quarta-feira, 30 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
Finish
Outra coisa também acaba
E nesse acabamento todo
Sempre quem se acaba
é alguém
Ninguém vive sem acabar
um amor,
uma dor,
uma dor de amor
um romance amador
O verbo do acabar
conjuga-se com pontos finais
Eu acabei, tu me acabaste, ele se acabou
E nós todos acabamos tudo
E quando enfim, o poema quase acaba
a vida revela-se
por demais
inacabada.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Texto de Martha Medeiros
DOIDA OU SANTA?
“Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa”.
São versos de Adélia Prado, retirados do poema A Serenata. Narra a inquietude de uma mulher que imagina que mais cedo ou mais tarde um homem virá arrebatá-la, logo ela que está envelhecendo e está tomada pela indecisão - não sabe como receber um novo amor não dispondo mais de juventude. E encerra: “De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?”
Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher buscar uma definição exata para si mesma, estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada onde encontrou alegrias e desilusões, e tendo ainda mais estrada pela frente? Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desilusões - e a gente sabe como as desilusões devastam - terá que ser meio doida. Se preferir se abster de emoções fortes e apaziguar seu coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?
Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa.. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe??? Nem ela, caríssimos, nem ela.
Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais. Santa mesmo, só Nossa Senhora, mas cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou? (não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do).
Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar 'the big one', aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo? Mas, além disso,temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio-pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar uma cafetina, sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada,dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante.Pois então. Também é louca. E fascina a todos.
Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseja mais nada? Você vai concordar comigo: só sendo louca de pedra.'
Martha Medeiros
A SERENATA
Adélia Prado
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natal como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
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Ailin Aleixo
Durante muito tempo acreditei que o que me fazia amar um homem era a inteligência. Ficava enfeitiçada com citações, elucubrações e teses. Mas não era. De nada adianta um perito em física nuclear, se ele não rir das pequenas besteiras que faz, se não souber aproveitar um sábado quente simplesmente não fazendo nada (e curtindo o ócio), se virar um psicopata quando alguém o fecha no trânsito. Então saquei: bom humor era o que mais me atraía.
Sempre achei delicioso estar com alguém que não vê o mundo como uma grande e monstruosa boca cheia de dentes prestes a mastigá-lo, que vive sem arrastar correntes, faz de tudo uma possível piada. Só que nem tudo é uma piada e, em certas horas, tudo o que quero é alguém que me escute e diga algo que me conforte a alma. E, nesses momentos, o pior que pode acontecer é ser levada na piada - existe uma grande diferença entre alegria de viver e recusa a sair da infância. Pois é, não era bom humor o que me fazia amar alguém: era, antes, sensibilidade.
Telefonemas de bom-dia, atenção a informações aparentemente banais mas que dizem muito a meu respeito, não ficar azedo e arredio por causa das minhas pequenas (ou grandes) oscilações de humor - tudo o que eu podia querer. Quase tudo. Tenho personalidade forte e só sobrevive ao meu lado um homem que grite comigo quando eu passar dos limites do bom senso, demonstre desagrado quando eu exigir demais e oferecer de menos. Preciso ser cuidada, mas tenho que sentir que quem está comigo é um homem de verdade e não um principezinho criado pela avó. Quero ser domada, tomada. Mais uma vez minha certeza caiu por terra: nem inteligência, bom humor ou sensibilidade eram o que me fazia amar alguém. Era - isso, sim - virilidade.
Mal abrir a porta da sala e ser consumida por beijos. Ter a roupa arrancada no caminho da cozinha, ser jogada na mesa de jantar sem tempo pra pensar no que está acontecendo, só sentir e saber o tesão incontido daquele homem por mim. Ser desejada com urgência e paixão é um dos maiores elogios que uma mulher pode receber, mas só ser desejada de nada adianta, pelo menos não depois da décima trepada monumental: quando acaba o suadouro, o que resta? Se pouco importa o saldo, o que interessa mesmo é a movimentação, então estamos feitos. Mas, se existe a possibilidade de ser esmagada pelo vazio de sentido após o orgasmo, de nada vale. Pelo menos se não vier acompanhada de carinho. Taí: pensei, então, que carinho era a pedra fundamental pra despertar meu amor.
Mas logo descobri que não era. Carinho é um sentimento abrangente demais: nos invade desde a visão de um cachorro abandonado até a palavra confortadora para alguém que pouco nos importa mas a quem também não queremos mal. Não bastava, era muito pouco. Daí constatei que o essencial para que eu amasse alguém era notar no outro a vontade de ficar, o desejo de estar comigo. Constatei coisas demais e fiquei paralisada diante do ideal que havia criado: absurdo e fictício.
Hoje sei que toda enumeração é uma estupidez e qualquer tipo de formulário emocional, uma passagem sem escalas pra frustração. Claro que gosto de homens cultos, atenciosos, interessantes, divertidos e viris - seria mentira negar. Mas a verdade é que, para que eu ame alguém, basta que eu ame alguém. Porque, quando se precisa justificar o amor, é porque ele não existe. Simples assim.
Coisa tua
(Alice Ruiz)
assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa tua
quarta-feira, 16 de março de 2011
"Deus me livre de ser feliz.
Existem coisas mais sérias que a felicidade. Algum sabichão por aí vai dizer, sentindo-se inteligentinho: "Existem várias formas de felicidade!". E o colunista dirá: "Sou filósofo, cara. Conheço esse blá-blá-blá de que existem vários tipos de felicidade, mas hoje não estou a fim".
Um bom teste para saber se o que você está aprendendo vale a pena é ver se o conteúdo em questão visa te deixar feliz.
Se for o caso e você tiver uns 40 anos de idade, você corre o risco de sair do "curso" engatinhando como um bebê fora do prazo de validade. A mania da felicidade nos deixa retardados.
Querer ser feliz é uma praga. Quando queremos ser felizes sempre ficamos com cara de bobo. Preste atenção da próxima vez que vir alguém querendo ser feliz.
Mas hoje em dia todo mundo quer deixar todo mundo feliz porque agradar é, agora, um conceito "científico". Quem não agrada, não vende, assim como maçãs caem da árvore devido à lei de Newton.
Mas eu, talvez por causa de algum trauma (fiz análise por 20 anos e acho que Freud acertou em tudo o que disse), não quero agradar ninguém.
Não considero isso uma "vantagem moral", mas uma espécie de vício. Claro, por isso tenho poucos amigos. Mas, como dizem por aí, se você tiver muitos amigos, ou você é superficial, ou eles são, ou os dois.
Quanto aos meus alunos e leitores, esses eu nunca penso em deixar felizes, graças a Deus.
Desejo para eles uma vida atribulada, conflitos infernais com as famílias, dúvidas terríveis quanto a se vale a pena ou não ter filhos e casar.
Desejo que, caso optem por não ter família, experimentem a mais dura solidão da existência humana, porque, no fundo, não passam de egoístas. Mas se tiverem família, desejo que percebam como os filhos cada vez mais são egoístas porque querem ser felizes e livres.
Desejo para eles pressões violentas no mercado de trabalho. E jantares à meia-noite diante de um trabalho que não pode ficar para amanhã porque querem viajar e ter grana para gastar.
Quem quiser ser livre, que aguente a insegurança da liberdade. Quem for covarde e optar por uma vida miseravelmente cotidiana que veja um dia sua filha jogar na sua cara que você foi um covarde.
Especialmente, desejo um futuro cruel para quem acredita que "ser uma pessoa de bem" a protege de ser infiel, infeliz, abandonada e invejosa.
Espero que um dia descubram que, sim, eles têm um preço (apenas desejo que seja um preço alto) e que se vendam.
Espero que percebam que seus pais não foram santos e parem com essa coisa de gente brega de classe média que tenta inventar uma "tradição ética familiar" que só engana bobo.
E por que digo isso? Porque hoje todos nós estamos um tanto infantilizados e só queremos que nos digam o que achamos legal.
O resultado é uma massa de obviedades. A tendência é transformar o pensamento público em autoajuda ou em "compromisso com um mundo melhor", o que é a mesma coisa.
Quem quer agradar é, no fundo, um frouxo. Vejamos alguns exemplos do produto "querer ser feliz". Comecemos por quem acha que o seu "querer ser feliz" é superior e espiritualizado.
Talvez você queira virar luz quando morrer porque ser luz é legal (risadas). Deus me livre de querer virar luz quando morrer. Prefiro as trevas.
Se for para continuar vivendo depois de morto, prefiro viver no "meu elemento", as trevas, porque sou cego como um morcego.
Normalmente, quem quer virar luz quando morrer é gente feia ou magra demais. Mulheres bonitas vão para o inferno, logo...
E gente que acha que frango tem mãe (só porque ele "descende" do ovo de uma galinha, e ela de outro...) e por isso é crime matá-los? Trata-se de uma nova forma de compromisso com a "felicidade social e política".
Entre esses "felizes que desejam a felicidade para os frangos" existem pessoas de 40 anos com cérebro de dez e pessoas de dez anos que um dia terão 40, mas com o mesmo cérebro de dez. Não creio que mudem.
Hoje é Carnaval. Espero que você não tenha pegado aquele trânsito idiota de cinco horas para ser feliz na praia.
ponde.folha@uol.com.br
sexta-feira, 11 de março de 2011
Dia de Trabalho

Eu sabia que não era. Mas tinha mandados a cumprir ali, e a área era perigosa. Peguei um hipoglós e dei àquela pobre mulher, na tentativa de aliviar a minha própria consciência. Segui em frente e encontrei a casa da moradora que eu deveria intimar para uma audiência no Juizado Criminal. Ela não sabia o que era intimação, o que era audiência, tampouco em que consiste um processo. Mas sabia que sua vizinha tinha prestado queixa em virtude de uma discussão entre as duas. Quando entrei na casa para que ela assinasse o mandado, estavam duas crianças perto de um gato, e os três estavam sentados na lama. Havia chovido e a casa era de chão batido. Na hora pensei naquele poema-"O bicho, Meu Deus, era um homem".
Sorri para aquelas pequenas criaturas, agradeci à pobre senhora que não sabia que xingar a vizinha de "amarrada" era crime, pulei na ponte de taipa, dei adeus à avó com sua neta nos braços, e saí dali cheia de sentimentos contraditórios. Já estou nesta profissão há dois anos, mas não consigo me acostumar a ver a Justiça ir nos becos pobres em busca de xingamentos e não vê-la seguindo o mesmo caminho para fazer com que um esgoto seja tratado. Não consigo entrar em uma casa de taipa para cobrar uma dívida de R$63,00 e ver milhões e milhões sonegados, desviados, usurpados sem que ninguém possa intervir, sob alegação de que existe um "devido processo legal" e até que provem o contrário, todos são inocentes. Para os pobres, até que eles provem o contrário, eles já nasceram culpados.
Pensei em como partir para outra profissão durante todo o resto da manhã e não consegui trabalhar direito. Fui na igreja do Pina (o bairro onde eu estava) e lá, inacreditavelmente, havia uma brisa suave, como um refúgio de paz. Silêncio no meio da cidade latejante, flores rosas e brancas no meio da favela cheia de lixo. Senti a presença forte de Deus ali. Fechei os olhos e chorei, como se cobrasse alguma explicação d´Ele, afinal, de quem foi a invenção de criar tudo isso? Não sei, mas não me veio nenhuma explicação. Não ouvi dos céus uma justificativa que me fizesse seguir em frente. Mas olhei para o meu Pai- terreno, Seu Renato :), que me acompanhou hoje- e senti um amor imenso por ele. Mesmo ele tendo me feito para grandes coisas, e que talvez não se orgulhe tanto do que eu me tornei (eu podia ser bem melhor, convenhamos), tenho certeza de que ele me ama.
E tenho mais certeza ainda de que eu fui uma presença de paz para as pessoas com quem conversei nesta manhã. Tranquilizei todas elas em dizer que a "Justiça" não era necessariamente
temerosa e má. Que o Juiz iria fazer a coisa certa e fazer as pazes de quem tinha brigado( pelo menos, é o meu desejo de que seja assim que aconteça). Uma das ' intimadas' daquela manhã sorriu quando lhe expliquei como era uma audiência preliminar,respirou de alívio em não ser presa e me abraçou.
Por um momento, exatamente naquele momento, se meu pai estivesse vendo, sentiria orgulho de mim e teria a certeza de que valeu à pena ter me posto no mundo. E como se Deus tivesse respondido a todas as minhas perguntas, eu parei de chorar, sorri pro meu pai e dei um beijo na cabeça dele, já quase sem cabelos, com a estranha sensação de que por trás de tudo isso há um grande propósito, que vale uma vida inteira de investigação, quem sabe.

quarta-feira, 9 de março de 2011
Carnaval de quem?

Mas, língua é feita pra se morder e lá estava eu, no meio do povo, espremida até a última gota de suor no Marco Zero, no Recife, tendo ido em uma excursão que saiu de João Pessoa na qual os "teenagers" do ônibus éramos nós, beirando os 30. Lá, enquanto eu ziguezagueava pelo mar de gente, avistei um espaço grande, quase vazio, perto do palco. Perguntei a Elias: "Por que ninguém está ali?????" Como se eu tivesse descoberto um oásis que só os esperançosos(ou desesperados) conseguem ver. E ele respondeu: "É a área VIP".
Bom, eu não fui até ali para ver a Vanessa da Mata cantar e simplesmente não vê-la. Nós tínhamos pulseiras da excursão e lá fomos nós, bancar os impostores e tentar entrar na área exclusiva para pessoas especiais (mui especiais!). Conseguimos ou não? Com uma pulseira que nos diferenciava de reles mortais? Claro que sim! =D
Mas nossa pulseira era branca e as dos realmente especiais era rosa, e isso foi o meu grande temor durante todas as horas em que experimentei ser da elite: já pensou o segurança me arrastar e me jogar de novo na multidão? Não era a vergonha de ver os VIP´S me olhando com desprezo, mas sim o medo dos "não-VIP´S" me rejeitarem. "Eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém", e tive vergonha de mim mesma em não aceitar isso. Lá, me senti parte de uma exclusão paralisante, que me fazia ter uma visão clara do nosso abismo social. De um lado, a multidão espremida, com fãs de Vanessa da Mata quase tendo a metade inferior do corpo consumida pelas grades de ferro. De outro (o que eu estava?!!), várias mulheres com corpo sarado, homens com cara de rico, fotógrafos, produtores, e mais algumas pessoas com cara de quem não sabia quem ia tocar , mas que isso pouco importava.
Confesso que não consegui entender minha própria categoria. Mas preferi me sentir uma impostora, igual ao cara do 'Pânico na tv'. Só que a minha "missão" era um pouco mais nobre, porque eu sou fã da Vanessa. E quando ela surgiu no palco, confesso que amei estar ali, naquele lugar privilegiado e ser a única daquele espaço que sabia todas as letras das músicas do show.

Assim que ela foi embora, eu também fui. Tinha Lenine ainda na minha frente, mas não consegui perpetuar aquela sensação de quem está presa em um lugar que não lhe pertence. Voltei pra multidão feliz, e fui comer um churrasquinho de gato. E a farofa tinha um gosto "bom e aliviado", como diria a música...