
Eu sempre gostei muito do meu aniversário. Chegava novembro e eu começava a contagem regressiva: "faltam 21 dias...faltam 10 dias...faltam 2 dias...". Confesso que até meu aniversário de 25 anos, eu agia assim. Não sei se foi o fato de eu ter entrado na minha "quarterlife crisis" (crise dos 25), se estou ficando adulta ou se apenas virei um porre de pessoa, mas o fato é que o dia 22 de novembro tem um sentido diferente pra mim hoje. Diferente, não ruim.
Fui cumprir meus mandados nas favelas do Recife. Vou de sandália de dedo e blusa solta. Me sinto mais leve. Quando entro na comunidade, falo de forma simples, experimento uva verde na feira, cumprimento os intimados e saio de lá dizendo: "-Não deixe de ir pra audiência não, porque aí o juiz vê que isso é bronca safada e acaba logo tudo." Nas minhas certidões, não me limito a dizer " intimei fulano de tal" e além disso, emendo: "Faz-se mister que a situação de insalubridade que afeta a família seja levado ao conhecimento do Ministério Público" ou "as crianças estão submetidas à indigência extrema...". As minhas certidões mais parecem um relatório social.
Mais recentemente, quis incluir em uma certidão toda minha fúria de ter sido informada pela mãe do intimado, que o mesmo estava no presídio de segurança máxima do Recife por tentativa de furto, há mais de dez meses. Não acreditei e ela me mostrou os documentos que comprovavam o que ela dizia. O rapaz ficou com o celular da vizinha na mão e disse "perdeu! é meu agora", a vizinha não levou na brincadeira e gritou para a Polícia que passava no local: "prende ele, tá tentando me roubar!". Os policiais colocaram o rapaz de 18 anos no camburão e roubaram sua história. Preparei um habeas corpus na hora, do jeito mais amador e mais sincero que pude, mandei ela assinar e interpor junto ao Juizado.
Saí de lá enfurecida por me lembrar que um assassino fdp como Pimenta Neves, que matou a Sandra Gomide friamente, está livre e solto, mesmo sido condenado. Por lembrar que só os advogados bem remunerados detém o monopólio do saber Direito, enquanto os Defensores Públicos mau pagos (ou não) acumulam mil processos em cada dedo da mão e muitas vezes nem sabem o que fazer em cada um.
Saindo de Brasília Teimosa, fiquei observando toda aquela gente, e misturada à raiva,à tristeza, e à compaixão que sentia naquele momento, vi um caminhão de gás passar e com a travessia, banhar um menininho de lama, diante da estreitura do beco pelo qual passava. O menino, que não devia ter mais de seis anos, banhado de água preta, olhou pra mim e disse: "é foda, né?" e começamos a rir. A felicidade nos cumprimentou e ficou ali em nós por um bom tempo, até nos desperdimos.
Segui meu caminho com um sorriso discreto no rosto e um bem mais largo na alma, tendo a certeza de que a gente decide o que permanece em nós. Me senti comemorando por eu estar viva sem ter de esperar o 22 de novembro atestar isso.
Lembrei da Alice no País das Maravilhas, que comemora, com o Chapeleiro Maluco, o seu desaniversário e ganha um bolo. Ele pede pra Alice calcular o número de desaniversários em um ano e sugere que mais valem 364 desaniversários que 01 aniversário só.
E aqui vou eu, comemorando mais 363 desaniversários e esperando que depois do dia 22, eu ainda tenha muitos desaniversários a comemorar.