quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Das coisas do Amor
Ela põe um sabonete novo no banheiro
ele prepara uma carne costurada com palitos
Os pais se seguram na mão enquanto o bebê dorme
O cansaço entrelaça os dois
A professora alisa o caderno encapado colorido
O aluno capricha na letra
A avó faz um leite com canela
O neto dá beijo de boa-noite
O irmão ajuda a levantar da queda
A caçula se enche de orgulho
O namorado ri com a piada
Ela se deixa abraçar e retribui o sorriso
O amigo divulga o talento do outro
E esse agradece com amizade
A mãe chora de alegria
O pai sente saudades e liga
A tia compra roupa de super-herói
O sobrinho faz um desenho
A criança sobe no joelho e dá um beijo
O adulto se desconcerta e abraça
São tantos gestos invisíveis,
Tantas palavras não-ditas,
Sentimento fica escondido
Só aparece quando acaba.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Próxima Parada...
Ontem um ex namorado de uma amiga minha veio falar comigo por acaso e mesmo casado e com filho, perguntou por ela com uma ponta (de um iceberg?) de saudade no ar. Assistindo a novela hoje (admito sim, mas vejo porque sou refém do talento do Mateus Solano), vi uma cena em que o antigo namorado da protagonista quer viver novamente o romance passado, exigindo que sua amada devolvesse a ele a parte que lhe fazia falta. Ela argumenta que não dá mais, que já faz muito tempo e eles são outras pessoas...
Fico pensando nos rompimentos e nas saudades que a gente vive na vida. É preciso seguir em frente, dizem. Mas para quem ainda ama, é como se o tempo não passasse. Ou melhor, o tempo passa, mas continuamos na mesma "estação", como diria a música maravilhosa da Adriana Calcanhotto. Aliás, essa música é uma poesia completa:
"Você entrou no trem e eu na estação, vendo um céu fugir... Também não dava mais para tentar lhe convencer a não partir...e agora? Tudo bem... Você partiu para ver outras paisagens e o meu coração embora finja fazer mil viagens, fica batendo parado naquela estação..."
Quem continua amando aquele que "embarcou no trem para ver outras paisagens", fica parado, em 'stand-by', na mesma estação até que o amor se vá junto com o outro. Mas o amor às vezes permanece na mesma estação, 'embora finja' fazer outras moradas. Triste isso. Mais triste ainda é quando o amor se vai com o trem, e o casal continua parado na mesma estação. Não há mais para onde ir, mas por alguma razão, eles permanecem ali, talvez esperando que um trem os atropelem.
Ninguém está a salvo de ver "um céu fugir", de ver planos desfazerem-se num piscar de olhos, e quando isso acontece, acredito que é preciso viver essa dor, organizar o luto, aprontar as malas de lembranças e finalmente, esperar até que um outro trem surja, inundado de perspectivas e esperanças. Algumas vezes esse trem vem logo, outras vezes a espera é bem demorada. Na maioria das vezes, o que acontece é conseguirmos ir apenas de uma estação para outra, em pequenos trajetos de ônibus, de táxi, de carona... são esses pequenos passos que vão nos devolvendo a capacidade de ver que o caminho continua. Mas os tempos, as estações e os bilhetes que compramos são diferentes demais para cada um de nós.
Tem gente que, assim que desembarca em outra estação, esquece logo do companheiro de viagem que ficou para trás, outros os levam no coração mesmo que sejam andarilhos, há outros que só guardam os bilhetes de poucos trens, e há ainda aqueles cujas malas de lembranças são até maiores que suas próprias andanças.
Eu já estive em algumas estações. Parei por muito tempo em algumas, fui ver outras paisagens outras vezes, mas sempre tive a certeza de que cada tempo é importante para moldarmos o tipo de companheiro de viagem que nos tornamos. Creio que a beleza da nossa trajetória não se mede pelo destino que tomamos a partir de cada escolha do bilhete...mas pelo que deixamos na bagagem do outro. Talvez pensar assim torne até a música mais bonita: mesmo que o outro se vá e eu fique ou vice-versa, sabemos que somos bagagem que não pesa um no outro. Bagagem que pesa é mágoa, ressentimento. Lembrança que vale a pena levar na mala são aquelas que nos fazem voltar por um instante ao lugar que um dia fomos felizes.
Tudo isto me lembra um trecho do livro do Érico Veríssimo em que ele diz:
"Como podia uma criatura de alma limpa andar pelos caminhos da vida? Lembrou-se das palavras de Olívia em uma de suas cartas: "Tu uma vez comparaste a vida a um transatlântico e te perguntaste a ti mesmo: ‘Estarei fazendo uma viagem agradável?’. Mas eu te asseguro que o mais decente seria perguntar: ‘Estarei sendo um bom companheiro de viagem?’".
Talvez seja exatamente essa a pergunta que deveríamos fazer, todos os dias. Independente da 'estação'. ;)
quarta-feira, 26 de junho de 2013
"Tu não morrerás"
Quarta-Feira talvez seja o dia das (e dos) donas(os)-de-casa no supermercado. É quando as coisas começam a faltar já no fim-de-semana, e o próximo domingo já se aproxima, fazendo com que uma grande parte dessas pessoas lotem os caixas. Digo isso porque costumo fazer o supermercado nesse dia e, mesmo que eu não pareça nenhum pouco com uma "dona-de-casa" tradicional (estou mais para uma personagem de Almodóvar, sempre " à beira de um ataque de nervos"), estou lá garimpando entre tomates e cenouras, boas histórias para ouvir. Ultimamente tenho ido com Levi, sempre rindo e conversando com todo mundo, e isso tem nos feito bem. Digo "nos" porque ele tem a oportunidade de ver outras pessoas e outros cenários, e eu adoro vê-lo descobrir o mundo...além de eu ter com quem conversar sobre o preço da carne, coisa inimaginável com meus amigos até bem pouco tempo atrás. Enfim, gosto de supermercado, de cozinhar, mas sobretudo, gosto de ouvir.
Hoje eu e Levi conhecemos a Dona Lourdes. Senhora de 82 anos que caminha e aperta bolinhas enquanto anda, porque a mão assim não entreva e ela tem artrite séria. Eu e Levi estávamos rindo um para o outro e ela apareceu para se juntar a nós. Disse que eu tinha ganho um grande presente da vida, e que eu iria agradecer muito por Deus ter confiado a missão de ser mãe. Concordei em tudo e com mais alguns minutos de conversa, Dona Lourdes me confidenciava da sua solidão com seus filhos já fora de casa, e alguns morando bem longe."Sinto muita falta do meu bisneto", disse com os olhos úmidos. Ficou com vergonha, deu um beijo no pé de Levi e sorriu pra mim. "Tchau, Bisa", imitei a voz de Levi e acenei.
Fiquei um tempo pensando naquela senhora que tinha a idade da minha avó, e senti uma saudade imensurável da minha. Liguei pra ela só pra escutar aquela voz antiga, que me acalenta só com um "alô". Falamos uns 3 minutos e eu já me sentia bem por ela ainda poder conversar comigo, quando tanta gente já não pode fazer isso. Perguntei quais os temperos ela usava para fazer guizado de carne, e lá estava ela me explicando tudo e se sentindo viva.
Então, Levi começou a se contorcer para "ir ao banheiro" e eu fiquei sem saber o que fazer direito, "como eu vou te trocar aqui no meio do povo, meu filho?", procurando um banheiro desesperadamente. Aí o Seu Antônio, um senhor que beirava uns 70 anos, percebeu minha conversa com meu bebê de 4 meses e sugeriu: "Eu fico tomando conta do seu carrinho enquanto você troca a fralda dele ali no restaurante. Tome esse saco para jogar a fralda suja..." Fiquei impressionada com a gentileza daquele senhor. Agradeci prontamente, fiz o que ele sugeriu e voltei logo, com Levi devidamente limpo. Não pude deixar de conversar com Seu Antônio e perguntar como ele sabia o que fazer sendo homem! "Ah, o que eu mais sinto falta nessa vida é de trocar fralda do meu filho de madrugada!". Começamos a rir e eu disse que ele tinha conquistado a vaga de babá de Levi terminantemente. "Tchau, Vô", Levi disse pela minha voz e sorriu largamente para seu Antônio, que retribuiu o sorriso, disse "Tchau, Levi, que nome lindo" e saiu contente.
Fiquei olhando para aquelas pessoas ali, catando verduras e alguém para conversar. Fiquei com dó do nosso tempo, em que a gente não se permite ouvir histórias, conversar com desconhecidos, confiar em ninguém. Tanta gente que só vai na feira para se sentir vivo, e não porque falta algum produto em casa. Vi muitos "Antônios" e "Lourdes" ali, perdidos em um passado onde filhos e netos existiam e estavam por perto, dando-lhes sentido para continuar a vida. Em meio a esta certa melancolia, me senti feliz com meu pequeno ali na frente e percebendo que aquele tempo estava sendo, efetivamente, bem vivido. A vida era aquilo. Nada mais e nada menos, só era aquele sorriso do meu guri que me fazia me sentir devidamente no meu lugar no mundo. Voltei feliz para casa, mesmo com Levi perdendo a paciência e dando espetáculo para voltar para a rotina dele. Tudo é bem cansativo e às vezes sinto como se eu nunca mais fosse ter vida própria, mas acho que é exatamente isso que eu aprendo dia após dia: vida própria é impróprio demais. Talvez a vida que valha a pena, seja aquela que vai além de nós mesmos. Não apenas pelas sementes que plantamos, pelos filhos que colocamos no mundo, pelo legado que deixamos. Vida que vale a pena é quando nos tornamos amor para alguém. Quando percebemos que nossa existência
nos faz eternos a partir do amor que compartilhamos, seja como pais ou filhos.
Quando vejo os avôs e bisavós que conheci hoje, percebo que é o amor pelos que estão longe ou perto que os mantém vivos, mesmo que seja pela saudade. É como o grande filósofo Gabriel Marcel escreveu uma vez sobre amar alguém: "É dizer-lhes ' Tu não morrerás! Venha o que vier, tu e eu permaneceremos juntos". Tal conceito não significa que as pessoas que se amam nunca vão se separar, é claro. Mas é uma segurança que temos, que iremos sim, sobreviver eternamente no coração daqueles que nos amam, e permaneceremos vivos enquanto amarmos alguém. É bom pensar assim. E é claro que quando se fala de amor, eu lembro da Adélia Prado, que fala tudo poeticamente:
"O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória, imperecível."
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