domingo, 17 de maio de 2009

Sobre o amor e outras histórias.


Eu sei que eu devia escrever um post sobre a viagem que fiz, que me rendeu fotos e lembranças lindas, e eu ia fazer isso mesmo, como tinha até falado para a Chris, mas eu sinto que é até mesmo um dever falar um pouco do que ando percebendo nos últimos dias. Concluí hoje, depois de conversar com Cami:

"Nós estamos perdendo a capacidade de amar."

E isso é perigoso. Quase cruel.

Percebi isso quando terminei o maravilhoso "A menina que roubava livros" (presente de Vanusa, obg amiga!). Chorei do meio ao fim do livro, diante do terror da guerra e do holocausto. Ainda sob efeito do livro, pensei no legado deixado não apenas por Auschiwitz ,Hiroshima, Vietnã, Afeganistão e tantos outros. Pensei mais perto, no que a gente anda fazendo pra disseminar tanta coisa ruim no mundo e sufocar bons sentimentos. E todo esse ódio mundial começa com falta de amor. Simplista e piegas? Pode ser. E é justamente isso que "deve" ser. Temos que voltar à pieguice, pelo bem da humanidade.

Já me explico.
Há algum tempo atrás, diante de uma desilusão amorosa qualquer, fui seduzida a adotar a personalidade do "tô nem aí". Cortei cabelo- como sempre acontece com as mulheres- malhei, estudei, consegui emprego, e como dizem "dei a volta por cima"( essa história inclusive é letra de uma música brega...). Lembro que eu dizia: "De hoje em diante, vou agir como homem". Tentei, em vão, dispensar sentimentos, e tentei também tornar pessoas descartáveis. Mas o plano durou pouco, quem sabe um final-de-semana, e desisti. Vi que eu não era aquilo. Para mascarar a dor, eu me mascarei. E como a gente sabe, as máscaras sempre caem.Preferi voltar a ser eu mesma, mas ainda brinco em dizer que toda mulher apaixonada vira "mulherzinha". Mas não há nada de pejorativo nisso. Devíamos querer ser mulherzinhas. Hoje muitas mulheres perderam a capacidade de se ver de verdade, de acreditar que podem e devem ser cultivadas como flores que precisam de cuidado. Para não ficar por baixo, decidiram agir como homens (como eu mesma me incluí) , e como geralmente mulher tem um requinte a mais, algumas tornaram-se uma espécie bem pior que homens cafajestes.

Lembro que quando eu era criança, a palavra "depravação" me soava como algo transcendental e longíquo, algo como Sodoma e Gomorra. Hoje, depravação é sinônimo de normalidade. Enquanto eu trabalhava em Recife, vi dois casais sentados em uma praça. Não ia prestar atenção se não fosse os quatro adolescentes trocarem de casal por pelo menos duas vezes apenas enquanto eu atravessava a praça. As duas meninas se beijavam e se pegavam enquanto os rapazes riam. Depois, cada uma delas se enroscou com um dos meninos, e trocavam de boca freneticamente, como se tudo aquilo fosse "normal". Eu parei e me assustei. A mulher que passava ao meu lado notou e disse:"isso é todo dia".

Eu continuo assustada. E não aquele susto de puritanismo, é susto real. De ter medo do futuro, feito por uma geração que foi concebida em um mundo em que os valores viraram piada. Li uma crônica do Ariano Suassuna falando das pseudo-músicas de forró que despontam no topo das paradas musicais,e que podem exemplificar bem o que tento dizer nesse post.
As músicas? "Mulher Roleira", "Dinheiro na Mão, Calcinha no chão", "Fiel à Putaria"...

Lembro que, na minha adolescência, enquanto eu sonhava com um príncipe encantado e escrevia em diários, eu experimentava sentimentos. E isso não faz tanto tempo assim. Hoje os adolescentes experimentam pessoas.

E vejo que por esse tempo, homens e mulheres procuram-se, acham-se, usam-se e descartam-se. O amor virou balela. Amar gratuitamente é sinônimo de submissão. E gente sem amor, constrói mundo sem amor. E mundo sem amor vira inferno. E é nesse inferno que todos nós nos queimaremos.

O sexo passou a ser o começo, o meio e o fim, e geralmente vem sozinho, sem relacionamento para atrapalhar. Porque a gente se acostumou a tudo que é fácil e rápido. Ninguém tem mais paciência de discutir relação, de ouvir o outro, de construir as bases. Parecemos uma manada desorientada que tem o mínimo de tempo para mostrar o máximo que temos. Daí explica-se a busca incessante por uma aparência melhor que a essência. Ninguém tem mais tempo de descobrir essência,de olhar a segunda vez. A gente se acostuma a não exigir nada disso, por medo da solidão. Simplesmente porque existem por aí milhares de pessoas que estão no mesmo (descom) passo apressado e aceitam relações fast-food. E ninguém quer ficar sozinho. Temos que entrar no ritmo. E depois, o que sobra é o vazio. E o vazio vai se difundindo,crescendo, tomando conta dos corações que não conhecem o famigerado amor.
Quando escuto em um rádio uma letra como "tapa na cara, puxão no cabelo", desligo o som(?) e fico pensando em onde foram parar aquelas músicas que para falar de sexo, usavam entrelinhas, como aquela de Roberto Carlos:

Estrelas mudam de lugar
Chegam mais perto só pra ver
E ainda brilham de manhã
Depois do nosso adormecer
E na grandeza desse instante

O amor cavalga sem saber
Que na beleza dessa hora
O sol espera pra nascer


Eu confesso que ando assustada com a falta de amor. Fico lembrando da famosa carta de São Paulo aos Coríntios, quando ele fala que o amor é gratuito. E a gente se acostumou a achar que "nada nessa vida é de graça", como diria o Zeca Baleiro, "nem o pão, nem a cachaça". Mas eu gostaria de acreditar de novo, que a gente pode fazer um caminho só de ida em matéria de amor.

Eu sei que é difícil a gente dispensar a reciprocidade,mas às vezes,é a melhor maneira de sermos melhores. Fico pensando nas vezes que consigo amar sem querer ser amada, e só me resta pouca coisa. E é nisso que a gente deve prestar atenção. Porque se eu amo desejando ser amado, caso eu não seja, vou transformar amor em ódio, o reverso da moeda. E de ódio, o mundo anda bastante satisfeito.

Para evitar tudo isso, e sabendo das limitações que temos, gostaria de pedir a todos vocês, de manter a guarda neste assunto. Não usar, não descartar, não marcar de forma negativa a vida de ninguém. Tentar olhar o outro com alguém que merece amor e respeito, que tem uma história e um coração. Acho que a gente tem o dever de tornar este bendito mundo um lugar melhor, e falo isso sem caretice nenhuma. É que ando cansada de amar de forma limitada,de não amar, de entrar na onda da reciprocidade ou nada. Não. Vamos parar de querer tanto, de desejar tanto, de sermos tão carentes, tão individuais,tão indiferentes. Comecemos um movimento de amor. E daqui a pouco, estaremos cantando como o Ivan Lins:


"O amor tem feito coisas que até mesmo Deus duvida..."

6 comentários:

Camila disse...

Sem comentários! Uma verdade ... que podemos mudar... fundamental é ter noção disso e querer mudar! Sejamos a mudança desse mundo...

Beijo!
E não desista dos seus sonhos...

Déborah Amaral disse...

Perfeito VIVI!!!!Irreparável sua crônica!!! Bom conversar com vc, viu??? Bjs

Ana Cecília disse...

Oi Viviane!!!

E o choro me tranca a garganta...
Lindo demais!

Bjos!

camila lavor disse...

carácolis amiga!!! vc consegue expressar em palavras...
acho que tb to nesse (descom) passo :(
bjosssssss

Luana Magalle disse...

E como é difícil mudar...inda bem que tenho vc por perto!

Parabéns, mais uma vez, pela sensibilidade!

Beijos

Bel Ximenes disse...

Vivi, suas palavras me levam a constatar o seguinte: somos "estranhos" nesse mundo vergonhosamente chamado de "normal". Por isso, somos responsaveis em expressar e fazer a diferença. Fico feliz em saber que você está usando esse blog para difundir ideias e ideais tão preciosos. Sou sua fã e voce nem sabe disso! Ouço sempre suas histórias e fico impressionada com a forma com que voce, ainda tão jovem, encara o mundo!Parabens! Que Deus a abençoe grandemente e que suas palavras possam atravessar fronteiras inimgináveis neste nosso "mundo anormal"!Beijos.
P.S. Caso não lembre de meu nome, sou amiga e trablho com seu cunhado Alexandre.