sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

"De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando."

(Vinícius de Moraes)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Em busca de um coração de ouro

Esta época é sempre propícia para fazer um balanço de mais um ano vivido, contabilizando erros e acertos, e programar o ano que vem a fim de torná-lo realmente "novo". Comigo sempre foi assim, mas esse ano foi um grande divisor de águas na minha vida, talvez quem sabe, o ano em que mais aprendi (principalmente "à força", levando uns tapas da vida)...Sendo assim, ao invés de estipular metas e já ficar ansiosa desde já para não fraquejar em cumpri-las, eu me propus a um só objetivo: em 2012 vou tentar melhorar meu coração.
É claro que já tenho alguns planos traçados para o futuro, mas depois desse ano, descobri que mais vale nos empenharmos em melhorar nossa espiritualidade, nossa saúde (física e mental), nosso bem-estar do que simplesmente melhorar a conta bancária, a carreira ou conseguir um par. 
O que importa, no fim das contas, é como olhamos para a vida (se é conseguimos contemplá-la!), como nos situamos no mundo, qual legado que queremos deixar e ir em busca dele. E que esta herança seja muito mais que bens materiais, pensões ou qualquer outra coisa do tipo. O que quero perseguir no ano novo é estar em paz comigo mesma e tentar fazer a minha e a vida de muitas outras pessoas felizes. 
Minhas metas para o ano ser novo são essas:

*Aprender a ser mais simples. Esse é o primeiro mandamento e talvez o mais importante. Preciso descartar tudo aquilo que me 'pesa', desde os meus quilos a mais, a coisas que guardo e que são inúteis. A simplicidade também envolve em olhar a vida com mais leveza, certa de que o destino não está muito aí para nossos planos. É preciso ser simples também no que queremos. Não precisamos de muita coisa para nos sentirmos bem. Saúde, ter alguém com quem contar, acreditar em algo (seja em Deus, seja na Vida), e "algum trocado para dar garantia", é tudo o que a gente precisa.

 *Não se meter na vida dos outros. Aqui utilizo os conselhos do grande escritor Saramago:  
"Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro."  
"Nem a arte nem a literatura têm de nos dar lições de moral. Somos nós que temos de nos salvar, e isso só é possível com uma postura de cidadania ética, ainda que isto possa soar antigo e anacrónico." "Ao contrário do que geralmente se crê, por muito que se tente convencer-nos do contrário, as verdades únicas não existem: as verdades são múltiplas, só a mentira é global.
Enfim, entendi.

*Cuidar da saúde. E  já que estou escolhendo "gente graúda" para dizer com mais propriedade o que penso, Sêneca (filósofo) dizia assim: "A preocupação do criador do universo ao determinar as leis da nossa existência foi a nossa saúde, não os hábitos sofisticados; e enquanto o indispensável à saúde se encontra à nossa total disposição, os requintes do luxo só os podemos obter a troco de penas e angústias."  Portanto, alimentos naturais e orgânicos serão ainda mais bem-vindos no ano que vem. Comecei minha reeducação alimentar e já perdi 1 dos 5 kg que ganhei de presente neste ano... Também vou voltar para a Natação e Yoga, pois são as atividades que me dão prazer. Não adianta eu tentar sempre ir pra academia, eu odeio aquela atmosfera de gente que fala "carbo" ao invés de macarrão e nunca engasgam ao falar "maltodextrina". Quero um corpo sadio, e não um corpo perfeito.

*Estudar. A última vez que estudei sério já fez aniversário de um ano. Não quero especificamente um cargo, quero estudar e não deixar que meu curso de Direito se esgote na minha profissão. Quero estudar mais as leis e os códigos, mas também quero estudar outros assuntos (como sempre fiz, só que agora, quero disciplina). Ler sobre variados assuntos nos desenvolve, abrimos nossa mente para outros pontos de vista e outros mundos, além de nos tornar muuuuuito mais interessantes- não só para os outros, mas para nós mesmos. O conhecimento é uma fonte que não se esgota.

*Ter um coração de ouro. Escolhi essa expressão porque algumas pessoas que eu amo dizem que eu tenho um "coração de ouro". Elas dizem isso porque certamente me amam, mas eu sei que meu coração ainda precisa de vários banhos de pureza para ser um "Heart of Gold". Meu coração quase sempre é bom, mas ainda existem mágoas, egoísmos, mentiras e outros sentimentos ruins que ele esconde. Quero, em 2012, tentar retirar um a um desses sentimentos que não me fazem bem. Claro que é impossível sermos "humanos" e perfeitos, mas quero me espelhar no coração de Deus e tentar fazer dessa lapidação a minha grande busca. Sei que soa abstrato ou religioso demais, mas é exatamente esse o meu sentido para a vida.  Mas é claro que os poetas sabem falar mais disso do que eu, e é com a música de Neil Young que vou para o meu reveillon...

Um ano NOVO e feliz para todos vocês!!!!!!!! ;)



Heart of Gold

I wanna live, I wanna give
I've been a miner for a heart of gold
It's these expressions that never give
Keeps me searching for a heart of gold
And I'm getting old
They keep me searching for a heart of gold
And I'm getting old
I've been to Hollywood, I've been to redwood
I've crossed the ocean for a heart of gold
I've been in my mind, its such a fine line,
That keeps me searching for a heart of gold
And I'm getting old
It keeps me searching for a heart of gold
And I'm getting old
Keeps me searching for a heart of gold,
Keeps me searching and I'm growing old
Keeps me searching for a heart of gold
I've been a miner for a heart of gold
And I'm getting old.

Coração de Ouro

Eu quero viver, Eu quero doar
Eu tenho cavado em busca de um coração de ouro
São estas expressões que eu não abro mão
Que me mantém procurando por um coração de ouro
E estou envelhecendo
Eles me mantém procurando por um coração de ouro
Estou envelhecendo

Eu estive em Hollywood, Eu estive em Redwood
Atravessei o oceano por um coração de ouro
Eu estive em minha mente, é uma linha tão tênue
Que me mantém procurando por um coração de ouro
Estou envelhecendo
Me mantenho na busca por um coração de ouro
E eu estou envelhecendo

Me mantenho na busca por um coração de ouro
Me mantenho na busca e estou envelhecendo
Me mantenho na busca por um coração de ouro
Eu tenho cavado na busca por um coração de ouro
Estou envelhecendo

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Prometi a mim mesma que toda semana, mais precisamente às terças-feiras iria escrever no blog (já falei que dia de escorpiano é terça? E já falei também que descobri que sou de escorpião, depois de 28 anos pensando ser sagitário? ). Astrologia à parte, não consegui escrever ontem. Nem hoje. Minha vida está bagunçada demais, assim como minha casa (qual casa?). Organização e disciplina são virtudes que eu preciso para conseguir viver, mas, infelizmente, eu não as tenho. Preciso alcança-las todos os dias, e nunca algo que não lhe é natural, é fácil de alcançar. Enfim, a faxineira me ajudou a pôr meus pensamentos em ordem e prometo escrever mais aqui. Não para os críticos de plantão me chamarem de egocêntrica por pensar que tenho leitores, ou que por algum motivo, eles sentirão minha falta. Longe disto, preciso escrever aqui porque eu preciso. Porque eu só consigo expor minha forma de pensar escrevendo. Se eu não escrevo por muito tempo, por favor, me liguem, porque com certeza estarei tendo os pensamentos errados. Escrever me situa no plano certo. No foco do que é essencial, e descarta tudo aquilo que em mim é obsessivo, melancólico demais, opressor. Escrever me faz ser melhor. Mas , repito, não vou escrever hoje, apesar de já ter escrito. Hoje eu quero apenas o direito de ficar quieta e planejar o que desejo para 2012, sem esperar pelo reveillon.
A mudança que a gente deseja tem de acontecer primeiro e sempre, em nós. Parece clichê, mas não se foge disto. Enquanto a inspiração não vem, essa música me emocionou hoje. E sentimentos sempre são bem-vindos por aqui... ;)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Seu Zé


      Estou reformando meu apartamento e confesso que, apesar das imensas dificuldades inerentes a uma reforma (ou a qualquer mudança), tenho adorado ir ver a obra e toda sua poeira, todos os dias. E não é apenas porque sou uma admiradora confessa das lentas transformações, mas estou gostando de ver tudo sendo derrubado por causa do Seu Zé. Seu Zé é pedreiro. Mas já foi de tudo, inclusive boêmio e jogador de sinuca. Tem 78 anos e seu tônus muscular causa inveja a mim, 50 anos mais nova. Seu Zé vive rindo, e às vezes eu me atrapalho e fico confusa com a felicidade simples desse homem, que parece resistir ao tempo e a qualquer dificuldade da vida. Quando eu chego no apartamento, ele logo diz -"A cumadre chegou. Vai mudar mais o quê, cumade?" e começa a rir, emendando a conclusão óbvia: "E haja a coçar o bolso!", já que qualquer mudança traz custos ( e quantos custos!). Ele solta mais um sorriso, amplo, largo e sincero.

          Seu Zé está me reformando junto com minha moradia. Ele me mostra belezas inimagináveis apenas com seu jeito simples de olhar para tudo à sua volta. Quando chego lá, geralmente ele está almoçando a marmita que sua mulher -há 50 anos-, prepara, às 5h da manhã. E sempre ela coloca uma mariola junto, para sobremesa. Para quem não sabe, 'mariola' é um quadradinho de doce de goiaba cristalizado. Lembra carinho. Lembra infância. Lembra pobreza. Pobreza bonita. Felicidade em pequena porção. 
Seu Zé trouxe cajus para ajudar na cicatrização da cirurgia de Elias. Cajus grandes, amarelos, vermelhos, polpudos e colhidos do pé. Não sei como agradecer a este homem. Sem nenhum grau de instrução, assinando um recibo em que só se consegue decifrar um "R" no seu nome que não tem "R", Seu Zé vai nos ensinando sobre a vida. 

         Já conheci muita gente na vida, pessoas felizes em sua tristeza e outras tristes em sua felicidade aparente. Também, e em maioria, conheço quem transita entre esses dois lados- dentre as quais me incluo-. Mas pessoas 'de bem com a vida', e não estou aqui falando de todo mundo que canta ' viver e não ter a vergonha de ser feliz' e depois chora de solidão, eu conheci poucas. Pouquíssimas. Essas raras pessoas que fizeram as pazes com sua trajetória, têm uma expressão singular. Elas parecem em paz consigo mesmas. Parecem desafiar nossas expectativas quando perguntamos o que elas querem. Elas querem apenas ser felizes.  Uma gama de gente pode se sentir incluída no rol dessas pessoas que só querem ser felizes, mas poucas conseguem provar o que dizem. Falam que só querem ser felizes, mas a ansiedade de querer outra coisa as consome. Vivem angustiadas, sobressaltadas, remoendo o passado ou sofrendo por aquilo que ainda está por vir. E não estou me excluindo da maioria não, pelo contrário. Somando-se a ela, eu consigo ver o que gostaria de ter: a paz de Seu Zé.

            A paz daqueles que abandonaram os pensamentos que nos fazem sofrer, nos preocupar antes da hora, aumentar os problemas, enxergar as dificuldades sempre com lente de aumento. A mente de Seu Zé o liberta. Enquanto nossos planos nos desorientam, Seu Zé prepara a argamassa e só se preocupa em executar um bom trabalho para aquele momento. Depois, descansa corpo e mente. Não me parece que Seu Zé se preocupe muito com que o amanhã trará. Seu espírito parece transcender a tudo que aflige à nós, meros mortais. Seu Zé, após o trabalho, toma um banho, volta pra casa para dar um "beijo na véa", sua esposa. 
E eu só posso admirá-lo e tentar conquistar o que ele tem de sobra: Fé. 
Em Deus, em si próprio, e principalmente, Fé na vida.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Eu nunca mais escrevi aqui. Não, não vou dizer que é por causa do tempo, do ar, da falta de tempo, da falta de ar. Sou adepta da frase "quem quer faz, quem não quer, arruma desculpa" há muito tempo. Eu ando sumida daqui apenas porque este tem sido um ano extremamente importante na minha vida, para não dizer um dos mais difíceis pelos quais já passei. Mas exatamente por ser difícil, tornou-se um marco, um ano em que cada mês traz consigo uma revelação absurda de verdades que eu até então desconhecia. É preciso tempo para maturar cada ensinamento.

Às vezes sinto como se eu estivesse dirigindo a pleno vapor para um destino conhecido, certo e seguro, e de repente, Deus tivesse tomado a direção abruptamente e estacionado a minha vida embaixo de uma árvore e em frente a um lago, e tivesse me deixado lá, sem a chave. Ele talvez tenha me dito: "Não foi assim que te ensinei a dirigir, minha filha. Você não está prestando atenção nos sinais, a velocidade está acima da média, os passageiros estão sem cintos, descuidados, e você deixou a sua habilitação longe daqui. Além de tudo, atalhos nem sempre funcionam. Fique aí até achar o caminho certo. Quando chegar ao seu destino, me avise que eu volto pra lhe buscar."

Eu, teimosa, mesmo assim, não aceitei que Ele me dissesse como dirigir, afinal, sempre fui uma boa motorista da minha vida, oras. Então, mesmo com um sermão do Condutor-Chefe, eu não fiquei quieta. Eu não refleti sobre nenhum dos erros. Eu só queria continuar meu caminho e chegar ao meu destino.

Então, pensando em como chegar e mostrar a Deus que sim, eu consigo chegar, eu fui atravessar o lago nadando, pois sempre fui uma exímia nadadora. Consegui chegar até o meio, mas a travessia começou a me parecer longa demais para meu fôlego. Nadei ainda mais depressa, na ânsia de que meu orgulho conseguisse me motivar o suficiente para chegar ao outro lado, mas meu corpo sucumbiu. Havia uma correnteza, e ela levou meu corpo cansado exatamente ao local onde eu havia começado: a beira do lago.

Me recompus e torci para que Deus não tivesse visto meu vexame. Me enxuguei e não desisti. A triatleta aqui achou que era a hora da corrida. Comecei a correr pela pista, na esperança de que o destino almejado estava logo ali perto. Mas, mais uma vez, meu corpo não aceitava os comandos da minha mente. Era mais forte que ela. Parecia um problema de mecânica no meu "carro", não de combustível. Eu queria, mas o meu pé doía. Meu joelho. Minhas pernas. Todas as minhas articulações. Então eu voltei para o mesmo lugar.

Fiquei ali parada, embaixo daquela árvore, sem saber bem o que fazer. Sem saber o que pensar.

Fiquei descalça e me permiti descansar, deitada embaixo daquela imensa árvore.

E comecei a planejar minha próxima estratégia. Mas quando comecei a planejar, fui vendo na minha mente o que aconteceria se cada empreitada desse certo. Para onde realmente eu queria ir? O que eu exatamente gostaria de ter? O que me faltava de tão urgente na vida que me fazia acelerar tanto? O que me fazia feliz de verdade? Algum dia eu iria dedicar tempo para fazer só isso: ser feliz ? Por que eu não conseguia resistir à tentação de sempre querer mais?

Eu gostaria de mudar o enredo dessa estória e continuá-la aqui no Blog dizendo que eu encontrei as respostas, quais foram elas e discorrer sobre essas dúvidas como quem sabe exatamente o quê, e como fazer. Mas eu ainda estou embaixo da árvore, me permitindo respirar e pensar em tudo isso, e no porquê de eu ter vindo parar aqui. Estou de repouso absoluto por recomendação médica. Tenho um aval para ficar quieta. E enquanto isso, eu vou refletindo e tentando achar o caminho que Deus quer tanto que eu encontre. Espero que Ele não venha me buscar antes da hora... ;)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ESCUTATÓRIA

Rubem Alves



Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia. Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma".

Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.).

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado". Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou". Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
“Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera.
Estranho e que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.
Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. 
A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente. 
Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.”


(Caio F.Abreu)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Leituras

O outro que há em nós

Quem some da nossa vida leva um pedaço da gente

IVAN MARTINS
Todo mundo tem ex, mas nem todos se relacionam com elas (ou eles) da mesma maneira. Boa parte dos homens ao meu redor, por exemplo, parece se dar excepcionalmente bem com as mulheres do passado deles. Falam com elas, jantam com elas, vão a festas com elas. Eu não. Há duas ex que são importantes com quem eu não troco palavra e outras tantas que eu permiti que sumissem. Para meu azar. Se cada uma das pessoas do passado conta um pedaço da nossa vida, há vários pedaços de mim que se perderam.
Quando se fica muito tempo com a mesma pessoa, sobretudo quando se é muito jovem, ocorre uma troca imensa e transformadora. Quem teve namoros longos na adolescência sabe como é. A gente cresce, aprende e se forma sob o olhar do outro, com a influência dele. Há o jeito de transar, o jeito de gostar, o jeito de pensar e conversar. Os valores. Somos esponjas e nos embebemos de quem está tão perto num período tão crucial.
Logo depois, na juventude, ocorre coisa semelhante. Você dá passos essenciais na vida – termina a faculdade, arruma o primeiro emprego, vai morar junto - em companhia de alguém que influencia e partilha as suas escolhas. Os amigos estão lá, claro. A família nunca deixa de ser importante. Mas é essa namorada (ou namorado) que divide intimamente os primeiros eventos da vida adulta, quando estamos aprendendo quem somos e o que queremos. A pessoa ao lado ajuda a moldar nossas definições.
Isso vale para os períodos posteriores da vida. Os nossos parceiros são parte essencial de tudo. Viajam conosco, riem conosco, trabalham conosco, cuidam de nós. Quem me deu aquele livro? Quem me apresentou aquela banda? Quem estava comigo na noite em que morreu aquele amigo? Ninguém pode dimensionar o valor das tardes de encantamento que as pessoas amadas nos deram. Ninguém sabe o quanto elas são importantes.
Uma das minhas teorias (descartáveis) sobre o amor é que apenas o tempo nos permite avaliar sua real importância. A pessoa passa pela nossa vida de um jeito rápido, quase acidental, e, anos depois, por força das memórias que insistem em voltar, a gente percebe que ela sobrevive em nós, apesar de ter estado tão pouco tempo conosco. Já aconteceu comigo. Sei que acontece com os outros. Isso significa que não apenas os longos relacionamentos que têm importância. Os outros também podem ser essenciais.
Vista de um jeito triste, a vida é uma longa enumeração de perdas, mas algumas delas são totalmente desnecessárias. É como se não soubéssemos como o tempo e os afetos são importantes e saíssemos por aí desperdiçando.
“Fulana, com quem eu vivi entre os 25 e os 30 anos, dane-se ela. Brigamos na hora de dividir as coisas na separação e nunca mais nos falamos.” Lá vai um bloco da sua vida que se tornou inacessível. “Sicrano é um crápula. Nós rompemos e logo depois ele saiu dando em cima das minhas amigas. Não sei como eu pude ficar tanto tempo com um babaca desses.” Eis outro pedaço da vida deletado. “Tenho saudades daquela garota, ela é tão legal, mas eu sumi sem falar nada, porque a Beltrana era ciumenta, e agora tenho vergonha de ligar. Já passou tanto tempo”. Péssimo, não?
Por isso, cuidado ao jogar pela janela relações valiosas. Cuidado ao descartar pessoas queridas. Não há tantas delas assim numa única vida. E cada uma delas leva consigo um pedaço da história da nossa história.
Isso não quer dizer que a gente não tenha de fazer rupturas e avançar. As coisas acabam para que outras coisas comecem. Tem gente que não termina nada, que tenta deixar todas as portas abertas, manter todas as linhas de telefone funcionando. Não dá. É preciso haver silêncio e afastamento. Há que permitir que as coisas terminem e que os sentimentos se reciclem. Então, sim, as pessoas podem voltar a se relacionar, de outro jeito.
Quando estamos apaixonados e levamos um pé na bunda, temos a tendência, muito humana, de querer ficar por perto, “como amigo”. Mentira. Todo mundo já fez isso, mas é bobagem. Dói muito e não adianta nada. Quanto termina, a gente tem de cair fora. A amizade virá depois, quando as sensações mútuas forem outras.
Há quem defenda a teoria de que relações de amizade entre gente que se amou são impossíveis. É outro jeito de dizer que relações erotizadas serão assim para sempre. Eu não acho. Os sentimentos, como a água, correm e vão parar em outro lugar. Eles tomam outra forma. A atração e o desejo não desaparecem inteiramente, mas se integram a outro contexto. Exacerbam o carinho por aquela pessoa que já foi tão próxima. Criam uma camada de compreensão que não existe em outras relações. Depois que o amor e a dor ficaram para trás, permanece um afeto contaminado pela antiga intimidade. Eu gosto desse sentimento, aprendi que ele é uma parte boa da vida, sei que é mais gostoso, infinitamente mais doce, que o vazio das relações que se extinguiram – que nós permitimos que se extinguissem.
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ótimo texto

Quando a máscara vira rosto- Eliane Brum

Todo mundo inventa seus personagens, mas alguns acreditam demais no próprio e se estrepam


Ter um ou mais personagens para encarar a pedreira do mundo é não só necessário, como uma questão de sobrevivência. Especialmente se você tiver uma sensibilidade extremada. Nascemos com uma pelezinha de bebê também na alma (e aqui não me refiro ao sentido religioso do termo) e precisamos protegê-la. Se há algo que os outros pressentem é o tamanho da nossa fragilidade. Por isso um chefe abusivo sempre sabe com quem pode gritar – e com quem é melhor não. Muita gente é como aqueles cães de caça farejando o flanco mais indefeso para atacar sua presa. Triste, triste. Mas mais triste é quando, em nome da necessidade de sobreviver, criamos um personagem que se mostra tão útil que acaba se confundindo com nossa derme mais profunda. Se criar personagens é preciso, despir-se deles constantemente é vital. 
Como ando bastante por aí, tanto por razões profissionais quanto por gosto, observo muito as pessoas. E seus personagens. E, muitas vezes, tenho vontade de dizer, e em algumas delas, se há um grau de intimidade que me permita falar sem ofender, eu digo: “Pronto, você já fez o seu show. Agora, por favor, para jantar comigo enfia a máscara dentro da bolsa e relaxa”.
Ninguém se iluda de que é absolutamente verdadeiro o tempo todo, até porque somos muitas verdades ao mesmo tempo e seguidamente elas são contraditórias. Aquelas pessoas que parecem muito “autênticas” porque são extrovertidas, dizem coisas chocantes, se arriscam no estilo, estão muito bem cobertas por suas máscaras e morrem de medo de serem reveladas. A máscara do “autêntico”, “louco” ou “excêntrico” é uma das mais corriqueiras. Este tipo faz piada com o ponto fraco dos outros, dando gargalhadas e batendo nas costas da vítima e, quando alguém reclama, uma meia dúzia de amigos sai em sua defesa dizendo que “é o jeito dele”. Ahan.
Há o tipo “bonzinho” que, mesmo fazendo coisas horríveis e muito bem dissimuladas de vez em quando, é tão convincente no “foi sem querer” ou “ele jamais faria isso de propósito” que é imediatamente perdoado. Existe a “mulherzinha”, tão frágil que parece que vai quebrar a qualquer adjetivo mais eloquente. Esta manipula brilhantemente nossos mais primitivos instintos de proteção e, se você tem a coragem de dizer para ela tomar jeito e prescindir do diminutivo, imediatamente é você quem vira uma megera. E há o seu oposto, “a mulher alfa”, esculpida a navalhadas, que se arma de sapatos de bico fino, terninhos de grife e cortes de cabelo modernos, mas práticos, para arrasar meio mundo a bordo de sua armadura como se o melhor produto do feminismo fosse uma mulher se tornar um clichê de homem.
Enfim, são muitas as fantasias que vestimos para não sermos engolidos pelo mundo. Em geral não somos nem mesmo uma máscara definida, como as que acabei de expor apenas como recurso didático. Não somos Batman, Coringa, Gilda, Bambi ou Madre Tereza de Calcutá. Somos uma mistura de vários estereótipos. E, se é verdade que vestimos máscaras, também é verdade que não há um “eu” essencial – mas sim um “eu” fluido e incapturável, em constante movimento de mutação. E é nesta fluidez do eu, que não pode ser confundida com ausência de rosto, que residem nossas verdades mais profundas.
Acho que nossas máscaras começam a colar no nosso rosto ainda na infância. Uma mistura entre a necessidade de rotular que os pais em geral têm e o nosso desejo de satisfazê-los – ou de escapar da prisão que intuímos. Numa família com mais de um filho é mais fácil perceber. Um é o extrovertido, o outro é o tímido, outro ainda é o rebelde. Ou um é o estudioso que “não dá trabalho nenhum”, o outro é o vagabundo que ninguém sabe “por quem puxou”. E há o outro que tem – socorro! – “transtorno do déficit de atenção e hiperatividade”.
Os pais costumam botar um rótulo em cada filho, e a escola raramente tem competência para, em vez de reforçá-los, quebrá-los para que as crianças tenham outras possibilidades de expressar aquilo que são ou se tornar algo diferente do que foram levadas a ser. Uma pena, porque quebrar máscaras impingidas ainda na infância talvez seja a grande função de um educador. É muito difícil identificar se alguém “é assim” ou se tornou o que sempre ouviu que era. Agora, que as crianças são medicalizadas cada vez mais cedo e os rótulos ganharam status de “diagnóstico”, com a entrada do “especialista”, danou-se.
De fato, ninguém é – todos nós nos tornamos. E este “tornar-se” não é um caminho linear rumo a um rosto definitivo, que daria conta de nossa essência. Não há essência, o que existe é construção a partir de um conjunto de genes, de influências ambientais e experiências as mais variadas, de inscrição no momento histórico e de livre arbítrio – ainda que o livre arbítrio nunca seja tão livre assim. Embora possa ser assustador pensar que não há um “eu” essencial a ser alcançado, de fato é bastante libertador.
Somos uma constante invenção e reinvenção. E, tão importante quanto, desinvenção. Vale a pena não esquecer que sempre podemos nos desinventar. Ainda que carreguemos conosco tudo aquilo que vivemos, a mágica está em dar novos significados a antigas experiências e ter a sabedoria de nos livrarmos do que não é nosso, apenas foi impingido a nós como uma roupa de gosto duvidoso. Por isso, é bom tomarmos muito cuidado para não rotular os outros, como se nossas sentenças fossem imunes de preconceitos. E mais cuidado ainda se estes outros forem os nossos filhos, para que nossos rótulos não virem destino.
Acho que a melhor forma de não impingir máscaras aos outros é não impingi-las a nós mesmos. É bem fácil cair na tentação de transformar uma de nossas máscaras, aquela que nos parece mais eficaz no embate cotidiano, em nosso rosto definitivo. A máscara se torna tão usada que vai se fundindo primeiro à nossa pele, depois aos nossos ossos. Não é que vire ferro, como no clássico de Alexandre Dumas. O problema é que vira carne humana, mesmo. E aí, meu amigo, fica bem difícil de arrancá-la, porque passamos a acreditar que morreremos no processo. Ou que, por trás dela, não há um ou muitos rostos, mas um vazio infinito. Muita gente se agarra a seu personagem com medo de que, se a máscara for arrancada, descubram que não há nada lá. A máscara serviria, neste caso, para esconder a ausência de face.    
Tento me livrar da tentação de virar personagem, uma máscara só, pela própria escrita. Parte do ímpeto que me move a inventar outras vozes narrativas para mim e outras bases para estabelecer o cotidiano se dá pelo meu temor de acabar gostando demais de alguma máscara conveniente. Tento me quebrar o tempo todo me jogando em desafios novos sem pensar muito nos riscos para me desgarrar da tentação das certezas sobre mim. Tem funcionado.
Além das mudanças mais profundas, que quem me acompanha nesta coluna está cansado de saber, há pequenas trocas de atitude que podem ser bem divertidas. Eu sempre fui disciplinadíssima, por exemplo. Estou numa luta feroz comigo mesma para deixar de ser. No último final de semana consegui um feito inédito em 45 anos de vida: dormi 16 horas seguidas. Almocei e ainda me entreguei a mais duas horas de sesta. Vou acabar esta coluna e tomar uma cerveja em comemoração a isso.
Sempre fui pontualíssima e, como todas as pessoas pontuais deste país, esperava muito. A ponto de o garçom ficar com pena e vir conversar comigo. Agora, com exceção dos compromissos de trabalho, resolvi deixar todo mundo me esperando. É uma delícia a cara de surpresa dos amigos. Chego e está todo mundo lá. Costumava comer chocolates aos poucos. E, quando ia comer, antecipando o gosto do bombom desmanchando na minha boca, alguém lá de casa já tinha dado cabo dele. E ainda me acusava: “Você faz isso de propósito, para me tentar. Por sua causa, acabo engordando”. Pronto, além de ficar sem chocolate, ainda era culpada pelo descontrole alheio. Mudei. Agora devoro compulsivamente meus chocolates e também o dos outros.
Não, não parecem mudanças muito salutares, eu sei. Mas elas cumprem, pelo menos por algum tempo, a função de me desconstruir tanto aos meus olhos como aos olhos dos outros, que cultivam a pretensão de que a gente seja a mesma até o final dos tempos. Um peso que, com licença, não pretendo arrastar por aí como se fosse meu.
Especialmente nas questões mais profundas, desmascarar a si mesmo é uma prática importante do cotidiano. E também um ato que precisa ser constantemente recriado. Nosso instinto de sobrevivência engendra armadilhas e argumentos bem convincentes para absorver este “duvidar de si mesmo”, que nos mantêm alertas com relação a nossos próprios ardis, e acaba por torná-lo mais um penduricalho que tem apenas um efeito placebo. O que o mercado faz com a contestação ao mercado, transformando-a em um produto, nós fazemos com relação à nossa porção contestadora, ao transformá-la em nossa versão de mercado. De tal forma que, um dia, sem perceber, paramos de tirar a maquiagem no fim da noite e dormimos acreditando que a máscara é a nossa cara.
Dias atrás encontrei um conhecido muito talentoso. É brilhante mais vezes do que a maioria. Arrasta com ele uma legião de fãs. E, principalmente, tem o que dizer porque é um grande criador. Fazia algum tempo que não o encontrava pessoalmente e fiquei estarrecida ao perceber que ele tinha virado um personagem, um bufão. Não mais um bufão como forma de contestar a hipocrisia, mas um bufão como forma de não ser contestado em sua hipocrisia.
Torço para que ele perceba a tempo que a máscara é uma versão bem pobre dele mesmo, já que não tenho intimidade para dizer a ele eu mesma. Enquanto isso, ao testemunhar a figura triste em que ele se transformou, tratei de aprimorar meus próprios alarmes antimáscaras. E escrevi esta coluna na esperança de que ela possa ajudar a acionar a sirene em cada leitor. As máscaras têm sua função, desde que não nos apeguemos a elas a ponto de fazer da mais confortável um rosto que agrada a todos – menos a nós mesmos.

domingo, 18 de setembro de 2011

Corredores

Estou, neste momento, entre a Vida e a Morte. Não, graças a Deus ou simplesmente porque ainda não cumpri minha missão, eu não estou agonizando ou prestes a partir (quer dizer...sempre estamos prestes a partir, não?). O que quero dizer é que estou no corredor do 5º andar do Hospital da Unimed, onde a internet é melhor. O corredor separa a ala dos bebês e mamães, da ala dos pacientes pós-cirúrgicos, que precisam de muito cuidado. Como não me encaixo em nenhuma categoria, já que é o meu marido que está do lado de lá (entenda-se: ele não é bebê nem mamãe), transito entre os dois mundos: o da alegria e o da tristeza, o da beleza e o da miséria, entre o resplendor e a dor, entre os quais não existe rima, nem verso, nem prosa.
Quando esta dor que aperta o coração, que dói na alma de quem só deseja, no leito e prostrado, a saúde na vida, saio da ala dos humilhados e vou para a dos exaltados, onde tudo é contentamento. No lugar da placa "ProibidoVisitas", há em cada quarto um convite à celebração em conjunto, são muitos "Cheguei!" inundados de alegria, enquanto na outra ala os pacientes só querem uma única placa- "Fui pra casa!".
Enquanto transito entre esses dois mundos fico pensando que talvez a vida seja exatamente isto: um caminho onde não há nenhuma ala permanente, e quando não estamos entre os extremos, talvez estejamos apenas no corredor. Não da morte, mas o corredor da Vida. Vida esta que não nos avisa quando teremos "alta" de algum lugar para o outro, apenas pede que, seja qual for nosso lugar, que estejamos preparados, principalmente para quando tivermos que partir.
Toda esta fase difícil me ensinou muita coisa, principalmente me fez fazer as pazes com Deus. Me sinto muito mais íntima dEle, sinto sua presença quase que tangível, e essa sensação tem me dado as três coisas que mais preciso neste momento: fé, força e paciência. As três estão intimamente interligadas e não subsistem sem a outra. E tal como os extremos da vida, no dizer de Pe. Fábio de Melo, Deus também me move, como uma roda gigante: me traz para terra, me leva pro céu.
E é por isso que eu sei que, esses bebês que agoram trazem alegria, também vão trazer tristeza. Porque a vida é feita de contrários, o tempo todo. E é por isso que essa música fala tão alto ao meu coração hoje, e é com ela que termino o post, sem jamais terminar a minha esperança.

Contrários

Só quem já provou a dor
Quem sofreu, se amargurou
Viu a cruz e a vida em tons reais

Quem no certo procurou
Mas no errado se perdeu
precisou saber recomeçar

Só quem já perdeu na vida sabe o que é ganhar
Porque encontrou na derrota algum motivo para lutar

E assim viu no outono a primavera
Descobriu que é no conflito que a vida faz crescer

Que o verso tem reverso
Que o direito tem o avesso
Que o de graça tem seu preço
Que a vida tem contrários
E a saudade é um lugar
Que só chega quem amou
E o ódio é uma forma tão estranha de amar

Que o perto tem distâncias
E o esquerdo tem direito
Que a resposta tem pergunta
E o problema, a solução
E o amor começa aqui
No contrário que há em mim
E a sombra só existe quando brilha alguma luz.

Só quem soube duvidar
Pôde enfim acreditar
Viu sem ver e amou sem aprisionar

Quem no pouco se encontrou
Aprendeu multiplicar
Descobriu o dom de eternizar

Só quem perdoou na vida sabe o que é amar
Porque aprendeu que o amor só é amor
Se já provou alguma dor
E assim viu grandeza na miséria
Descobriu que é no limite
Que o amor pode nascer





domingo, 11 de setembro de 2011

"Você precisa ser forte"

Eu me lembro que quando eu fui, pela primeira vez na minha vida, para uma "recuperação" no Colégio, foi na disciplina que eu mais odiava: Educação Física. Não pelo fato de eu ser sedentária ou algo parecido,já que até os meus 17 anos eu fazia parte da vencedora equipe de nado borboleta da Paraíba, mas porque eu odiava minhas pernas finas e meu quadril não-desenvolvido, e era obrigatório o uso daquele short horroroso da escola. Aquela pequena roupa azul denunciava explicitamente tudo o que eu mais detestava em mim, e o pior: a denúncia também era feita para as meninas que eu mais detestava das outras turmas. Enfim, o fim do mundo para uma adolescente típica (e eu era típica messsmo, do tipo de falar "que saco!" para tudo).
Diante da notícia que eu poderia simplesmente repetir de ano por causa de uma matéria que eu considerava a mais inútil de todas, fui conversar, implorar, suplicar, e argumentar com a professora Fabíola, que ao mesmo tempo me amava e me odiava por odiar sua aula (Fabíola querida, não eram as abdominais que me faziam sofrer...), sobre o que eu poderia fazer para passar sem ter que passar pelos meus medos. Um trabalho sobre o corpo humano, mil provas sobre articulações, ossos, sei lá. Quando eu desisti de tentar convencê-la, ela simplesmente me passou uma série de exercícios, incluindo uma série para bíceps e tríceps com bastante peso, e diante da minha relutância, ela simplesmente disse "Você precisa ser forte". Como um esboço do Capitão Nascimento, a professora queria que eu desenvolvesse meus músculos e deixasse de fazer corpo mole.
Levei tão ao pé da letra que acho que durante toda a minha vida eu repeti para mim mesma essa frase da minha professora. Mesmo quando a dor- física ou espiritual- me consumia, eu sempre dizia a mim mesma: "Você precisa ser forte". Foi com esta atitude que passei nestes últimos dias por maus momentos com meu marido, que está sofrendo desde o último domingo, quando as dores dele começaram, assim como nossa peregrinação por hospitais, médicos e diagnósticos. Na quinta-feira, enfim, ele foi submetido a uma cirurgia de emergência de uma apendicite aguda, já supurada em virtude da demora no diagnóstico. Ele teve complicações, e o pós-operatório está sendo doloroso e difícil. Não dormimos há uma semana. Quando ele tira um cochilo de uma ou duas horas, eu aproveito para estudar tudo sobre a doença, vídeos de cirurgia, antibióticos, tudo que possa me esclarecer sobre o que está acontecendo com Elias.
Não estou dormindo, não tenho vontade de comer, nem de me olhar no espelho. Só penso nele e no seu bem-estar, se o soro acabou, se a barriga continua distendida, se a sonda está funcionando direito. Às vezes eu nem me lembro que eu, Vivianne, existo. E de repente, eu paro e descubro o que, enfim, é o amor. O Amor de verdade, que não ama para si, mas para o outro. Quando me pego de joelhos, enxugando os pés do meu marido após lhe dar um banho, eu penso em quanta coisa o Amor é capaz de fazer. E o quanto nossa visão sobre a vida pode mudar radicalmente de uma hora para outra. Estou, por exemplo, torcendo para que Elias possa soltar um pum. Sim, eu odiava isso. Mas agora só o que eu quero neste momento da minha vida é que meu marido possa soltar os gases que estão o impedindo de respirar direito.
Ontem foi um dos piores dias da minha vida, em que tive um medo real, quase palpável, de perder meu companheiro. Quando esse medo não me largava mais, mas ao mesmo tempo, a fé me segurava, eu repetia comigo a frase de Fabíola- "Você precisa ser forte"- e esse mantra me fez ficar alerta durante todo o dia, observando tudo e em plena atividade de 'enfermeira-chefe'. Mas quando chegou a noite, o médico não deu bons prognósticos, e a chuva caiu torrencialmente sobre o terraço do Hospital, eu olhei para uma grande nuvem que passava no Céu e perguntei a Deus quando aquela tempestade ia passar. Ali mesmo, naquele banco do terraço, eu fechei os olhos e tive uma visão muito bonita de Nossa Senhora, me dizendo : "Você não precisa ser forte". Chorei incontrolavelmente durante uma hora. Depois, fui pra Capela, rezei mais, entreguei Elias nas mãos de quem sabe o que fazer, falei com algumas pessoas queridas no telefone, desabafei e voltei ao quarto. Coloquei uma pequena imagem de N.Sra.de Fátima nas mãos de Elias, falei pra ele conversar com Ela, comi uma coxinha (enfim, um prazer!) e voltei. Ele tinha adormecido. Depois de algumas horas de sono, ele tinha mudado completamente. Estava bem mais sereno, pediu para ir ao banheiro e fez xixi, depois de quase um dia inteiro sem urinar.
Nesta hora eu chorei. Senti que eu, enfim, tinha deixado que Deus assumisse o controle e que tudo daria certo. Esqueci a frase de Fabíola e aliviei meu coração pensando apenas em Nossa Senhora me lembrando a todo tempo que eu não preciso ser forte. Pelo menos, não preciso ser forte sempre. :)


p.s: Mais sobre a história de N.Sra.de Fátima- http://www.quiosqueazul.com.br/2009/05/nossa-senhora-de-fatima.html.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Amigas,colegas,inimigas à parte.

Para a leitura do texto, deve-se considerar como Personagens:
Amiga- você sabe quem é.
Colega- você imagina quem seja.
Inimiga-Amiga- no fundo, você sabe que não é amiga, mas alguma de vocês-ou ambas- finge muito bem.



Amizade é profunda, Coleguismo é raso. Inimizade disfarçada é rasteira.
Amiga diz "Você está chata hoje". Colega te conhece naquele dia e acha que você é chata. Inimiga-amiga te acha chata sempre, mas finge te aguentar para não perder a "amizade".
Amiga nota seu cabelo novo e diz que a cor combina com seus olhos, sem medo de elogiar. Colega elogia e solta um "arrassooooouu,amigaaaaaaa" porque muita gente "comentou" seu corte, mesmo sem ela ter percebido nada. Inimiga-amiga critica de forma sutil: "Já mudou a cor do cabelo de novo?", como se a mudança de cor fosse um atestado de instabilidade emocional grave.
Amiga vibra com as suas conquistas, como se fossem dela, mesmo que haja até inveja, mas verdadeira- "Será que eu vou conseguir também?" E vocês se abraçam. Colega só diz: "Parabéns!!" e olhe lá. Inimiga-amiga vai logo dizendo: "E você vai se adaptar a esse emprego novo? Melhor o certo do que o duvidoso..." e você fica com as malditas frases na cabeça.
Amiga torce para que seu novo amor engate, mas não deixa de esmiuçar todos os detalhes do indivíduo, para ter certeza de que ele pode te fazer feliz. Ela te conhece. Colega vê a foto de vocês dois e diz "Casal 20! Lindos!" sem ter a mínima ideia de quem o fulano seja e há quanto tempo vocês estão juntos. Inimiga-amiga solta um "Vamos ver se com esse dá certo", ou "Vc acabou de conhecer o fulano e já acha que ele é a 8ª maravilha do mundo?", como se estar apaixonada e compartilhar isso fosse um crime, com direito a sermões silenciosos ou  risadas contidas aliadas a um "tsc,tsc..."
Amiga quer saber dos seus sonhos. E te encoraja a ir em busca deles. Colega não sabe quais são seus sonhos. Inimiga-amiga não quer saber, nem se interessa.
Amiga sente um aperto quando vocês se separam, mas sabe que a distância não acaba a amizade. Colega quando se distancia vira uma semi-conhecida. Inimiga-amiga diz que vai sentir sua falta, mas só vai te ligar ou mandar algum sinal de vida quando ela precisar de você, ou quando você fizer aniversário, porque ela faz isso todo ano, e não porque se importa.
Amiga se magoa com a sua ausência. Colega sempre está ausente, mesmo presente. Inimiga-amiga te chama de dramática ou aproveita que você já está magoada pra te magoar mais, de algum jeito que ela diz ser "verdadeiro".
Amiga é quem resiste ao tempo. É com quem você pode contar, sempre. E elas, por isso mesmo, se contam nos dedos de uma só mão. Colega se conta nas relações (ou redes) sociais, sempre mutáveis. Inimiga-amiga também não são muitas, mas necessárias.
Necessárias e Imprescindíveis. Para que você possa enxergar, com o tempo e com a clareza que só ele traz, quem são suas amigas, colegas e inimigas-amigas (?).

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Biblioteca

Elas estão ali,
tão plácidas, quietas,
estudando objetivos.

E eu cá estou,
Inquieta, desperta,
encontrando adjetivos,
raciocinando subjetivos,
enquanto aquelas moças pensam:

-Olha ela ali,
tão concentrada, determinada
em escrever a matéria.

Da alma?
Pode ser.
Do resto,
agora não.

Deus me livre de ser eu.



sábado, 20 de agosto de 2011

"Nossos Destinos foram traçados na Maternidade"

Dia desses eu estudava na biblioteca quando alguém bateu no vidro da sala de estudo pedindo permissão para entrar. Era um rapaz bem mais jovem do que eu, que queria varrer o chão do lugar. Imediatamente me levantei e fiquei esperando que ele terminasse, enquanto uma horrível sensação me percorria. Perguntei a ele se ele também estudava e ele me respondeu que já tinha terminado o ensino médio.Ele não falou  nada além disso e claro que  não tive coragem de perguntar mais. Estávamos, ambos, envergonhados. Envergonhados pela imensa distância que nos separava, desde que nascemos. Eu nasci e fui desejada, cuidada, dormi em "berço esplêndido", enquanto aquele menino e tantos outros na maioria das vezes não têm sequer uma cama só pra eles. Enquanto eu estava estudando pra ganhar mais, ele trabalhava para sobreviver. Ao mesmo tempo em que eu estudava os direitos "da pessoa humana", ele sabia, concretamente, quais direitos não tinha. Entre eles, o de fazer parte daquele grupo de estudantes de uma Biblioteca Pública. Como seria possível passar o dia ali, estudando? À noite, o lugar fechava. Portanto, só os sortudos podiam usufruir daquele espaço, que talvez devesse atender justamente, os não-sortudos.

Pensei nisso tudo, e me senti tão mal, que não consegui mais estudar. Faltava-me coragem de enxergar o livro quando tudo o que meus olhos viam era aquele menino catando papéis de bombom. Enquanto meu olhar ficava úmido, pedi desculpas a ele, em silêncio, e fui embora. "Desculpa por eu ter nascido em um lugar melhor que o seu, eu não tive culpa." O nosso destino, como dizia o grande poeta Cazuza, foi traçado na maternidade. Não o destino romântico de se encontrar, mas o destino cruel de não se encontrar. Quem sabe, nunca.

Anteontem, fomos assistir a uma apresentação da orquestra da Polícia Militar, na orla da praia de Tambaú, lugar que mais gosto aqui em João Pessoa. Concordo com Nietzsche quando ele disse que "sem música, a vida seria um erro". E naquela ocasião, essa frase era mais que acertada. No meio da apresentação, surgiu um pequeno Coral de vozes infantis, oriundo de um projeto social de músicos no bairro pobre de Mandacarú. Vi aqueles pequenos meninos e lembrei daquele grande menino da Biblioteca. Fiquei chorando com a desculpa da música "Eu quero Paz" que eles cantavam, e meu choro era uma súplica a Deus para que eles pudessem, ao menos, ter um pouco da sorte que eu tive durante toda a minha vida. Pedi a Deus para as pessoas perceberem que o mundo delas está interligado com o mundo de outras, e não desconectado. Pedi para que quem usasse o dinheiro público pensasse que ele poderia mudar o destino de tantos guris daqueles. Chorava de raiva por só ganhar eleição quem tem dinheiro, e não quem vem dali, do berço dos não-sortudos. Não há como se fazer uma reforma política nesse País, meu Deus? Não há como a futilidade e o egoísmo deixarem só um pouquinho de espaço para a gente poder pensar no mundo em que o outro vive?
Eu fazia tantas perguntas que a música já tinha acabado e eu nem notei. Aí, de repente, a banda já tinha começado a tocar "O que é o que é?", de Gonzaguinha, ao mesmo tempo em que dois meninos, na minha frente, se jogavam na areia e riam (gravei os dois, aí embaixo). E parece que Deus me respondia com eles:  

"Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita."
 


quarta-feira, 17 de agosto de 2011