quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Estou em um vazio literário, mas há razões: além de ter visto a peça de Clarice Lispector, em quem Beth Goulart declama trechos dos livros que mais gosto de Clarice, me senti tão pequena perto do que ela escreve que tenho vergonha (sim!) de escrever "publicamente". E a segunda razão que tem tudo a ver com a primeira, é que ando escrevendo secretamente (pelo menos o destinatário ainda não sabe) para o meu filho, Levi, que se Deus quiser, chegará no fim de fevereiro do ano que vem. Já estou na metade de um pequeno caderno (aliás, o caderno veio de Barcelona, cheio de arte, presente da minha comadre Luana). Espero que um dia Levi possa ler e saber do quanto o amei antes mesmo de ver seu rosto.

Na verdade, tudo o que tenho feito ultimamente é pensando nele. Absolutamente tudo, até meus momentos de tristeza ou desespero são dedicados a ele, pois não sei se serei uma boa mãe, tampouco a provedora que eu deveria ser. Imagino o tempo todo que ele já deveria vir com um reino construído, porque é assim que eu o vejo, como um pequeno príncipe. Mas nem só de preocupações vive uma mãe, eu suponho, e por muitas e muitas vezes me pego sorrindo sozinha e me sentindo feliz como nunca estive. Levi mexe nos momentos mais silenciosos do dia, como um filósofo a se inquietar com o que é cômodo. Tenho a impressão de que ele já sabe muito mais de mim do que apenas saber onde exatamente se localizam minhas costelas. É como se meu filho já soubesse quem eu sou, a partir das minhas emoções. E talvez seja por isso que pergunto tanto a ele: "Mas por que diabos você me escolheu como mãe? Tanta mãe perfeita por aí, e vc, tão lindo e inteligente, veio cair logo na barriga da mãe mais alterada de todas?". Acho que quando travo esses diálogos, Levi ri. Me sinto perdoada por todos os meus pecados só por ter a chance de carregá-lo na barriga.

Quase todos os dias canto uma música para ele. Na verdade, não são músicas infantis, são músicas de amor. Tenho uma lista, mas há uma especial, que eu gostaria de ter escrito para ele: "The Reason", do Hoobastank. Música antiga, mas que fala alto ao meu coração para Levi. Antes que minhas lágrimas caíam ao mesmo tempo em que meu sorriso envergonhado apareçam, a música é essa, e a razão é você, filho.



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Conto para o meio dia.


Uma música não saía de sua cabeça. Depois que a letra era excessivamente repetida, sem que necessariamente fizesse parte do seu gosto musical, sua mente pulava para outra canção e assim ia durante longos períodos, ao mesmo tempo em que múltiplos pensamentos saltitavam entre as músicas. Ao fim do dia ou de um longo período de músicas, pensamentos e orações, sua mente parava, exausta. Não conseguia mais pensar em nada. Deitava, lânguida e sofregamente, em uma rede e passava a contemplar o céu como uma miragem, um sonho em forma de cor que lhe transportava para um lugar de paz-minuto. Afinal, daqui a pouco sua mente iria começar a trabalhar de novo, e esse minuto de paz lhe dava um descanso e um conforto que deveria ser sorvido a cada segundo como um gole de água em um deserto de sede.
Pensava, ou melhor, invejava quem apenas vivia sem que a mente lhe interrompesse a todo instante. Por que não poderia ser assim? Quem havia decidido que seu destino era pensar? Pois gostaria de falar-lhe. Dizer-lhe o quanto sofre por ser assim. Assombrar-lhe com sua rotina incessante de pensamentos desordenados e letras de músicas. Vez por outra ainda rezava no meio da canção. Estava cansada de ser. Buscava, desesperadamente, uma tentativa de fingir ser outra pessoa. Poderia fingir tão bem quem sabe, que acabaria acreditando no próprio fingimento e tornando-se efetivamente aquela que fingia ser. Era uma boa ideia, mas não exequível. Já tentara muitas vezes esta estratégia, mas não conseguia durar muito tempo sendo quem não era. A máscara caía e ela olhava para o chão, com vergonha de ter tentado e mais uma vez, falhado. Vergonha, sobretudo, de ser só. De ser sua única companhia, mesmo com o universo inteiro ao seu lado. Era só porque assim tinha de ser. Coisas de quem não consegue se entender nem fazer-se entender. Coisas de quem busca uma verdade interior que jamais virá. 
Passado um tempo, aliás, 58 segundos, Amália quase estava calma. Não fosse pela galinhada na cozinha, seus pensamentos teriam se anulado e a deixado em paz. Mas o fogão começara a exalar um forte cheiro de queimado, e lá vai ela, já pensando no que a comida queimada poderia fazer em seu estômago. Claro, pois não haveria de cozinhar outra coisa. Já bastava de ter de pensar, ainda mais em receitas? Ela se recusava. E assim podia exercer alguma liberdade naquela personalidade que tanto a aprisionava. 
Amália conseguiu salvar o almoço, com a graça de quem sabia fingir. Deitou as partes cozidas e brancas da galinha sobre o arroz, despejou sobre ele o molho espesso e a panela queimada ficou para trás. Borrifou detergente e deixou que a panela esquecesse, delicadamente, sua vergonha de estar suja, ao lado de tantas outras panelas limpas e brilhantes.
Ficou observando aquela cena por um instante e lembrou-se do tempo em sua vida: era ele seu detergente. O tempo deslizava sobre suas manchas e as apagava. Limpava sua alma dos ressentimentos e rancores tão difíceis de retirar. Jamais voltaria a ser reluzente, achava, mas pelo menos estava limpa.
O marido de Amália tocou a campainha e ela gentilmente abriu a porta. Tê-lo ali, tão claro e límpido, era como um objetivo a ser alcançado. Gostaria de ser simples como ele. Trabalhar, comer, amar, vestir, dormir. Sonhos apenas quando se está dormindo. A vida era boa. Só ela que não enxergava?
Para ela, viver não poderia ser apenas isso. Mas não sabia verdadeiramente o que buscava, ou mesmo se buscava alguma coisa. Aquela inquietação era sofrida. Vinha como uma onda gigante a lhe afogar, a dizer-lhe que ela era um ser inerte que nada fazia a respeito de buscar sua vida de verdade. Mas que diabos de vida era aquela que a onda queria? Ela não sabia. E de repente, escuta um elogio vindo da cozinha. Seu marido acabara de provar a galinhada queimada, achando-a deliciosa. E neste momento, Amália conseguiu rir pela primeira vez no dia. Ela estava conseguindo não-ser, apenas existir. E isso era uma grande libertação. Pelo menos para hoje. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012


Nesta semana recebi um mandado para uma clínica psiquiátrica em Recife e fui até lá. Já visitei algumas, mas esta me tocou de uma forma muito profunda e triste. Enquanto eu esperava pela diretora para intimá-la, observei os pacientes no pátio. Cada um preso em sua própria cela: sua mente. Tentei escrever sobre o que senti, mas meus próprios sentimentos estavam tão confusos que só me restou fazer alguns rabiscos...


Louca Solidão

Ninguém merece viver à sombra de si mesmo
À espera do seu eu que se perdeu
Contando o tempo para se devolver
Olhando as horas sem minutos, sem sentidos

Ninguém deveria enlouquecer
Nem de amor, nem de dor
O desespero é a beira do absurdo
Onde nada tem uma razão
Só a solidão

Ninguém poderia se esquecer de si
Perder a paz que nos orienta
O sentido que nos equilibra
O afeto que nos sustenta

Ninguém gostaria de enclausurar-se
Em alguém que não lhe pertence
E aos poucos a distância aumenta
As pessoas esquecem, a prisão se estabelece
E só lhe resta o olhar vago
A madrugada do meio-dia
A visão de um só horizonte

Ninguém está à sua espera
E assim eles vivem, sós
A tal ponto que lhes falta
a sua própria companhia.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Sapo e a Baleia

Era uma vez uma baleia, a "Jubarte", que adorava nadar nas profundezas. Desde pequena, enquanto as outras pequenas baleias não gostavam de passar muito tempo debaixo d´água, ela tentava controlar ao máximo a respiração para só subir para a superfície para não morrer. Afinal, como a mãe dela gostava de advertir, baleias são mamíferos, e não peixes, portanto, era necessário respirar fora da água.
A pequena Jubarte não entendia e se revoltava por sua condição precária, segundo ela. O oceano era uma imensidão de mistérios que ela deveria desvendar. Não aceitava sua falta de guelras, como as que os peixes tinham, que o faziam nadar por todo o fundo do mar sem precisarem interromper sua busca apenas para respirar.

Jubarte foi crescendo sentindo-se inadequada no meio em que vivia. Não gostava da superfície, do raso, do trivial. Não comia peixes, não pela inveja que eles a causavam, mas porque tinha dó. Não conseguia entender como as outras baleias apenas abriam a boca, destruíam milhares de vidas e continuavam felizes. Só comia plâncton. Seu Pai dizia sempre que era a lei da natureza. E explicava a cadeia alimentar marinha, o ecossistema aquático e dizia o quanto era importante cumprir o papel que lhes era dado. Ainda assim, ela não aceitava.

E justamente por não entender tantas regras, Jubarte foi criando as suas próprias. E foi sendo deixada de lado pelas baleias da sua idade, afinal, era complicado demais ser amiga de Jubarte. Sempre falando de dúvidas, de sentimentos, dos filmes em que as baleias eram heroínas e até amigas dos humanos. Por isso, só tinha poucos amigos, dentre eles a  baleia Azul, a peixe Espada, e a peixe Arraia. As três amigas de Jubarte eram curiosas como ela, mas a baleia Azul não entendia muito o por quê dela não gostar da vida que tinha, afinal as baleias viviam como tinham de viver, sem precisar entender muito. Ela era prática, mas gostava de Jubarte. Eram como Dom Quixote e Sancho Pança ( no livro de Miguel de Cervantes há uma frase que lembra bem a diferença da visão dos dois. É quando Sancho diz: "mas sabe Deus se eu não achava melhor que Vossa Mercê se queixasse só quando lhe doesse alguma coisa.").




Arraia e Espada entendiam melhor Jubarte, porque era como se Jubarte fosse realmente, um peixe e não uma baleia. As três tinham afinidade suficiente para conversarem sem se espantar com as loucuras da outra. Azul escutava e achava tudo uma grande loucura, principalmente quando Jubarte decidiu viajar. Decidiu impulsiva e instintivamente, como era de seu feitio. Combinou com as amigas para, caso não voltasse em um mês, irem procurá-la. Jubarte queria mais do que ver as mesmas coisas sempre. Queria ver o mar de uma perspectiva ainda mais profunda, sem ter de explicar sempre a razão do seu querer.

Nadou quando todos dormiam. Foi-se maravilhando com cada paisagem que via, cada ser vivo que nunca tinha visto, e cada dia era diferente do outro. Até que teve saudades de casa. Saudades da sua família, dos seus amigos, do pequeno peixinho Barrigudo, para quem ela contava historinhas. Ficou triste. Comeu todo o plâncton que havia, mas ainda sentia fome. Decidiu voltar para casa. Apesar de maravilhoso, o fundo do mar era um lugar muito solitário. E apesar do seu espírito introspectivo, ela gostava de estar perto dos seus semelhantes, era como se eles curassem sua natureza de ser só. Subiu à superfície, enfim, para respirar e voltar para casa.

Mas eis, que, ao subir, se deu conta de que havia ultrapassado a divisa do rio com o mar. Estava num rio! Ficou angustiada em não saber como voltar, haveria de esperar a maré encher novamente e poder escapar dali. Sentiu-se vulnerável e com medo. Até que um sapo apareceu. O sapo não lavava o pé, nem o corpo, odiava água. Chamavam-no de Papo, e não de sapo, porque adorava conversar. E não foi diferente com Jubarte. Ao vê-la, achou  que a beleza do mundo inteiro havia pousado naquela baleia. Foi, então, conversar com ela, apesar de ela estar muito mergulhada na água. Jubarte achou aquele Sapo muito estranho e feioso. Mas logo que começaram a conversar, Jubarte riu. E continuou rindo o tempo todo com o Papo do sapo. Gostou dele e decidiu ficar ali por uns dias.

Descobriu que Papo só gostava da superfície. Era exatamente o contrário dela: ele como anfíbio, tinha a obrigação de mergulhar na água para continuar respirando. E odiava. Odiava porque não queria mergulhar no desconhecido. A superfície era um lugar muito bom, ele tinha muitos amigos terrestres, vivia pulando de pedra em pedra, de casa em casa, e ia vivendo sem precisar entender muita coisa. Papo gostava do vento, da leveza, não da densidade, da profundidade. Para quê? O fundo do mar deve ser um lugar triste, sem luz e sem ar, dizia. Jubarte começou a entender pela primeira vez, que talvez a vida não fosse tão misteriosa como ela pensava. A vida podia ser simples. E foi, sem querer, se apaixonando por Papo. Estar com ele era como se estar o tempo todo de férias. E isso era algo que ela jamais tinha experimentado.

Foi gostando do brilho do sol na água, de respirar melhor na superfície. Mas não conseguia ficar muito tempo ali. Foi falando para o Sapo das maravilhas das profundezas, da beleza oculta em cada paisagem que via, do que tinha visto e vivido até ali. Papo ficou encantado. Aquilo parecia tão bonito que ele tinha medo de que passasse pela vida sem nunca ter mergulhado no mar. Era uma loucura, mas ele queria viver isso com Jubarte. Sua mãe ficou louca. Como é que ele queria ir embora com aquela imensa baleia? Ele iria morrer!
Mas o amor dos dois foi suficiente para chegarem a um acordo. Papo teria que mergulhar o máximo que podia e Jubarte teria que subir ao seu máximo também. E assim aconteceu. Todos do mar e da terra foram convidados a ver o encontro daqueles que não apenas se atraíram, mas se equilibraram em seus opostos. O casamento foi uma grande festa de encontro entre o rio e o mar! 

Papo e Jubarte foram viver numa lagoa, profunda em um trecho e rasa em outro. Aprenderam a conviver nos dois lugares, mas sem perder o que cada um amava. E assim viveram felizes, até que um peixinho pequeno chegou e quis fazer companhia aos dois. Chamava-se LEVI.
E Papo e Jubarte viveram felizes para sempre, pois descobriram o que era "Amor".

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Mutatis Mutandis

Segunda-Feira sempre é tido como o dia mundial de se começar uma dieta, mas para mim, a segunda sempre foi o marco para mudanças. É quando eu me sinto preparada para, após muito pensar e analisar mil hipóteses e variáveis no fim-de-semana, dar o primeiro passo na direção das coisas que desejo para mim. O problema é que mudar é difícil. Para nós é muito mais fácil nos acostumarmos com o que já temos, mesmo até que não seja bom. O problema é que não mudar, não assumir essa coragem de abandonar o confortável e partir para a busca nos mata aos poucos, lentamente, mas de maneira efetiva. Vamos perdendo o viço, o encanto, a paixão pela vida. Não mudar e continuar do mesmo jeito faz com que a gente vá desacreditando de nós mesmos. Talvez a depressão se instale exatamente no momento em que nos acostumamos a sermos sempre os mesmos, a fazermos sempre a mesma coisa e esperar pelo um amanhã igual ao hoje.

É claro que não estou falando de mudanças à tôa, aquelas que fazemos apenas para não passar vontade. Há pessoas que mudam tanto e à toda hora que talvez a própria mudança já tenha virado rotina. Para elas, não há como conviver com o estável. A vida parece uma corrida frenética em busca do melhor- essa ilusão que faz com que a gente despreze até mesmo aquela felicidade branda e tediosa, própria do equilíbrio. Mas será que para conquistarmos esse equilíbrio não precisamos cair, voltar à corda bamba, fazermos as escolhas mais difíceis, desequilibrarmos totalmente a fim de que possamos encontrar o lugar em que possamos colocar os pés no chão?

Para mim, a mudança mais difícil é essa: a de aceitar o desequilíbrio, a contradição. Enxergar a inadequação entre onde estamos e onde achamos que deveríamos estar. Me identifico quase que totalmente com uma frase do Baudelaire: "Parece-me que sempre estaria bem lá onde não estou, e essa questão de mudança é uma das que não cesso de discutir com minha alma."  Pois é.  Mas cansei de discutir com a minha alma se esse lugar onde eu acho que eu deveria estar é mesmo meu. Eu vou atrás dele. O que me encoraja é o sentimento pulsante que diz que eu devia estar ali, e não aqui. Se aqui fosse o meu lugar, será que eu não estaria em paz, me sentindo adequada? Padre Fábio de Melo sempre fala que é exatamente essa a ideia de felicidade: me sinto bem porque sei que estou exatamente onde eu deveria estar. 

Antes que você, leitor, me acuse de nunca estar satisfeita, eu tenho de concordar com você. Eu realmente acho que a linha reta é a morte. Guimarães Rosa dizia, brilhantemente: " O animal satisfeito dorme". Para ele, esta frase era um alerta para o risco de cairmos na monotonia existencial. O maravilhoso escritor conclui que a satisfação limita, reduz a energia vital própria da condição humana. Lembro que li em um livro do Mário Sérgio Cortella que ele detestava quando alguém dizia que estava muito satisfeito com o trabalho dele. Ele dizia que essa frase era assustadora, pois refletia que nada mais dele se desejava; que dele nada mais se podia esperar. Essa perspectiva é revolucionária, não?

Quando eu estava a pensar em tudo isso, recebi meu exemplar da revista "Vida Simples", cujo tema, adivinhem: "Mudar é preciso". E parece que quando decidimos, enfim, sacudir nossa existência e dar o primeiro passo para a mudança, ocorrem certos fenômenos mágicos e transcendentais quem sabe, que fazem com que você saiba que o universo está ao seu lado, conspirando para que você não desista de prosseguir. E mesmo que nesta segunda-feira eu ainda não tenha concretizado todas as mudanças que planejei, sei que já consegui dar um passo. E como diz, de novo e lindamente, o Guimarães Rosa, "não convém fazer escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro..."

Para você que ficou com vontade de transformar a terça em segunda (ou em sexta, quem sabe), vá em frente. Para terminar com Baudelaire de novo, “Existem manhãs em que abrimos a janela, e temos a impressão de que o dia está nos esperando.”

Boa Sorte para nós! :)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Retornando...



Se um dia um demônio aparecesse na sua frente e lhe dissesse que tudo o que você fez até hoje, todas as escolhas, incluindo conquistas e derrotas, sofrimentos e prazeres, seria repetido indefinidamente, estando você condenado a viver para sempre a vida que escolheu viver, o que você sentiria? Alívio ou Desespero? Angústia? Medo? Paz? Essa era a lei do Eterno Retorno, de que Nietzsche tanto falava. Pelo que eu entendi na minha modesta inclinação filosófica de cada dia, essa "lei" nos mostrava a necessidade de assumirmos a responsabilidade por nossa vida como se ela fosse repetir indefinidamente.

Ora, se eu soubesse que tudo irá se repetir mais tarde, certamente terei mais cuidado nas escolhas que faço hoje. Essa ideia faria com que não nos preocupássemos tanto com a noção de céu e inferno, vidas passadas ou futuras, mas sim com a nossa vida atual, presente, concreta e pulsando por ser bem vivida. Talvez fosse por isso que o filosófo alemão era radicalmente contra igrejas e credos, por talvez impedirem o sujeito de assumir a responsabilidade pelo seu próprio destino. 

Fico pensando em como harmonizar tantas boas ideias ao que eu pressinto em relação à vida, e apesar de guardar as devidas proporções, essa ideia de Nietzsche me atrai. Ela me dá um norte sobre como me portar  diante das minhas escolhas. Se eu fizer sempre as mesmas escolhas, provavelmente (ou invariavelmente) terei os mesmos resultados. Repetindo os mesmos atos, até mesmo inconscientemente, eu vou deixando que um hábito (e não uma escolha refletida e analisada) possa decidir sobre meu destino. Complexo? Nem tanto. Percebo que as grandes questões que nos paralisam são quase sempre as mesmas. Sai ano, entra um novo, e surgem situações em que o ciclo vicioso se renova: e aí, o que você decidirá desta vez? Decidimos quase sempre a mesma coisa, e acabamos do mesmo jeito. "O mesmo jeito" é o confortável, o que já nos acostumamos. Fazer diferente e correr riscos? De jeito nenhum. Ficamos aqui, no mais do mesmo. E assim, ao economizarmos a energia que a força do hábito nos proporciona, vamos seguindo sempre à margem do que poderíamos ser.

Não sei até que ponto essa é uma escolha (in)consciente. O que sei é que, ao ver as mesmas cenas de um capítulo anterior estando em um novo capítulo, deveríamos acender nosso 'pisca-alerta'. Parar e pensar na Lei do Eterno Retorno, se aquilo é o que eu desejo que se repita indefinidamente na minha vida. Nunca esqueço de como consegui entender Kant e seu imperativo categórico pela primeira vez na minha vida: Foi quando, ao acabar a aula de Ética, perguntei ao meu saudoso Professor Luiz Augusto Crispim o que significava toda aquela ideia que me confundia tanto, e que me fez não entender uma só palavra do livro "A Fundamentação da Metafísica dos Costumes". Ele me disse, gentilmente: 'Vivianne, basicamente a ideia é a de que deveríamos agir como se nossos atos fossem virar leis universais a ser seguidas por todas as pessoas.'

E essa ideia resume muito bem todo esse texto: Como seria se nosso comportamento fosse repetido indefinidas vezes, por toda nossa vida? Se nosso comportamento hoje tivesse sido filmado para se transformar em um modelo a ser seguido, como nos sentiríamos? 

De toda forma, amanhã eu prometo sorrir para, quem sabe, sair melhor na "fita". ;)


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Tic- Tag...

Não consigo dormir. Quase duas da manhã, o silêncio da madrugada é interrompido pela profusão dos meus pensamentos: será que estou preparada para ser mãe? será que é a hora certa? será que minha vida vai acabar? aliás, se eu morrer, quem vai cuidar do meu filho? será que meu marido vai aguentar tanta mudança? e eu, será que vou? e nosso futuro? será que vamos ter dinheiro para mandar nosso filho estudar fora?

Para os desavisados, prazer, meu nome é TAG- Transtorno de Ansiedade Generalizada. Sou muito ansiosa, mas sempre me controlei porque sei dos efeitos nefastos desse defeito infeliz. Quase sempre convivo bem com minhas neuroses, sabendo que, de perto, ninguém é mesmo normal, e para os que assim se consideram, eu desejo que continuem se iludindo, é bem melhor. Enfim, yoga, leituras, alguns remédios ocasionais, terapia de vez em quando,  música e  religião sempre foram meus bálsamos contra a ansiedade e acho que nessa luta diária quase sempre eu ganhava.

Mas desde que me descobri grávida, no dia 21/06/12, ando em um terreno desconhecido, entre o completo encantamento com a vida e o temor enlouquecido de não dar conta da responsabilidade que Deus me concedeu. Tive um descolamento ovular há quase duas semanas e estou de repouso absoluto desde então. Eu imaginava que quem tivesse esse privilégio de não fazer absolutamente nada e com um álibi fantástico (afinal, todos dizem que vc tem de repousar...), deveria se esbaldar em livros, filmes, sorvete e mimimis. Mas comigo está sendo justamente o contrário. Fico pensando que a partir do momento em que meus hobbies viraram "obrigação" eles perderam a graça, e o que me restou de conforto foi escrever cartas para meu futuro filho (ou filha ;)). Confesso nelas que sempre achei que a maternidade seria um esplendor, e via sempre uma mãe perfumada, com longos cabelos ao vento, flutuando sobre um jardim de flores como uma escolhida para gerar um novo ser. Eu ainda acho essa imagem linda, mas quando me vejo no espelho, com um cabelo "ruim" que eu nunca tive, apavorada com certas listras vermelhas (estrias!) que começam a aparecer e com um buraco negro no estômago que já me fez engordar 4kg, fico pensando que pareço muito mais uma "Bridget Jones" na fase "mãe" do que uma fada encantada.

Acho até que o bebê ri de mim, e talvez até ele seja sarcástico e diga: "Você ainda não viu nada, mãe..." Mas sabe por que eu continuo escrevendo para ele e isso tem sido minha válvula de escape para não me sentir inútil? Estou descobrindo, aos poucos e diariamente, no que consiste o verdadeiro amor. Eu não achava que o amor era "feinho", como falava minha querida poetisa Adélia Prado. Sempre achei que o amor devia ser clichê, "Lindo". Pois, meu amor pelo meu filho é feinho, abusado, me deixa gorda e melodramática. Esse amor me faz chorar quando vejo qualquer cena. Uma mãe amamentando, um pirralho andando de skate, meus olhos veêm tudo como uma cena teatral. Parece que tudo se tornou muito mais claro, muito mais intenso e profundo. Esse amor me faz galopar com meu coração a cada ultrassonografia. Ver um filho se formando é como mergulhar em um terreno divino, do qual eu não sei absolutamente nada. Pela primeira vez entendo perfeitamente o que quer dizer aquela frase "dois corações batendo em um só corpo". Fico pensando no milagre que é ter mais um coração dentro de mim. Depois, ele sairá de mim e levará meu coração junto. É surreal demais para minha cabeça. Mas acho tão bonito que nem acredito que sou eu que estou vivendo isso.

Ainda não ter completado o primeiro trimestre é como passar por um teste diário de controle de qualidade, e não há como não se preocupar e temer que possa dar algo errado. Mas eu acredito que Deus está me ensinando a ser mãe a partir dessas preocupações. Não há como não se preocupar, mas o controle das coisas que nos acontecem nunca foi completamente nosso. Acaso, destino, coincidências, epifanias...acho que tudo só vai fazer sentido no final, quando contemplarmos tudo o que nos aconteceu.

Eu não ia escrever nada disto aqui, mas não me contive em debulhar neste canto, minhas inquietações. Em um sonho distante, mas quem sabe, real, este bebê que agora eu espero, pode já ter nascido, crescido e estar lendo as memórias da mãe louca que ele escolheu, cujo coração aumentou duzentas vezes de tamanho, só para que nele caiba o imenso amor que sinto. Amo sem saber para quem, nem quando, nem por que eu o amo tanto. Mas amo como uma necessidade urgente, como algo que há muito tempo está guardado para este momento e preciso dizê-lo, pois assim retiro sua poeira. E é para meu bebê que dedico este poema lindo da Adélia:


O que precisa nascer

tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar,
peço coragem.



Adélia Prado, em A duração do dia

terça-feira, 24 de julho de 2012

Capitães da Areia


No último domingo, o "Fantástico" exibiu uma reportagem sobre as precárias condições dos centros de internação para menores em vários lugares do País (Reportagem aqui!). A cada cena em que crianças e adolescentes infratores eram tratados como lixo, em condições animalescas, meu coração se condoía. Eu não sabia o que aqueles pobres diabos tinham feito de errado, mas eu sabia que o que o Estado fazia com eles era, com certeza, errado. Se Foucault pudesse ver a reportagem talvez a usasse como paradoxo do seu "Vigiar e Punir". No caso do Brasil, o livro mais adequado seria "Prender, Sofrer e Soltar". A diferença dos títulos talvez reflita a diferença entre os dois sistemas. No entanto, não quero falar sobre o sistema carcerário brasileiro. Quero falar sobre as reações que as pessoas tem ao ver "ladrões" ( e não "seres humanos") sofrerem as maiores atrocidades à vista de todos: elas vibram.

Uma pseudo-escritora comentou em uma rede social que tinha adorado a reportagem, pois não tinha pena nenhuma de adolescentes que "podiam trabalhar e escolheram roubar". Que eles deveriam apodrecer na cadeia e que nenhum castigo para eles era suficiente. E o pior, centenas de pessoas "curtiram" o comentário da moça e reforçavam o coro de que todos aqueles adolescentes deveriam ser mortos, assim como as pessoas dos "Direitos Humanos" que os defendem.

Eu vi tudo isso, e fiquei pensando em todos os horrores sem explicação que acontecem no mundo e que todo mundo fica estupefato: onde estão os valores dessas pessoas? Porque não é possível que alguém que tenha o mínimo respeito pela dor do outro fique feliz por ver um adolescente infrator ser espancado todos os dias, ter de fazer suas necessidades nas embalagens em que come por não existir banheiro, achar que é apenas "uma escolha" de uma criança pobre tentar ganhar a vida no tráfico.

O que me assusta é ver que essas pessoas são a maioria do mundo. O que me intriga é ver que a vida do nosso semelhante passou a ser relativizada, tanto pelos criminosos, como pelos "cidadãos de bem". Ora, se é crime não se importar com a dor alheia, todos então são criminosos. Eles se equiparam com a mesma insensibilidade.

Agindo como se tivéssemos "inimigos" e colocando esse rótulo nos infratores, nos aproximamos- e muito- do Nazismo e de todas as suas consequencias nefastas. Antes que me acusem de "defensora dos presos", digo que não compartilho da indulgência tantas vezes vistas no Código Penal. Até porque tive um tio que foi assassinado aos 23 anos de idade, cujo assassino foi absolvido. Para mim, um criminoso tem de ser punido exemplarmente. Mas meu ideal de punição não é ultrajante, que ao invés de educação, desenvolve-se pela humilhação e degradação. Acho que punir é fazer com que o infrator se arrependa do que fez, em que ele possa ver que o prejuízo foi maior que o benefício. Nas prisões brasileiras, essa lógica é completamente distorcida. Enfim, o que me assusta mais do que presídios, é ver a sociedade aplaudi-los pela sua precariedade.

Mas, o que podemos esperar de uma sociedade que dá audiência a um programa como "Pânico" e "A Fazenda"? Como falava Zigmunt Bauman, vivemos na "era líquida". Líquida de valores, de ideais, de sentimentos. Tudo se tornou fluido, nada parece concreto. E valores são sólidos. Valor pela vida, pelo menos, deveria ser escrito em pedra, mas para a maioria das pessoas, até este valor parece ser escrito na areia.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

MANIA DE EXPLICAÇÃO
(Adriana Falcão)


Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra.
As pessoas até se irritavam, irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito, com aquela menina explicando o tempo todo o que a população inteira já sabia. Quando ela se dava conta, todo mundo tinha ido embora. Então ela ficava lá, explicando, sozinha.
Solidão é uma ilha com saudade de barco.
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.
Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.
Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco.
Pouco é menos da metade.
Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.
Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.
Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.
Agonia é quando o maestro de você se perde completamente. Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.
Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.
Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.
Renúncia é um não que não queria ser ele.
Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.
Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente. Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.
Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.
Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.
Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.
Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.
Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.
Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.
Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.
Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.
Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.
Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.
Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.
Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.
Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.
Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.
Desatino é um desataque de prudência.
Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.
Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.
Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.
Emoção é um tango que ainda não foi feito.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Desejo é uma boca com sede.
Paixão é quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.
Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Milagres Reais

Assisti ao filme "A Felicidade Não Se Compra" nesses últimos dias. A película é de 1946, mas tem uma mensagem que ultrapassa qualquer marca de tempo: "Nunca se é um fracasso quando se tem amigos". O filme foi muito especial pra mim, pois o dinheiro que o personagem precisava desesperadamente era o mesmo valor que conseguimos arrecadar para Jamyle: R$8.000,00 (Oito mil reais). Mais precisamente, conseguimos arrecadar até agora R$8.200,00, cuja transferência para conta de Amaury foi feita ontem, juntamente com a lista de doadores, incluídos os anônimos. Além da quantia, tivemos promessas de passagens e de ajuda, até mesmo do Ministério Público!

Os pais de Jamyle ainda estão sem acreditar em tudo o que aconteceu nesses últimos dias. Eles disseram que quando o caso dela apareceu na televisão não receberam nem 10% da ajuda de agora. Isso me faz a pessoa mais feliz do mundo hoje, justamente porque sei que nossa capacidade de mudar a vida de alguém para melhor é real, concreta, e só depende da nossa iniciativa. Gostaria de agradecer a Deus também por ele ter dado inteligência a quem criou a internet! O blog, o facebook e as transferências on line fizeram com que o tratamento de Jamyle pudesse ser real. Graças a vocês...


Não tenho palavras para agradecer a cada pessoa que teve o coração tocado e que efetivamente, agiu. De forma concreta, honesta, cheia de compaixão e amor, cada um que doou  teve um gesto grandioso de caridade, de sensibilidade, de amor ao próximo. A cada uma dessas pessoas, o meu mais sincero agradecimento, a minha gratidão eterna e a minha oração para que a vida de vocês seja repleta de acontecimentos felizes. Cada uma dessas pessoas merece, de verdade, que o bem que fizeram volte pra elas, e eu tenho certeza absoluta que isso vai acontecer (se já não aconteceu)...

Obrigada, obrigada, mil vezes obrigada a cada um. Agora, resta-nos esperar que o Hospital diga a data da viagem para que possamos torcer, todos juntos, por uma menina que já mostrou o quanto é especial. Especial, sobretudo, por ter amigos como vocês. ;)



quinta-feira, 21 de junho de 2012

Amor Concreto

Um dia meu pai adoeceu e o levei ao Hospital da Unimed. Enquanto ele adormecia tomando soro, fui lanchar em uma lanchonete próxima dali. Enquanto comia, vi um cartaz que pedia ajuda a uma menininha de 11 anos, acometida por uma síndrome (Guillan Barré) que a deixara tetraplégica e em estado vegetativo. Perguntei à dona da lanchonete , quem era aquela menina, e a moça se surpreendeu com a minha pergunta. Disse que aquele pedido de ajuda estava ali há um ano, e nunca ninguém havia perguntado nada. Ela me deu o endereço (na 1ª rua à esquerda da Unimed, última casa do lado direito) e conheci Jamyle em junho de 2006. Me lembro muito bem de como cheguei lá, envergonhada, sem saber muito bem por que eu estava ali e sem ter muito a oferecer. Eu era estagiária, lisa, juntando dinheiro para me formar no fim do ano com direito a festa e vestido. Quando olhei Jamyle, vi que seu olhar era doce, seu sorriso era limitado, mas sua vontade de viver era algo quase palpável. Conheci seus pais, Amaury e Joelma, grandes exemplos de pessoas de fé e que levam a esperança como lema de vida. Nunca em toda minha vida, havia me deparado com uma situação tão triste e tão desesperadora: em uma dia Jamyle brincava com a irmã, no outro, sofria uma parada cardiorespiratória de 20 minutos na UTI  que a levaria a perder parte de sua mente. Mas esses pais persistiram na luta e assumiram a luta pela vida de Jamyle como missão.  Me lembrei muito do filme "O óleo de Lorenzo" e do seu final feliz.

Não sei por qual razão eu fui parar ali naquela casa, mas tenho a plena convicção de que a razão deve ser parecida com a que fez vc chegar aqui no blog. Deus deve achar que a gente serve para alguma coisa muito além dos nossos próprios interesses. Deus deve achar que a gente pode devolver para os filhos dele que estão sofrendo, o que conseguimos na vida. Eu acredito tanto nisso que resolvi, em 2006, ajudar Jamyle.
Fiz um pedido de doação de fraldas e leite em pó a todo mundo que eu conhecia, e comecei a visitar a família sempre. Conseguimos bastante coisa na época, Amaury e Joelma conheceram outras pessoas dispostas a ajudar e assim Jamyle foi melhorando pouco a pouco. Mas, infelizmente, vários médicos cometeram grandes erros, talvez pela negligência inerente a um paciente do SUS, e a evolução de Jamyle não foi rápida nem eficiente, apesar de significativa. 

Um dia, já em 2007, fui fazer um concurso em Brasília, tinha implorado ao meu pai pra pagar a passagem em 5x, que eu o devolveria depois. Me lembro bem que fui na Igreja de N.Sra. da Saúde, e lá fiz uma promessa que mudou radicalmente minha vida. Pedi, do fundo do coração, que Deus me ajudasse a conseguir um emprego estável, que me desse a chance de ajudar Jamyle  enquanto eu tivesse vida. Mas que se ELE não pudesse me atender, que pelo menos eu tivesse algum dinheiro para ajudá-la sem precisar pedir a ninguém. Deus me ouviu. Comecei a fazer audiências para um escritório de Belo Horizonte e comecei a ganhar alguns reais, dos quais alguns eram destinados para comprar fraldas e água rabelo.

Então Deus me chamou no concurso de professor da UEPB. E depois me chamou para o concurso que eu havia feito em Brasília. E depois viu que eu precisava voltar. E eu fui chamada em um concurso que me dava um salário razoável, em um emprego estável, e que eu poderia visitar Jamyle sempre. Deus não só ouviu minhas preces, mas realizou meus sonhos.

E foi sempre para isso que estudei na vida: para cumprir minha missão na terra. Eu tenho plena convicção de que não estou aqui para fazer número, que há milhares de pessoas que precisam da minha ajuda, e que eu tenho que devolver à vida tudo de bom que ela me proporcionou. Talvez seja por isso que nunca me falta nada. Deus deve ter uma camaradagem especial com quem se preocupa com os outros...e olha que não precisamos ser  Madre Tereza ou Dom Hélder Câmara para conseguir enxergar um pouquinho quem está ao nosso lado...

E é por Deus que estou escrevendo aqui. Ele me mandou escrever e pedir ajuda, depois de eu ter levado Jamyle para se consultar hoje com meu neurologista.  Dr.Ussânio disse que ela teria chances de recuperação no Hospital Sarah Kubitschek, que tem filial em Salvador. Deus conseguiu uma vaga lá para Jamyle ter a chance pela qual ela espera há 7 anos: de ser tratada em um hospital de referência que pode ajudá-la a voltar a viver.

Eu sei que você que está lendo deve ter se penalizado com essas história, assim como tantas que você assiste na Liga (programa da Band), ou no Luciano Huck. Eu sei que vc tem um bom coração e gostaria de ajudar os outros, mas não sabe como. Eu sei que, se você lê esse blog, é porque você tem sensibilidade suficiente para dispor de um tempo para ler (ou ouvir) as pessoas. E é por isso que eu gostaria de te pedir, encarecidamente, que você fizesse um ato concreto de humanidade: ajude esta menina. Ela precisa de você. E se você está lendo isso, e tem um real disponível, é porque Deus te trouxe até aqui e te disse: "Meu filho, ajude esta minha filha, que eu vou te ajudar muito mais!". Digo isso por experiência própria.

Eu nunca pedi dinheiro a ninguém, mas neste caso, é por uma causa tão nobre que não me importo de pedir a ajuda do mundo inteiro. Os pais de Jamyle não tem condições de bancar a viagem, estadia, alimentação, remédios, etc, sozinhos. Não sabemos o tempo que ela ficará lá. O pai dela foi demitido do emprego. Agora é autônomo e faz banners, cartazes, etc. Se você não puder ajudar financeiramente, encomende algum trabalho para ele. Ou dê-lhe um trabalho. Ou fale com aquele seu amigo que é médico, ou tem um hospital. Quem sabe aquela sua amiga que é fisioterapeuta ou fonoaudióloga não poderia visitar Jamyle? Se alguém conhece algum deputado, prefeito...ou quem sabe aquela sua parente que mora em Salvador e pode ajudá-los lá? Você que trabalha no Governo, ou em um Hospital, você pode conseguir medicamentos, ou uma passagem. Ou qualquer coisa... Enfim, eu sei que você pode abrir outra janela agora no seu computador e depositar R$10, 20, um ou mil reais.

Não quero te pedir nada além do que Deus pode te devolver. Eu só gostaria que cada pessoa que lesse esse texto pudesse ajudar minha amiga de alguma forma. E pode ter certeza que é só um empréstimo. Deus nos dá muito além do que imaginamos, a partir do momento em que pensamos em aliviar algum sofrimento do nosso próximo. Que nós possamos ser concretamente a mudança que queremos para o mundo. Devemos sempre lembrar que Deus é a força que nos impulsiona  para fazer o bem. E é só isso que desejo: que você possa deixar a centelha divina que existe em você aflorar e lhe transformar em alguém melhor.  Obrigado por ter lido até o fim, e poder ajudar alguém que eu amo muito. Muito obrigada.

"Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.  (...) Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores."  
(Carlos Drummond de Andrade)


Telefone: (83) 3021-8527/ 9924-6785

Conta Corrente:
Caixa Econômica Federal
ag.0617 operação 013
Poupança nº 00014841-1
Amaury Rodrigues Vitorino

Se alguém só tiver conta no Banco do Brasil (eles não tem), podem depositar na minha conta (podem confiar, claro) e identificarem o depósito. Podem ligar, se quiserem, para Amaury perguntando se ele recebeu.  Faço questão de entregar o envelope com o dinheiro e com o nome do doador (você ganha uma oração poderosa e grátis!).




domingo, 10 de junho de 2012

Dia dos Namorados

Já tentei escrever esse texto várias vezes, mas não consegui. Vi esse comercial ontem e tentei muito escrever sobre meu pai...eu que sempre fui sua "alada" (namorada). Te amo, Pai.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Concurso para "Normose"

Hoje lá ia eu, para mais um dia de férias (?) e de estudo na Biblioteca (eu já disse que eu amo bibliotecas?), e encontrei um conhecido no caminho para as mesas de estudo. Estranhei porque me lembro bem que o pai desse rapaz tinha algumas lojas de roupas, e ele tinha se formado em Administração justamente para ser um empreendedor. Não me contive e perguntei: "-Fulano, por que vc tá aqui? Tá fazendo MBA é?". Ele, com um sorriso amarelo, mas animado, me disse: "-Não, meu comércio não deu certo. Estou estudando pra concurso, vou fazer esse da Polícia Federal."

Assim como ele, quase todos que ali estavam (e eram muitos) iam fazer o mesmo concurso. Fiquei triste, instantaneamente. Me lembro bem que esse menino era competente e dedicado. Que tinha tino para os negócios, que sempre tinha sido um comerciante nato. Fiquei abismada de um cara tão novo, cheio de vida e de oportunidades ainda pela frente, tenha se "aposentado" da vocação para "estudar para concurso".

Antes que caiamos em uma conclusão simplória, conto outra história, ainda do dia de hoje.

Minha irmã encontrou um ex-colega de faculdade na mesma Biblioteca e me disse: "-Esse menino era o mais preparado da Faculdade, super inteligente. Sabe falar uns cinco idiomas, fez PIANI (programa de intercâmbio universitário) na França, mestrado e passou uns oito anos fora. Não conseguiu emprego e tá estudando pra concurso".

É muito triste viver em um País (e principalmente, em um Estado) que permite que gente tão bem preparada não tenha oportunidades de desenvolver seus talentos sem que o fantasma do desemprego, da falta de grana para nossas necessidades mais básicas (e entenda-se aqui como necessidade o que precisamos "comprar" no Brasil: saúde, segurança, transporte, educação), assombre nosso futuro. Não julgo essas pessoas que, mesmo com os mais variados talentos, buscam um pouco de segurança e estabilidade em um país em que nunca sabemos o que vem pela frente.

Mas, sendo sincera, vejo que podemos buscar isso sem deixar de lado nossas aptidões. Confesso que eu também estava estudando pra Delegado da Polícia Federal. Como sabemos, os sonhos "coletivos" são tentadores e embarquei na ideia como se esse cargo fosse uma grande chance. Mas a vida, sempre ela, está aí para nos ensinar sempre, e percebi, através de uma situação pessoal, que eu não tenho a mínima vocação para ser policial, para lidar com o crime nem com todo o arcabouço de sentimentos que cercam o Direito Penal. Em um ato de respeito a mim mesma, chutei o balde dos sonhos dos outros, e fui buscar outro caminho. Gostaria de ter pensado nisso antes, e talvez seja por isso que agora escrevo. Para quem sabe, alertar alguém de que dentro de nós existem determinadas características que jamais nos deixarão em paz se não as respeitamos. Se alguém odeia calor, gente, e tênis, por favor, não faça concurso para oficial de justiça (hehehe). Ouça seu coração. Vá atrás do que desde sempre, já é seu. Não tente tomar emprestado sonhos que não são seus, concursos só pelo salário no fim do mês. O sentido da vida deve ser bem maior do que conseguir pagar parcelas de uma cozinha projetada.

Eu não julgo quem busca um salário de "dois dígitos" ou mais. E também não me excluo dessa imensa parcela da população que procura estabilidade primeiro para depois seguir a vocação. O grande problema é que às vezes nós queremos muito mais a busca do que propriamente o objetivo. Vejo milhares de colegas de trabalho frustrados, com ódio de estarem intimando pessoas sob um sol quente. Apesar de estar estudando pra outro concurso, nunca deixei de valorizar meu trabalho e saber o quanto um oficial de justiça pode ter seu valor para uma pessoa sem o mínimo acesso à justiça. Tenho orgulho do meu trabalho, por mais preconceito que possa cercá-lo. Lembro até de um colega de Brasília que me perguntou, abismado: "-Mas você vai deixar de ser uma "especialista em projetos educacionais" para ser "oficial de justiça"???". Eu que nunca liguei para rótulos e sim para a essência, pouco me importei com o título da minha nova profissão. Vaidade não é comigo. Procuro pensar sempre que, se Deus nos coloca em um lugar, é para que possamos aprender e ensinar, por mais batida que essa ideia possa parecer.

Mas, para não desvirtuar muito do assunto do post, gostaria apenas de lembrar-lhes de que a vida, enquanto não nos provem o contrário, é só uma. Não perca seu tempo fazendo dela um jogo bobo para quem chegará na frustração mais cedo. Lembro de que, quando morava em Brasília, li uma reportagem sobre o número de deprimidos no serviço público, que tiveram uma rica formação cultural e de repente, estavam exercendo seu intelecto apenas para carimbar processos. Estavam reféns de suas próprias escolhas. Não queiramos isto para nós. Vamos buscar o que nos preenche, sem esquecer do mundo real e das nossas contas a pagar. Nem que demore mil anos, estude ou vá em busca daquilo que você quer ser, e não para aquilo que o mundo lhe ordena que você seja.



ps:Eu sei que o texto foi beeeem longo, mas se você estiver com paciência para ler mais, aí vai um ótimo texto da minha querida escritora Martha Medeiros:

"Lendo uma entrevista do professor Hermógenes, 86 anos, considerado o fundador da ioga no Brasil, ouvi uma palavra inventada por ele que me pareceu muito procedente: ele disse que o ser humano está sofrendo de normose, a doença de ser normal. Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito "normal" é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Quem não se "normaliza" acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento. A pergunta a ser feita é: Quem espera o que de nós? Quem são esses ditadores de comportamento a quem estamos outorgando tanto poder sobre nossas vidas?


Eles não existem. Nenhum João, Zé ou Maria bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha "presença" através de modelos de comportamento amplamente divulgados. Só que não existe lei que obrigue você a ser do mesmo jeito que todos, seja lá quem for todos. Melhor se preocupar em ser você mesmo.


A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer o que não se precisa. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar?


Não é necessário fazer curso de nada para aprender a se desapegar de exigências fictícias. Um pouco de auto-estima basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo. Criaram o seu "normal" e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original.


Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.


Eu não sou filiada, seguidora, fiel, ou discípula de nenhuma religião ou crença, mas simpatizo cada vez mais com quem nos ajuda a remover obstáculos mentais e emocionais, e a viver de forma mais íntegra, simples e sincera.


Por isso divulgo o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes."
Martha Medeiros

domingo, 22 de abril de 2012


Aos que acompanham o blog, mil desculpas pela ausência. Como a gente não nasce pronto, vamos descobrindo ao longo da trajetória, pistas de onde viemos e para onde vamos. Tive tantas pistas nas últimas semanas que não poderia continuar fazendo as mesmas coisas. Parei, pensei, mudei totalmente de rota e agora estou tentando ver se não me atraso tanto para pegar o bonde que, talvez, me leve a um destino mais afável. Resta saber se eu  conseguirei. Mas, como diria Bernardinho, nossa vontade de se preparar deve ser maior que a vontade de vencer. Não vou morrer sem me tornar aquilo que Deus quer que eu seja. Eu prometo. :)




"De agora em diante, deverás pensar que tudo o que te acontece, importante ou não, te é enviado por Deus, para ajudar-te no teu combate Só ele sabe o que te é necessário, e o que te falta no momento presente: adversidade ou prosperidade, tentação ou queda. Nada acontece por acaso; não há nenhum acontecimento do qual nada tenhas que aprender. Deves compreender bem isso, desde já, pois é assim que aumentarás a tua confiança no Senhor, que escolhestes seguir. Os santos nos dão ainda um outro conselho para a caminhada: considera-te uma criança que apenas começa a falar, e que esteja dando os primeiros passos. Toda a tua sabedoria segundo este mundo, e todo o teu conhecimento, não têm utilidade para o combate que te espera; tampouco te servem a situação social e os bens. Tudo o que se possui, e que não é empregado no serviço do Senhor, é um fardo; um conhecimento do qual o coração não partilhe é astéril e, logo, nocivo, uma vez que é pretensioso. Chamam-no "ciência simples," porque é desprovido de calor e não alimenta o amor. Deves, pois, abandonar toda a tua ciência, e tornar-te ignorante, para seres sábio. Deves tornar- te pobre para seres rico, e fraco para seres forte."

(Anselm Grün, sempre ele.)

terça-feira, 27 de março de 2012

I will survive!

Hoje experimentei a real sensação de felicidade. Pude conversar com ela enquanto eu tomava água-de-côco, me sentindo a mulher mais feliz do mundo. Me perguntei como aquilo podia ser tão simples. Comecei a rir, depois chorei, ri de novo, e parecia uma bipolar de um humor só. Não, eu não estou tomando remédio (pelo menos, não os de tarja preta), nem recebi uma promoção ou uma notícia magnífica. Eu "apenas" consegui correr 2km em 13 minutos. Pode rir, vai. Mas, considerando que eu sempre dizia a mim mesma "Não consigo", Conseguir me vencer foi uma vitória incrível. Eu sou a minha maior concorrente desde sempre. Competimos, eu e a outra que mora em mim, todos os dias, a cada dúvida que atravessa meu caminho.

"Não dá", "Não consigo", "Sou assim, não posso mudar", "Não vivo sem isso ou sem aquilo e ponto", e mais inúmeras frases que só eu sei o quanto me podam e me fazem ter uma perspectiva limitada de mim mesma. Não sei se é do meu DNA, no qual metade é composto do sangue do meu pai, um pessimista convicto, e a outra metade da minha mãe, uma guerreira do tipo "mais macho que muito homem", mas sou um misto de quem desafia e é desafiado, o tempo todo, e confesso que quase sempre, eu me canso. Venço algumas partidas, e depois digo- vai lá, ok, vc venceu essa.

Como diria a música do Pato Fu, "as brigas que ganhei, nem um troféu como lembrança pra casa eu levei...as brigas que perdi, estas sim, eu nunca esqueci." Pois é, Fernanda Takai, vc acertou. Nunca esqueci das brigas que perdi de mim mesma. E foi por isso, que hoje eu levantei querendo me encontrar. Queria eu mesma me desafiar, esquecendo um pouco a outra. Para esquecê-la, coloquei U2 pra tocar, e no "1,2,3,14..." comecei a correr. Minhas pernas tremiam quando completei 1km, minha respiração pedia para eu diminuir o ritmo, mas eu sabia que, se eu não conseguisse chegar aos 13 minutos, eu ratificaria o que a outra já sabia (" Vc não consegue"). Para quem está quilos acima do peso ideal, conseguir correr 2 km a uma velocidade de mais de 10km/hora é um feito e tanto...Terminei o percurso e olhei no relógio: eu consegui.

Me senti uma vencedora e misturei o suor com algumas lágrimas. Me emocionei em saber que tudo o que eu quiser que a vida me dê, só depende de mim mesma. Tive a sensação de que minha alma estava me direcionando para realidade prática da existência, me autorizando a parar de me autossabotar e de "viajar na maionese". Acreditei, de verdade, em mim. Parecia que agora eu estava tendo uma visão nítida da objetividade da existência. Vivi, naquele momento, um "pit stop" entre passado, presente e futuro. 

Não que eu seja uma alienada, viajandona e que não vai atrás do que quer. Pelo contrário, sempre me desafiei muito e se consegui algo na vida foi porque me esforcei. Mas confesso que, por medo de falhar, eu buscava sonhos mais modestos, ou mais condizentes com uma realidade conhecida e afável. Acho que somos programados para o conforto, para o comodismo. É muito mais fácil contentar-se em ser como a gente é, em ter o que a gente tem, em estar onde estamos. Difícil é evoluir, é ir à luta, tentar encontrar nossa 'Dulcinéia' apesar dos moinhos de vento. Sempre tive medo de virar um Dom Quixote piegas. Para mim, era mais fácil ser o Sancho Pança: com atitude pragmática, sem tantos sonhos platônicos.

Mas confesso que esses sonhos ainda vivem em mim. E quando hoje, eu me imaginei correndo no teste físico para Delegado Federal, e vencendo, senti como se eu tivesse aberto a gaveta daqueles sonhos antigos, cheios de mofo. Agora, me cabe saber quais deles eu ainda quero, se eles ainda trazem para meus estômago a sensação de borboletas voando. É bom saber que, para realizar o que desejamos só precisamos correr atrás, com nossas próprias pernas. E de preferência, no tempo certo. 

O que a gente vai ser daqui pra frente pode mudar a partir desse momento. É agora ou nunca. Pra terminar, Anatole France uma vez contou essa história:

-Venham para a beira do abismo.
Mas Eles diziam: -Nós temos medo.
E ele insistia, determinado, impondo-se:
-Venham para a beira do abismo, vejam o enorme e belo desfiladeiro!
Eles finalmente foram.
Então ele os empurrou...e Eles VOARAM!

segunda-feira, 12 de março de 2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

Lindo poema.


SOLIDÃO
(Fátima Irene Pinto)

Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo... 
isto é carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos
pela ausência de entes queridos que não podem
mais voltar... 
isto é saudade.

Solidão não é o retiro voluntário que a gente
se impõe as vezes, para realinhar os pensamentos...
isto é equilíbrio.

Tampouco é o retiro involuntário que o destino
nos impõe compulsoriamente para que revejamos a
nossa vida... 
isto é um princípio da natureza.

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
isto é circunstância.

Solidão é muito mais que isto...

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão, pela nossa Alma!





p.s: A autoria do texto é de Fátima Irene, e não de Chico Buarque como circula na net.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Iaiá e Ioiô...

Tenho uma amiga muito querida que mais uma vez rompeu um relacionamento que se arrasta há quase sete anos. É a famigerada relação “ioiô”: ninguém sabe ao certo se eles estão juntos ou não. Não sei se dessa vez o rompimento é definitivo, o que tenho certeza é que certamente essa confusão tende a continuar até que um ou ambos cansem. Simples assim. Os dois podem até amarem-se verdadeiramente, mas chega uma hora em que o tempo e a idade chegam, e a vida nos obriga a cairmos do pé. Amadurecemos. Não conseguimos mais manter o ritmo e a energia que um relacionamento tumultuado exige. Muitas vezes esse cansaço faz com que as pessoas embarquem em outro relacionamento logo após o término do outro, e resolvam tomar as decisões, nesta nova relação, que sempre tentaram evitar no passado. Amor maior? Acho que não. É simplesmente cansaço.

Chega uma hora na vida que ninguém aguenta mais um relacionamento inerte. A paixão do começo apagou-se, os dois já conheceram todos os mistérios um do outro, mas ainda não atingiram um grau de equilíbrio- seja emocional ou financeiro- que faz com que a relação avance. Daí então, as decisões precisam acontecer. Casar ou Não? Ter filhos? Mudar de casa? O que nos motiva para a vida, já dizia Nietzsche, é ter um “para quê” viver. Só assim é que podemos suportar o “como”. A partir de um horizonte a dois é que podemos caminhar juntos. Não há como continuar de mãos dadas se um quer ir para a montanha e o outro visa o mar. E também não adianta um fingir que quer ir ao mar e ao chegar lá, tentar convencer (entenda-se:mudar) o outro para que  ele ache a montanha melhor. A gente não tem de convencer ninguém à nada. Procure alguém já ´convencido´, que tenha similitude de planos e de valores com você. Saramago usou um termo genial para essa ideia de mudar alguém: tentativa de colonização do outro. Só que a gente esquece que nenhuma pessoa é território de outra para ser colonizada e incorporar valores alheios. Claro que essa é uma situação comum, que rotineiramente vemos (fulano que mudou totalmente depois que começou a namorar sicrano). A diferença é que, na verdade, ninguém, absolutamente ninguém, consegue mudar quem a gente é de verdade. A semente continua ali, embora não esteja sendo regada. Vamos deixando outra semente, que alguém colocou no nosso vaso, crescer mais do que a destinada a nós. Mas ela continua lá e aparece quando nossos relacionamentos nos fazem bem.

Já falei disso mil vezes aqui no Blog, mas não custa repetir uma ideia do filósofo Martin Buber, do “eu-tu”. Relacionamentos que merecem nossa dedicação são aqueles em que a terceira pessoa formada pelo encontro do outro comigo é infinitamente melhor do que nós dois separados. É fácil perceber isto em todas as nossas relações: tem gente que consegue extrair de nós o nosso melhor, enquanto outros tem o incrível poder de deixar que nosso pior apareça. Por exemplo, eu jamais me relacionaria com alguém que anda devagar na faixa da esquerda, hehehehe. Simplesmente não dá. É um desrespeito a nós mesmos continuarmos em relacionamentos que nos transformam em pessoas problemáticas (ainda mais do que já somos!!!).

Por isso, o conselho que vou emprestar a minha amiga hoje ( dizem que se conselho fosse bom não se daria, mas eu discordo completamente desse pensamento: gosto de me valer das ideias dos outros para formar a minha própria. A isso eu dou o nome de conselho, e ele sempre é útil para mim) é a de que, se ela achar que ainda tem energia para viver esse romance até “a última gota”, beba desta fonte, se embriague, vá em frente, ainda que todos se voltem contra, ainda que se saiba que um dia vai acabar. Amor que acaba sem resquícios (isto é, sem partes nossas no outro e vice-versa) é porque certamente não foi vivido até o fim. Sofra, chore, viva tudo o que essa relação lhe proporciona, pois no fim, são as emoções que nos fornecem lembranças eternas. Mas, se a sede for maior que o que se bebe, se o cansaço é mais sentido que o próprio amor, por favor, pare. Lembre-se de que existem por aí pessoas que, ao encontrarem você, podem lhe permitir que sua semente cresça. Que podem fornecer a você tudo aquilo que lhe falta para desabrochar. Vida emocional equilibrada é metade do caminho de uma vida plena. E se para isso, é preciso ficar só, que assim seja. Mais vale repousar no mar da solitude do que deixar-se queimar em relações nas quais tudo que sobra de nós são apenas cinzas.

p.s: O ioiô há de se transformar em iaiá, amiga. ;) 

Iaiá, se eu peco é na vontade
de ter um amor de verdade.
Pois é que assim, em ti, eu me atirei
e fui te encontrar
pra ver que eu me enganei.
Depois de ter vivido o óbvio utópico
te beijar
e de ter brincado sobre a sinceridade
e dizer quase tudo quanto fosse natural
Eu fui praí te ver, te dizer:
Deixa ser.
Como será quando a gente se encontrar ?
No pé, o céu de um parque a nos testemunhar.
Deixa ser como será!
Eu vou sem me preocupar.
E crer pra ver o quanto eu posso adivinhar.
(Los Hermanos)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mãe ou Filha?


Fazia mais ou menos uns 20 dias em que eu, todas as manhãs, digitava os mesmos caracteres no Google: "ovulação, nidação, sintomas de gravidez, exame Beta HCG", etc, etc. O detalhe é que eu não tive nenhum atraso menstrual, simplesmente porque não consegui esperar por ele. Já me explico: Este mês, parei de tomar anticoncepcional por causa das minhas crises cada vez piores de enxaqueca, e não tive tantos cuidados contraceptivos, o que me fez acreditar piamente que eu estava grávida.

Essa ideia foi tomando minha mente a tal ponto que eu não conseguia mais fazer nada com atenção, meus pensamentos me tomavam por completo. Será que era a hora? Por que não melhorei como pessoa antes de me tornar mãe? Eu realmente posso criar um filho? Eu estou pronta? Meu casamento está pronto? Minha casa? Meu emprego é suficiente? Por que eu não emagreci antes? Como vou fazer com meus remédios? E Lá ia eu digitar mais termos no Google: remédios e gravidez, quais os alimentos fazem mal ao bebê, etc e mais etecetéras.

Enfim...pra quem não me conhece, Prazer, meu nome é Ansiedade (eu não deveria estar expondo toda essa minha neurose aqui no Blog, mas o final é feliz, prometo). Pesquisei tudo sobre todo o processo que envolve a concepção de um novo ser, e nunca tive tanto interesse nos direitos do nascituro (ou para outra teoria, sobre suas 'expectativas' de direito). Entendi tudo de folículos ovarianos, picos hormonais, espessura do endométrio e tudo sobre bebês, desde a concepção até a hora dele nascer (confesso que minha ansiedade deu trégua neste quesito, já que depois de nascer, eu já tinha uma certa ideia chamada Renan, meu sobrinho).
Bom, não preciso dizer que hoje, após eu já ter feito inclusive meus planos de estudos mais intensos nos primeiros meses, e de saber o nome do bebê, que com certeza, seria menino, minhas "regras", como diria minha avó, vieram, e...exatamente no dia certo. Não houve atraso, só antecipações.

Você pode estar achando que, pelo que eu disse, eu queria muito ter um filho, e que foi uma frustração não tê-lo concebido. Mas, não foi isso que aconteceu. Quando vi que não ia ser mãe agora, fiquei triste por alguns minutos e fui olhar o céu para tentar decifrar o que eu estava sentindo. Eu não queria ter um filho agora, estou tentando estudar e conseguir um cargo melhor, preciso emagrecer os quilos que ganhei durante o ano turbulento que passou, só agora pudemos reformar a casa, enfim, eu sabia que não era a hora certa de ter uma gravidez tranquila. Mas, nesses dias eu tive a sensação de que eu havia escolhido ter um bebê, e deveria "arcar" com as consequencias dessa escolha, e por isso, minha inquietude em tentar 'arrumar a casa' antes do filho chegar. Só que hoje é quarta-feira de cinzas. Hoje é dia de lembrar que daqui a 40 dias, eu tenho a obrigação de ser alguém melhor. E fui chamada a pensar em Deus.

Quando pensei nEle, me senti feliz por ter meus planos, tão confusos, frustrados. Lembrei que mesmo que eu queira bancar a existencialista e achar que tenho o total controle sobre minhas escolhas e meu destino, Deus vem, desarruma minhas certezas, e me faz saber que eu sou apenas uma gota derramada no mar. Me faz entender, mais uma vez, que os propósitos dEle para minha vida é que devem me governar, e não os meus desejos moldam o "Meu Deus". Ele não é Meu e nem nunca será. Deus só me faz pensar que eu não sou apenas uma peça extra nessa máquina maluca que é o mundo. Se eu estou aqui, é porque devo ter uma função, como ouvi ontem o Hugo Cabret ( Ou Martin Scorcese?) dizer no filme, e concordei.

Eu não estava muito próxima de Deus. Como poderia? Quando queremos ter o controle de tudo, até o Criador passa a ser Criatura. Levei mais uma surra da vida, e aprendi a colocar os pés no chão, com gosto de terra, de húmus, de onde deriva a palavra "humildade". Devemos ser humildes em reconhecer que há um propósito muito maior para cada coisa que acontece em nossa vida. Que ter ou não ter um filho não passa necessariamente por nossa escolha. Às vezes, é o próprio filho que já escolheu a mãe. Na hora e no lugar certo, nem antes, nem depois. Pra mim, hoje começa uma quaresma. Tempo de saber que a única preocupação que devemos ter é como podemos melhorar como pessoas. Quem vai fazer parte da sua vida, quem permanecerá, de quem seremos irmãos, amigos, ou quem iremos gerar não é necessariamente uma escolha nossa. Passa por ela, mas a palavra final é dEle. Descobri que, por enquanto, para aprender a ser Mãe, eu preciso antes, aprender a ser Filha... Filha do Céu.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

(In)Decisão?

Lembro muito bem de uma decisão crucial que tomei aos 14 anos: ganhar uma festa de 15 anos ou viajar para Disney. Eu não queria nenhuma das opções, queria mesmo era fazer intercâmbio, mas minha mãe cismava que eu voltaria drogada ou grávida, e meu pai só tinha dinheiro para os 15 dias da viagem. Decidi, na hora, que queria viajar, festa não era importante pra mim. Lembro que pensei, naquela época, que a cada aniversário uma dose substancial de sabedoria viria junto das velinhas do bolo, e todas as minhas decisões seriam muito fáceis, pois eu seria uma adulta descolada e independente do tipo que sabe-muito-bem-o-que-quer. Que piada.

Hoje, quase quinze anos depois, sou uma adulta que ainda liga pra avó e pergunta o que deve fazer. Só que agora, as minhas escolhas mudam completamente a minha vida. Para sempre. Essa liberdade de escolha para mim sempre foi um infortúnio. Fui ler sobre o existencialismo de Sartre justamente por isso: pois enquanto o mundo considerava a liberdade uma maravilha (e realmente o é), para as pessoas indecisas, como eu, a liberdade de escolha sempre foi quase como uma condenação. Te condeno a não poder ter tudo, disse a Vida. E assim, a indecisão nasceu e ganhou vida eterna. Mário Prata disse uma definição genial para ela: "Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que deveria querer outra coisa."

Para Sartre e Nietzsche, o homem é inteiramente responsável por suas escolhas e por isto mesmo, "está condenado a ser livre". Para eles, gente que diz " Deixa a vida me levar", são aquelas pessoas que foram incapazes de decidir algo. Então, deixam-se à deriva, esperando que a Vida, ou Deus, ou o Destino, façam por elas o que elas não conseguiram fazer por si mesmas. E é claro que para esses filósofos, Deus não existe, tampouco astrologia, tarô ou qualquer outro "Ser" que possa prever nosso futuro a não ser nós mesmos, por nossas escolhas.

Para mim, Deus existe. Deus me ajuda a acalmar meu coração e a aquietar minha mente, mas nunca pus nEle a responsabilidade de decidir meu destino. Acredito que eu que faço meu caminho, com a ajuda Dele, mas sou eu que tenho o livre-arbítrio. E esse livre-arbítrio é que traz a angústia de não saber. Simplesmente não sabemos o que vai ser melhor para nós. Nós apenas deduzimos, e tendo por base essa simples"dedução" é que escolhemos. Ou seja, a gente pode acertar ou não, mas a responsabilidade será sempre nossa.

Antes de se jogar do prédio (hehehe), tenhamos esperança. Voltando a falar de Deus e de Sartre (como assim?!), eu acho que descobri uma boa estratégia para escolher sem sofrer tanto: O existencialista francês dizia, assim como Hegel e Martin Buber, que nós só conseguimos 'ser quem podemos ser' através do outro. É o outro que nos faz ter contato com partes de nós que sequer conhecíamos, que nos faz conhecer nossa própria essência. E é exatamente essa convivência que nos dá a certeza de que estamos fazendo as escolhas certas, pois nos sentimos como parte no mundo. E é onde Deus se esconde, nas pessoas. Tem gente que chega, nos mostra ou nos diz alguma 'coisa' que nos impulsiona. Eu acredito que esse "impulso" é o próprio Deus chacoalhando nosso coração e dizendo: "Escolhe esse caminho que vc vai ser feliz, meu filho!". E é esse impulso vital que devemos procurar. Tudo aquilo que nos move, que nos dá prazer, que nos faz sentir adequados no tempo e no lugar em que estamos, tem a imensa probabilidade de ser aquilo que Deus desejou para nós. 

Vamos escolher, portanto, o que faz nosso coração bater com mais força...não com a força mortal da ansiedade, mas com a força vital do desejo. Desejo de "tornar-se", de ser aquilo que podemos ser, com a consciência de que não há escolha sem renúncia, e que a liberdade plena é saber que para cada escolha, há uma ou várias responsabilidades. Sabendo disso, ouso tomar a frase que já falei do Mário Prata para definir, agora, o que seja DECISÃO: "É quando você sabe muito bem o que quer e acha que não deveria querer outra coisa"...