quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

La Mar


A LAGOA

Em um lugarejo perto de Campina, existia uma lagoa pequena e profunda. Vivia feliz, sempre límpida, transparente, todo mundo sabia o que se passava dentro dela. Seus amigos pássaros gostavam de banhar-se no frescor de suas águas e mesmo nos dias de tempestades, a lagoa sempre dava um jeito de fazer com que aquelas águas viessem a lhe acrescentar, tornando-a cada vez mais volumosa, consistente.
Era feliz, embora um tanto acomodada com a bucólica vida que levava.

O SAL

O Sal era um condimento indispensável, sempre presente nas mais variadas cozinhas, da francesa à brasileira, passando pela italiana, finlandesa, e tantas outras. Gostava de se doar pouco, e era tão famoso esse seu jeito de ser que tinha até nome: "pitada de sal". Um pouco aqui, outro ali, o Sal ia passeando por todos os lugares sem que seu verdadeiro sabor fosse descoberto. Ele mesmo se escondia, achando que se aumentasse a medida, descobririam que ele era salgado demais e isso seria o fim.
Desta forma, o Sal seguia adiante.

O ENCONTRO

Seguindo seu caminho solitário, o Sal já não sabia mais que destino tomar. Cansado, foi em busca de sombra e encontrou, de repente, o famigerado lugarejo, no qual avistou a Lagoa. Investigou aquele lugar com um ar desconfiado, como se aquela paisagem estivesse muito aquém de todas as maravilhas que já havia visitado. No entanto, algo chamou atenção naquela pequena Lagoa: ele podia se ver nela. Achou estranho, porque quanto mais se aproximava, mais se descobria, nunca havia se visto assim, tão de perto e tão claramente e isso, no começo, o assustou.
Assustada também estava a Lagoa, nunca havia conhecido aquele punhado branco de grãos fininhos, tão suave e ao mesmo tempo tão sólido. Cada vez que ele se aproximava dela, trazia um gosto diferente, que ela jamais havia sentido. Achou estranho, mas instigante e decidiu puxar papo, afinal tinha ouvido há pouco a música da Rita Lee: "Um belo dia resolvi mudar...e fazer tudo que eu queria fazer..."

O tempo foi aproximando o Sal da Lagoa e vice-versa. Entre os dois, havia uma certa alquimia que fazia a mistura ser mais saborosa a cada aproximação. Mas misturar algo nem sempre é fácil. É preciso achar o ponto certo, não pôr tanto Sal uma única vez, tampouco a Lagoa jogar sua intensa água sobre o Sal, isso poderia destruir sua essência.

O Sal notou que estava se dissolvendo, no mesmo dia em que a Lagoa sentiu que estava salgada demais. Brigaram. Jogaram a culpa na doação de cada um, sempre ínfima, no dizer dos dois. A Lagoa se desesperava a cada terceira margem que se abria entre suas fendas, estava se distanciando do seu lugar, indo cada vez mais longe, a cada vez que o Sal se dissolvia em suas águas. Sofreram e brigaram muitas vezes, até chegar um distinto Senhor perto dos dois. Ele se dizia pescador de homens, embora o Sal e a Lagoa não soubessem o que isso significava.

O Pescador então explicou para aqueles o porquê de estar ali: os dois deviam saber que, ao se aproximarem, não deixaram de ser Lagoa ou Sal, mas juntaram suas essências e para isso haviam sido criados. Suas dimensões eram muito maiores que poderiam imaginar e juntos, se transformavam, seguindo seu curso. O Sal não havia perdido sua essência, ao contrário, percebeu-a e tomou parte dela, em uma dimensão muito maior e mais verdadeira. Podia agorar se dissolver por inteiro, sabendo que em cada grão que dissolvia, multiplicava-se. A Lagoa se estendeu, percebendo que seu interior continha muito mais água que poderia imaginar, alargou suas margens, e quanto mais se misturava ao Sal, mais progredia em suas dimensões.

De repente, os dois se descobriam "colossalmente ligados, unidos, mitigando a secura do mundo", descobrindo, enfim, o que verdadeiramente eram: Um MAR.

3 comentários:

grabois disse...

Bravo!! vc escreve bem demais... Ô vida de concurseiro indigna, come-te a ti mesma!

deynaleao disse...

Que lagoa + sal sejam sempre mar, nunca lágrima. Amei o texto. Agora, li com mais calma. Beijo.

Luana Magalle disse...

Lindo texto! =D
Beijos