quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Amigas,colegas,inimigas à parte.

Para a leitura do texto, deve-se considerar como Personagens:
Amiga- você sabe quem é.
Colega- você imagina quem seja.
Inimiga-Amiga- no fundo, você sabe que não é amiga, mas alguma de vocês-ou ambas- finge muito bem.



Amizade é profunda, Coleguismo é raso. Inimizade disfarçada é rasteira.
Amiga diz "Você está chata hoje". Colega te conhece naquele dia e acha que você é chata. Inimiga-amiga te acha chata sempre, mas finge te aguentar para não perder a "amizade".
Amiga nota seu cabelo novo e diz que a cor combina com seus olhos, sem medo de elogiar. Colega elogia e solta um "arrassooooouu,amigaaaaaaa" porque muita gente "comentou" seu corte, mesmo sem ela ter percebido nada. Inimiga-amiga critica de forma sutil: "Já mudou a cor do cabelo de novo?", como se a mudança de cor fosse um atestado de instabilidade emocional grave.
Amiga vibra com as suas conquistas, como se fossem dela, mesmo que haja até inveja, mas verdadeira- "Será que eu vou conseguir também?" E vocês se abraçam. Colega só diz: "Parabéns!!" e olhe lá. Inimiga-amiga vai logo dizendo: "E você vai se adaptar a esse emprego novo? Melhor o certo do que o duvidoso..." e você fica com as malditas frases na cabeça.
Amiga torce para que seu novo amor engate, mas não deixa de esmiuçar todos os detalhes do indivíduo, para ter certeza de que ele pode te fazer feliz. Ela te conhece. Colega vê a foto de vocês dois e diz "Casal 20! Lindos!" sem ter a mínima ideia de quem o fulano seja e há quanto tempo vocês estão juntos. Inimiga-amiga solta um "Vamos ver se com esse dá certo", ou "Vc acabou de conhecer o fulano e já acha que ele é a 8ª maravilha do mundo?", como se estar apaixonada e compartilhar isso fosse um crime, com direito a sermões silenciosos ou  risadas contidas aliadas a um "tsc,tsc..."
Amiga quer saber dos seus sonhos. E te encoraja a ir em busca deles. Colega não sabe quais são seus sonhos. Inimiga-amiga não quer saber, nem se interessa.
Amiga sente um aperto quando vocês se separam, mas sabe que a distância não acaba a amizade. Colega quando se distancia vira uma semi-conhecida. Inimiga-amiga diz que vai sentir sua falta, mas só vai te ligar ou mandar algum sinal de vida quando ela precisar de você, ou quando você fizer aniversário, porque ela faz isso todo ano, e não porque se importa.
Amiga se magoa com a sua ausência. Colega sempre está ausente, mesmo presente. Inimiga-amiga te chama de dramática ou aproveita que você já está magoada pra te magoar mais, de algum jeito que ela diz ser "verdadeiro".
Amiga é quem resiste ao tempo. É com quem você pode contar, sempre. E elas, por isso mesmo, se contam nos dedos de uma só mão. Colega se conta nas relações (ou redes) sociais, sempre mutáveis. Inimiga-amiga também não são muitas, mas necessárias.
Necessárias e Imprescindíveis. Para que você possa enxergar, com o tempo e com a clareza que só ele traz, quem são suas amigas, colegas e inimigas-amigas (?).

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Biblioteca

Elas estão ali,
tão plácidas, quietas,
estudando objetivos.

E eu cá estou,
Inquieta, desperta,
encontrando adjetivos,
raciocinando subjetivos,
enquanto aquelas moças pensam:

-Olha ela ali,
tão concentrada, determinada
em escrever a matéria.

Da alma?
Pode ser.
Do resto,
agora não.

Deus me livre de ser eu.



sábado, 20 de agosto de 2011

"Nossos Destinos foram traçados na Maternidade"

Dia desses eu estudava na biblioteca quando alguém bateu no vidro da sala de estudo pedindo permissão para entrar. Era um rapaz bem mais jovem do que eu, que queria varrer o chão do lugar. Imediatamente me levantei e fiquei esperando que ele terminasse, enquanto uma horrível sensação me percorria. Perguntei a ele se ele também estudava e ele me respondeu que já tinha terminado o ensino médio.Ele não falou  nada além disso e claro que  não tive coragem de perguntar mais. Estávamos, ambos, envergonhados. Envergonhados pela imensa distância que nos separava, desde que nascemos. Eu nasci e fui desejada, cuidada, dormi em "berço esplêndido", enquanto aquele menino e tantos outros na maioria das vezes não têm sequer uma cama só pra eles. Enquanto eu estava estudando pra ganhar mais, ele trabalhava para sobreviver. Ao mesmo tempo em que eu estudava os direitos "da pessoa humana", ele sabia, concretamente, quais direitos não tinha. Entre eles, o de fazer parte daquele grupo de estudantes de uma Biblioteca Pública. Como seria possível passar o dia ali, estudando? À noite, o lugar fechava. Portanto, só os sortudos podiam usufruir daquele espaço, que talvez devesse atender justamente, os não-sortudos.

Pensei nisso tudo, e me senti tão mal, que não consegui mais estudar. Faltava-me coragem de enxergar o livro quando tudo o que meus olhos viam era aquele menino catando papéis de bombom. Enquanto meu olhar ficava úmido, pedi desculpas a ele, em silêncio, e fui embora. "Desculpa por eu ter nascido em um lugar melhor que o seu, eu não tive culpa." O nosso destino, como dizia o grande poeta Cazuza, foi traçado na maternidade. Não o destino romântico de se encontrar, mas o destino cruel de não se encontrar. Quem sabe, nunca.

Anteontem, fomos assistir a uma apresentação da orquestra da Polícia Militar, na orla da praia de Tambaú, lugar que mais gosto aqui em João Pessoa. Concordo com Nietzsche quando ele disse que "sem música, a vida seria um erro". E naquela ocasião, essa frase era mais que acertada. No meio da apresentação, surgiu um pequeno Coral de vozes infantis, oriundo de um projeto social de músicos no bairro pobre de Mandacarú. Vi aqueles pequenos meninos e lembrei daquele grande menino da Biblioteca. Fiquei chorando com a desculpa da música "Eu quero Paz" que eles cantavam, e meu choro era uma súplica a Deus para que eles pudessem, ao menos, ter um pouco da sorte que eu tive durante toda a minha vida. Pedi a Deus para as pessoas perceberem que o mundo delas está interligado com o mundo de outras, e não desconectado. Pedi para que quem usasse o dinheiro público pensasse que ele poderia mudar o destino de tantos guris daqueles. Chorava de raiva por só ganhar eleição quem tem dinheiro, e não quem vem dali, do berço dos não-sortudos. Não há como se fazer uma reforma política nesse País, meu Deus? Não há como a futilidade e o egoísmo deixarem só um pouquinho de espaço para a gente poder pensar no mundo em que o outro vive?
Eu fazia tantas perguntas que a música já tinha acabado e eu nem notei. Aí, de repente, a banda já tinha começado a tocar "O que é o que é?", de Gonzaguinha, ao mesmo tempo em que dois meninos, na minha frente, se jogavam na areia e riam (gravei os dois, aí embaixo). E parece que Deus me respondia com eles:  

"Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita."
 


quarta-feira, 17 de agosto de 2011