segunda-feira, 5 de outubro de 2009

"Hic et nunc"

O título do post serve para todos os textos escritos no blog. Significa "aqui e agora". Porque é no momento presente que todos nós deveríamos viver, embora a gente tenha essa mania desgraçada de perder tanto tempo pensando no que ainda vai vir.
Escrevi há algum tempo aqui sobre felicidade. Um dia depois eu estava numa tristeza só, depois de uma discussão em família. No outro dia, eu ainda chorosa e pensando sobre o que havia acontecido, alguém me disse: " soube que vc está feliz da vida, li no blog..."
Não sei se tais comentários conseguem provar o que Nelson Rodrigues dizia, que a gente só descobre quem gosta realmente de nós na hora da alegria, e não da tristeza, pelo simples fato de que a felicidade incomoda.
Bom, mas o fato é que passei algum tempo sem escrever aqui para não transformar o blog em uma espécie de "diário de uma bipolar", que alterna textos eufóricos e deprimidos. Ao invés disso fiquei pensando nas minhas frases e me solidarizei comigo mesma: "Estou feliz" não significa: "Sou feliz". A felicidade não é um estado de espírito,é um momento. Estar em paz dura mais tempo, se sentir bem consigo mesmo, idem, mas ser feliz o tempo todo não existe.
É uma falácia acreditar nas coisas eternas,imutáveis e plenas. Não existe no mundo alguém que seja totalmente feliz e realizado, que não tenha conflitos, que não passe por fases em que gostaria de morrer só um pouquinho e acordar depois da tempestade ter passado.
Talvez o principal motivo de vivermos tão angustiados e com a depressão à nossa porta é justamente por acreditarmos que certamente há alguém mais feliz, mais realizado, mais próspero, mais amado, mais saudável, mais bonito e mais sábio que nós. O ideal de perfeição nos assombra para uma realidade intangível, que ao invés de nos instigar a seguir em frente, muitas vezes nos imobiliza.
Essa ilusão acaba por influenciar no nosso cotidiano de tal maneira que podemos comprometer todo nosso salário em busca de uma padrão de vida que não nos corresponde, mas pode nos inebriar de algo que seja próximo do que consideramos "ideal".
O Amor também carece de realidades. Dizem que só é feliz quem ama, mas a gente esquece de que quando sofremos por amor é o tempo em que somos mais infelizes. Não sabemos lidar com o contraditório de uma relação. Se hoje eu amo e estou feliz, porque amanhã será diferente? Porque vai ser assim, sempre. "O pra sempre sempre acaba" é uma verdade irrefutável. Mas isto não quer dizer que o que muda será pior para nós. Pelo contrário, se muda, é porque nós mesmos mudamos, e perceber as mudanças pode nos trazer amadurecimento. Ao revés, não perceber as mudanças e não saber lidar com elas, tentar tornar as coisas imutáveis, só traz ressentimento, decepção e mágoa, pelo simples fato de que não há como eternizar um momento por uma vida inteira, ainda que ele tenha o sabor de eternidade.
Não sei se a crise dos 25 anos está começando ou terminando pra mim, mas sinto que a pergunta mais substancial pra mim hoje é aquilo que dizem, mais ou menos assim:
"o que importa não é o que a vida fez com você, mas o que você fez com o que a vida fez de você."
Hoje eu só me interesso em saber se me orgulho do que me tornei com o que a vida me trouxe. E acho que a vida me trouxe todos os mapas que me fizeram alguém muito melhor, com todo sofrimento, busca, dúvidas e conquistas.
Durante muito tempo achei que a vida tinha um viés determinista, com sentenças prontas e acabadas:
"toda mulher tem de achar o amor da sua vida e casar até os 25 anos";
"Toda mulher deve ter um filho";
"a mulher linda, esguia e sorridente, com um filho e uma filha de mãos dadas, e um marido amoroso e bem-sucedido do lado, que está ali, estampado no outdoor do prédio em construção, realmente existe, e será você!"
Essas frases não condiziam com o que eu vivenciava de perto (eu pensava: ela é casada e vive infeliz? como pode? ela tem filho e ele é um peste? como?), e eu comecei a mudar, mesmo contra o piloto automático que muitas vezes me dirigia. Não estou afirmando que encontrei o caminho das pedras. Longe disso. Ainda me sinto extremamente confusa com minhas escolhas, tenho medo do futuro (" e da solidão em minha porta", como diria o poeta), sou insegura, indecisa e faço burrice a cada 2 minutos.
Mas aprendi a experimentar cada acontecimento como uma oportunidade, quase como um teste empírico a me provar se minhas escolhas davam frutos na minha própria personalidade. Complicado? Nem tanto. Tente fazer algumas perguntas sobre o que você deseja e depois veja se seus atos correspondem ao seu desejo...
Ninguém sabe ao certo para quê nasceu e por que está no mundo, e se Deus não tiver uma boa resposta para tudo isso, vivendo bem a gente pelo menos aproveita essa "grande piada", como diria Oscar Wilde.
Só o que posso dizer é que não sei do amanhã, e nem desejo saber. Posso fazer planos, mas também posso mudá-los. E isso não faz de mim alguém instável. Pelo contrário. A minha estabilidade depende da minha consciência em saber escolher todos os dias. E se a escolha for reiterada por muito tempo, é sinal de que desejo aquilo para o resto da minha vida.
E ao invés de temer o que irá me acontecer nas próximas horas, eu tento me concentrar nos minutos de agora, em que tenho a oportunidade de perceber o meu tempo e de decidir o que farei com ele.
E acabo me lembrando da pergunta que eu sempre fazia aos 6 anos de idade, quando não entendia nada sobre a passagem do tempo, e que até hoje nenhum adulto conseguiu me responder (e eu mesma me incluo aqui):
"Por que não se fala 'hoje' ao invés de 'ontem' ou 'amanhã' ? "

11 comentários:

Luana Magalle disse...

Quanta inspiração, Vivi´s!
Só tenho a dizer que tb estou feliz, por você!
Beijos

Ana Cecília disse...

Só tenho uma coisa a dizer: essa frase doeu na alma: "Tente fazer algumas perguntas sobre o que você deseja e depois veja se seus atos correspondem ao seu desejo..."
Talvez aí, esteja o X de muitas de nossas questões...
Obrigada, Vivianne!

Muita Paz e Luz!

Anônimo disse...

"É uma falácia acreditar nas coisas eternas,imutáveis e plenas."

Não acreditas em Deus?

Vivianne disse...

Acredito sim, Anônimo, e como acredito! Por isso falei que não existem "coisas" eternas,imutáveis e plenas. Mas Deus consegue ser "a" eternidade, "a" plenitude.
E também acho que Deus não é imutável. Ao contrário, Ele deve mudar constantemente a fim de ficar mais próximos de nós, tanto é que se revestiu de humanidade quando se misturou entre nós através de Jesus. Além disso, Deus existe nos pequenos milagres que nos acontecem todos os dias e que podemos vivenciar concretamente Não incluo Deus como "coisa" e por isso não o incluí na minha frase.
Desculpa a má interpretação, portanto.
Abraços!

Anônimo disse...

Concordo contigo sobre a bipolaridade humana, mas não achas que tudo é eterno, completo e imutável em Cristo? Não traz Ele novo valor a tudo reduzindo o valor da vida terrena a nada?

"Talvez o principal motivo de vivermos tão angustiados e com a depressão à nossa porta é justamente por acreditarmos que certamente há alguém mais feliz, mais realizado, mais próspero, mais amado, mais saudável, mais bonito e mais sábio que nós."

Não é esse motivo conflitante com a mensagem de Cristo?

Felipe disse...

Querida, penso que todas essas dúvidas, certezas, conflitos, sentimentos, etc acontecem numa grande mistura porque a vida ( vivências) parece ser um eterno inexplicável e o inexplicável nem sempre escapa dos que tentam teorizar a todo momento.Uns teorizam demais, outros realizam demais, e não é fácil achar o ponto de equilíbrio.

Você fala do ontem, do amanhã,mas desejando dar ênfase ao hoje. Acho que não adianta muito, porque estamos sempre em busca do novo e ele tem a ver com o amanhã.Ter desejo pelo novo pode significar simplesmente dar um bom dia de uma forma diferente. Aquilo que é trivial enjoa logo. Acho que é instinto querer mudar , e comunicar o que sentimos talvez seja tarefa mais difícil rumo à maturidade... Você sabe o quanto a gente se cobra...o tempo todo. Você também sabe como tudo parece ser tão inconstante... Por isso a gente se sente tão sufocado angustiado...E além de nós, as pessoas nos cobram muito!A gente tenta falar, explicar e por mais que saibamos que não somos uma fortaleza, no fundo bem que a gente adoraria. No fim, de tudo isso, tentar dizer e não dizer, tentar fazer e não fazer, tentar viver e não viver, tentar pensar e não pensar não é igual a tentar sentir e não sentir. É por isso que ando me permitindo viver mais, já que a vida está longe de ser ciência exata , quiçá eu.

Mudando de assunto: tu gosta um tantão da nossa saudosa Legião, não? Também sempre cito e vivo o poeta Renato Russo.

"É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia
Não é?"...


Bjão.

... disse...

até parece que ela sabe o que anda rondando minha cabeça..como pode?!
;)
Deus ilumine sua cabecinha...
e, fica em paz!
sei mt bem que ser feliz é diferente de estar em paz... mas é tão bom quanto, ou até melhor!

;)

;**

Camila Lavor disse...

"Hic et nunc" p e r f e i t o!!!
com toda expectativa que nos cerca a respeito do julgamento das nossas atitudes passadas ou sobre as nossas conquistas de amanhã, penso estarmos vivendo o nosso melhor momento " aqui e agora".
Te aMo!!!

deynaleao disse...

"o que importa não é o que a vida fez com você, mas o que você fez com o que a vida fez de você." Tem lido Logo? =]

Vivianne disse...

Obrigada pelos comentários pertinentes e inspiradores a mais textos. Gosto muito do feedback de gente do melhor quilate.
Alguém sugere um tema pra discutirmos juntos aqui? :)

p.s: Anônimo, acho que religião não abre muito espaço pra discussão, simplesmente porque nem eu nem vc vamos nos convencer do ponto de vista do outro. E deve ser por isso que Deus é múltiplo.

p.s2:Felipe é escritor, gente. =)

Felipe. disse...

Escritor eu?...rs

Tenho sugestão para alguns temas...

Mas por enquanto topa uma entrevista publicada no blog? Felipe entrevista Vivianne!
Prometo que pego leve...rs

Bjão.