terça-feira, 15 de julho de 2008

A Saudade dá uma aula...



Acabo de voltar da minha primeira aula da Saudade na UEPB como professora. Ter meu nome na placa, como professora homenageada, na mesma faculdade em que há poucos anos fui aluna, e pela primeira turma em que dei aula na vida...não tem preço!

Me sinto abençoada por Deus de forma especialíssima. Como se ele piscasse o olho pra mim cada vez que me surpreende...

Eis o meu discurso:




"MEUS ETERNOS MESTRES DESTA FACULDADE,
SENHORAS E SENHORES AQUI PRESENTES,
MEUS QUERIDOS ALUNOS,




Com certeza, o convite para participar deste momento hoje, constitui o maior prêmio que uma ex-aluna desta mesma faculdade e agora recém-chegada como professora, pode almejar. É um momento que fala tão alto ao meu coração que, com certeza, ficará gravado entre as minhas mais vivas saudades, essas que não morrem jamais.

Falarei breve palavras, até porque mesmo que fossem muitas, ainda assim não conseguiriam expressar o meu agradecimento sincero a vocês. No entanto, vocês me fizeram o convite errado. Me deram o encargo de ministrar uma aula sobre uma matéria em que ainda sou aprendiz: a Saudade. Não sei FALAR de saudades. Só sei SENTIR saudades.

Neste momento, em particular, nesta faculdade tão insculpida de lembranças, um mundo de saudades revive minha alma. Quando era apenas uma adolescente que gostava de História e Literatura, caí neste Curso de Direito, e, naquele momento, como diria o grande poeta Olavo Bilac, “abriu-se à vida o meu espírito inquieto e ávido, de asas tontas , de vôo indeciso”.

Jamais pensei em estar aqui hoje, embora a resposta para a famosa pergunta que nos fazem quando somos crianças:”O que você quer ser quando crescer?” sempre tenha sido a mesma: “PROFESSORA!”. Nunca imaginei ser professora de Direito Previdenciário, mas o que realmente me surpreende é ter de dar uma aula sobre um sentimento,que talvez seja o mais contraditório,pois está sempre presente nas nossas ausências.
Eu ainda não entendo a rapidez do tempo, que me leva à primeira e à última aula num piscar de olhos. Me recordo que, logo que conheci vocês, pensei: "quando as aulas acabarem, ou essa turma vai me deixar saudades ou alívio". Acho que já deu pra perceber o que vocês me deixaram...

Um dia um querido professor meu, Luiz Augusto Crispim, assim escreveu:

DEUS quando insuflou o amor no coração dos homens, já combinou com a Saudade:

-Vais morar com o Amor, porém, só revelarás a tua face nos instantes em que os olhos já não puderem enxergar o que sente o coração.

Esse é o destino da Saudade. Morar com o Amor, a vida inteira, e só mostrar o rosto na hora da partida
.”

Com a devida licença ao meu mestre, eu diria que a Saudade, tal como Eva, desafiou o Criador e em certas horas,ela, sorrateira, nos surpreende em momentos como este, quando a Saudade toma conta de nós ANTES mesmo da partida. E o pior é que sabemos que toda hora é hora de partir: Para um amanhã diferente, para uma nova estação, para deixarmos de ser o que somos. Assumir uma nova fase da vida requer maestria em sepultar não apenas as aulas mortas, mas dizer adeus a nós mesmos, numa constante descoberta...ou redescoberta.

A Saudade é tão perspicaz que aparece até mesmo quando emitimos sonoras ordens de não lembrar. Mas só de pedir, já lembramos. De vez em quando, ela assume formas diversas: um aroma, uma música, um sabor, até mesmo o cair da tarde, quando as cores já vão se descolorindo, como um epílogo do dia que já se vai.

Nietzsche, o grande filósofo alemão, dizia que a vida apresenta momentos semelhantes ao da criança quando está na praia e ri e pula de alegria quando as ondas trazem as conchas coloridas para a areia, e chora de tristeza quando as ondas levam as conchinhas de volta para o mar.
Esta solenidade trouxe as conchas coloridas de cada um, dando alegria desde a aprovação no vestibular, nas inúmeras provas, na monografia...trazendo então,o tão sonhado diploma. Mas esse mar da vida leva junto com suas ondas, nosso convívio, nossa amizade diária, nossos momentos cotidianos que agora ficarão apenas na nossa bagagem de saudades.

É estranha essa sensação que agora experimento. Aqui alegre e logo ali tão triste. Mas a Saudade não nos quer tristes. Ela quer ver brotar em nós a sensação de dever cumprido, de momentos bem vividos e felizes.A saudade quer nos acompanhar a vida toda, fazer parte de nós, do que somos, carregando todas as nossas ausências e presenças, porque a saudade não morre jamais.

Antes que eu faça como a Cecília Meireles e diga que quando “penso em vocês, fecho os olhos de saudade”...eu prefiro encerrar desejando a vocês todo o sucesso para o qual vocês foram criados e desafiar a Saudade com as palavras do nosso saudoso Vinícius de Moraes:
"Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais..."



Muito obrigada!!

6 comentários:

Adriano disse...

Pô, "insculpido" cara... que coisa linda.
Show de bola mesmo.
Parabéns!

Poliana disse...

vivi vivi...
vc nasceu pra brilhar...
sua lluz é tão grande que encanta e ilumina tds ao seu redor...
e é essa luz que te torna uma pessoa tão querida, não pelo fato de ser, mas por transmiti-la a tds...

"luz, seja luz!!"
lembrei dessa musica agora, enquanto escrevia.. é pra vc! a sua... (eh de anjos de resgate)

fica com Deus

PSICO_SINCRONICIDADE disse...

Vivi...
Vc é merecedora dessa aula!
Não me enganei um dia qdo vc entrou em meu consultório...e eu disse: - Viviane vc tem Luz própria!
Lembras?
Um beijo e parabéns, vc merece muiiiiito mais!
Dra. Karina

camilavor disse...

tudo que ela faz é assim: perfeito!

Luana Magalle disse...

Lindooo!

Geuda disse...

Viviane, amo seus escritos, esse me emocionou profundamente. Parabéns! Geuda