segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A Gaia Ciência

Fui pra Pirenópolis neste fim-de-semana e tive a certeza de que eu tinha uma vida pulsando aqui dentro. A começar pela estrada, que exaltava nas bordas uma paisagem verde de encher os olhos. As pessoas simples, o tempero gostoso, a música sertaneja (eu, que tinha tanto preconceito, comecei a pensar que aquelas letras ingênuas e românticas tinha tudo a ver com a simplicidade do lugar...).

Andei a cavalo, depois de tanto tempo. Imediatamente voltei aos meus 9 anos, quando meu avô me ensinou a segurar as rédeas. Senti falta dele e olhei pro Céu, na esperança de ver aquele sorriso largo, de orgulho por eu ter aprendido...Acariciei o cavalo e disse: "ó vovô olhando!"
No fim da trilha, vi a primeira, das 6 cachoeiras daquela tarde. Foi a primeira vez que vi uma cachoeira na vida, e chorei. Chorei por não saber o que fazer diante da magnitude das coisas. Chorei por sujar a água transparente com meus pés que não sabem onde ir. Chorei porque vi Deus sorrindo na borboleta colorida que passava. Chorei por entender que as quedas d´água (ou da vida), por maiores que fossem, desembocava em um rio calmo. Chorei sobretudo, por estar viva, por gratidão.

Segundo Nietzsche a vida é um "eterno retorno", porque necessitamos e temos a obrigação de errar e voltar a errar quantas vezes for necessário desde que não cometamos o primário erro humano de levarmos uma vida dentro de um ciclo de mesmices. Essa teoria de Nietzsche me convenceu sempre a buscar uma vida de liberdade, que valhesse a pena ser vivida, embora o cotidiano de rotina e desejos fúteis me seduzissem algumas vezes. Me descobri filosofando sobre isso, embaixo da imensa queda d´água que me puxava pra baixo, para aquela vida normal. E eu subia, mesmo contra toda aquela força, e me descobria apaixonada...de longe, emergindo, sorrindo, muito mais feliz.

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"

(Trecho de " A Gaia Ciência").

3 comentários:

Luana Magalle disse...

Vivi!
Lindo texto...!
Vc tem muita vida pulsando em vc!


Mas "eu já sabia" =D
Bjos

Daniel disse...

OI Vivianne, depois de longo tempo resolvi acessar o blog e fiquei surpreso. Surpreso por vc continuar postando coisas tão bacanas e por vc tá aí no DF. Boa sorte e Deus te abençoe.

niti666 disse...

(...) adorei seu comentário.Essa coisa de água me sensaciona coisas.Do Eterno Retorno,de Nit,fenomenal! Um destino sem ''o tem que ser'',uma regra excessao,um ir e vir,um certo pelo errado e vice-versa e tudo virado.Um,fazer por você mesmo repetindo tudo mas sem repeticao(mesmismos)(..) enfim.Tens msn?