falar que, depois de me mudar de novo (em pouco mais de um ano, seis vezes...) e ficar doente mais uma vez ( em pouco mais de um ano, seis mil vezes...), eu poderia dizer que mesmo assim, ainda não cansei de mudar, e rezo para que eu não descanse tão cedo. O fato de estabelecer uma moradia, conhecer cada pedaço de um lugar, conhecer os vizinhos, comprar mobília nova, e depois vender, começar tudo de novo, me faz mais bem do que me cansa. Me sinto viva e mais disposta, apesar do cansaço (esse assunto a gente conversa no próximo post) . Comungo do mesmo pensamento de Guimarães Rosa:
"Mire e veja que o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam."
Mas é inevitável não pensar na tragédia que interrompeu a busca de 228 pessoas. Ao ver na TV (pois é, as pessoas mudam rápido!) a história de cada passageiro, lembrei do livro "Por quem os sinos dobram", do Ernest Hemmingway, em que ele fala:"Quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade." Fiquei pensando que talvez este seja o motivo que faz as pessoas entrarem em estado de contemplação e consternação, e um movimento de saber quem eram as vítimas e quais suas histórias de vida dê tanta audiência: vemos o quanto é triste histórias acabarem sem entendermos o final. Como entender que o casal em lua-de-mel não foi feliz pra sempre? Como interpretar a morte de alguém que levou uma vida para conhecer Paris, e foi interrompido há poucas horas de chegar lá?
Ficamos consternados por não entender e ao mesmo tempo, sabermos que nossa história também será interrompida, sem que possamos descobrir em qual capítulo será. E "quando morre um homem, morremos todos" porque uma parte dos nossos sonhos também morre, sobretudo o de achar que a eternidade é certa. Pode ser que não.
"Somos parte da humanidade" e isso nos une aos que já foram e aos que ainda virão, na busca para que os sonhos possam ser realizados antes de serem interrompidos. Acidentes como esse, assim como as milhares de "interrupções" que acontecem todos os dias devem servir para nos ensinar a morrer. Devemos não parar de escrever nossos capítulos, não deixar páginas em branco, fomentar enredos, personagens, colocar paixões, tristezas, suspense e tudo aquilo que faz de um livro algo memorável e digno de ser lido por outras gerações, ainda que inacabado.
Sejamos então incansáveis em viver. Lembro agora do livro "A menina que roubava livros", em que a "Morte" escreve:
"Às vezes eu chego cedo demais.
Apresso-me,
e algumas pessoas se agarram
por mais tempo à vida do que seria esperável."