sexta-feira, 9 de maio de 2008

"Mimi e Dotô"

Meu tio (cujo apelido é "Dotô",título dos seus sonhos) é um sujeito engraçado. Tem quase 50 anos e quase sempre me sinto mais velha que ele. Seu irmão mais velho faleceu de forma brutal, há quase 30 anos. Como eram muito apegados, Dotô caiu no mundo, em desespero. Vagou pelas ruas durante meses, sem saber o que fazer com a perda do irmão. Minha avó,naquele momento, estava tão desnorteada pela ausência do primogênito que não lembrou dos outros 6 filhos, meio desamparados com a turbulência de um assassinato na família. Dotô foi embora, com um circo da cidade. Voltou tempos depois, viciado nas drogas e sem saída. Muito tempo de tratamento precário (naquele tempo, quem usava maconha, ia para o hospício...), meu tio ficou com algumas seqüelas, típicas de esquizofrenia. A história dele parece muito com aquela contada no filme "Bicho de Sete Cabeças".Mas no seu caso,é uma história real, marcada por capítulos tristes...e outros alegres, como o que eu vou contar.

Dia desses eu falava da saudade que eu estava de Sofia, minha gatinha de estimação. Dotô também me falava do amor dele por gatos.Como a gente atrai o que deseja, um gatinho abandonado começou a freqüentar o quintal da minha vó. Não sei como dizer sem que soe falso, mas parecia que o bichano estava procurando por meu tio.

Minha avó, rabugenta quando é contrariada (ariana,fazer o quê?...) começou a enxotar o gato com tudo que ela via pela frente. Mas o amigo do meu tio não arredou o pé (ou a pata...). Todo dia estava lá. Até que Dotô o viu e desde então, eles mantêm uma relação de afeto como poucas vezes eu vi na vida. O gato foi batizado de "Mimi"(eu não tive culpa) e sabe enxergar as belezas do meu tio como nunca alguém enxergou. A linguagem do carinho e do amor que se extrai de situações como essas é indecifrável. Mimi consegue ouvir meu tio tocar violão e canta (mia) junto. Ele é mesmo um gato sobrevivente...hehehe.

O que mais me despertou foi perceber que Deus se faz presente até nestas pequenas situações do cotidiano.Talvez pra mostrar para nós, tão tolos humanos,que o amor nos faz enxergar só o que cada um tem de bom. Deixa que as diferenças sejam apenas marcas que nos fazem ímpares. Mimi soube trazer de volta a meu tio a certeza de que ele era importante, soube transformar uma realidade estéril em uma lição cotidiana de afeto. E eu que pensei que palavras eram melhores que miados...

2 comentários:

Franco disse...

Aqui eu não tenho a Mimi, mas tenho o Doner que acabo chamando de Donico... Sei exatamente a extensão do que pretendeu relatar: é que entre tantas palavras ditas ao ar, os miados e latidos quando compreendidos, fazem muito mais sentido.
Bjão.

Poliana disse...

a simplicidade do amor...
é pricipalmente aí que Deus se faz mais presente!

;)