sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

É preciso saber o que nos faz verdadeiramente bem. Hoje eu tenho tudo aquilo que um dia julguei essencial para ser feliz. Besteira. Nada do que a gente possa vir a ter ou até mesmo as pessoas com quem estamos dispostos a conviver irão nos trazer aquilo que nos falta. O vazio que cada um de nós experimenta ao se deparar com a realização dos sonhos é simplesmente uma pista que nos mostra a fragilidade dos nossos anseios. Descubro aos poucos que a felicidade é como uma obra de arte, que requer o lapidamento estrito, nem mais, nem menos. É preciso lutar, todos os dias, para que o sentido das coisas persista à nossa frente, correndo o risco de viver no piloto automático sem ter o direito de olhar ao redor.
Eu ando descobrindo que nosso estado de espírito não guarda muita relação com ter desejos satisfeitos. Prometo não querer mais um cargo, nem contribuir tanto para a sociedade, nem ter sonhos do tipo "Che" ou "Olga". Eu acho que hoje eu só posso querer ser uma pessoa melhor que ontem, descobrindo o que há por trás das coisas tangíveis, dando um sentido maior e mais profundo para a vida.

Raul Seixas consegue explicar melhor...

Ouro de Tolo
Raul Seixas
Composição: Raul Seixas


Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...

Ah!Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...
Ah!Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

2 comentários:

Camila disse...

amiga...

Raul falou e disse, vc idem!

Precisamos conversar mais...

Beijos!

Poliana disse...

a gnt nunca está satifeito com o que tem...
mas descobrir que a simplicidade faz bem e feliz e bom...
enfim...