domingo, 30 de setembro de 2007

"Acasos"

A vida tá meio me levando, embora eu prefira quando eu mesma a levo. Por isso a ausência nesse blog. Estou repensando as escolhas, fazendo um "efeito borboleta" dentro da cabeça e pensando no monte de possibilidades que a vida nos oferece. Como diria Mário Prata, 'indecisão é quando você sabe exatamente o que quer, mas acha que deveria querer outra coisa". Na verdade, não me sinto indecisa, me sinto perdida mesmo! É que Deus às vezes é complicado demais de entender (ou eu sou ignorante o suficiente para não observar as respostas), e eu não sei direito o que Ele pretende fazer na minha vida. O que sei é que acredito piamente que Ele está me conduzindo e me dando pistas que se disfarçam de acasos. Como diria aquele pensador francês que não lembro o nome, "o acaso é o Deus dos idiotas", e eu não acredito nele.
Sexta-Feira, por exemplo, passei o dia resignada por não ir para o show de uma das minhas cantoras favoritas, Vanessa da Mata. Comecei a estudar e a sensação de incômodo foi tão grande que só desanuviou quando falei:"Tá bom, eu vou e pronto!". Pedi para minha mãe comprar o ingresso e horas depois...ela me liga, dizendo que os ingressos tinham acabado. Não tem jeito, parece que quanto mais difícil, mais me atrai e claro que, com essa informação, só peguei a chave do carro, do jeito que eu tava mesmo e fui atrás do bendito ingresso, só de pirraça, para mostrar ao destino quem é que estava no comando!
Quando cheguei lá, os ingressos ainda não tinham chegado e esperei, determinada no meu intuito inabalável. Essa força toda amoleceu quando vi um carro (bom,eu devia ter escrito com letra maiúscula...) se aproximar...e um produtor lá disse:"Ela chegou para passar o som".
Ãh???Como assim? Vanessa da Mata? Aqui? E eu aqui? Confesso que quem me visse nesta hora diria que eu estava rindo à tôa, mas na verdade eu sorria dizendo a Deus: "Ok, é vc mesmo quem manda"...
Dei um jeito e fui bater lá no camarim. Esperei um bocado e... bingo! Falei com ela, disse meu nome, minhas origens campinenses e minha admiração pelo trabalho dela (como se pôde perceber, eu fui bem original...). Tirei uma foto e fui 'enxerida' o bastante para pedir outra, porque a primeira tinha ficado escura...O produtor olhou pra mim e disse: "Vivianne,Vivianne...", como se eu estivesse abusando (alguma dúvida?). Horas e telefonemas (claro que eu tinha que contar pra meio mundo, senão, qual a graça?) mais tarde, cheguei no show, meio extasiada ainda pela colher-de-chá que o grandão lá de cima tinha me dado.
Confesso que o show foi menos do que eu previa, mas é aquela coisa da grande expectativa...melhor não criar imagens utópicas, claro. É preciso, como sempre, saborear as maravilhosas 'coincidências' da vida, que acontecem quando Deus resolve fazer pequenos milagres sem se mostrar tanto.
O melhor do show, foi, sem dúvida, essa música aí embaixo, de longe, uma das mais bonitas e significativas que já ouvi (baixem no e-mule, vale a pena!!!) :

Vanessa da Mata - Amado

Como pode ser gostar de alguém
E esse tal alguém não ser seu
Fico desejando nós gastando o mar
Pôr do Sol, postal, mais ninguém

Peço tanto a Deus
Para esquecer
Mas só de pedir me lembro
Minha linda flor
Meu jasmim será
Meus melhores beijos serão seus

Sinto que você é ligado a mim
Sempre que estou indo, volto atrás
Estou entregue a ponto de estar sempre só
Esperando um sim ou nunca mais

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer

Sinto absoluto o dom de existir,
não há solidão, nem pena
Nessa doação, milagres do amor
Sinto uma extensão divina

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer

Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

' Preta e Branco'

O Branco do Leite se aproximou da Preta do Café.Tava cansado da brancura de todo dia e perguntou:

-Preta, como eu faço pra ter essa tua cor?

A Preta respondeu:

-Não sei,Branco,nasci assim. Por quê?

-Tô enjoando dessa minha cor pálida...

-Óia como são as coisas. Tu reclamando de ser alvim. E eu toda no pretume,às vezes não dá nem pra notar que eu caprichei no açúcar ou que no outro dia,tô meio amarga. O escuro é sempre assim, intenso demais.

-Eu também sofro de intensidade. A brancura às vezes é tão clara que eu acabo sofrendo porque me sinto vulnerável. Tô tentando evitar e deixar minha superfície coalhar e virar nata, pra ver se eu consigo despistar minha verdadeira cor.

-Pra quê isso,Branco? Já vi dos teus ficarem com a nata tão acumulada que perderam a essência, deixaram de ser límpidos e alvos, para virarem um amarelo sem graça, como o Guido Manteiga, aquele pastoso do balcão, por exemplo. Ele era como você,bem branquinho, mas se endureceu tanto que deixou de ser o que era.

-Você tem razão,Preta..

(...)

-Tua cor é linda, Branquim.

-A sua também é,Morena.

Naquele momento os dois se olharam bem de perto e sabiam que já faziam parte da vida um do outro. Não adiantou falar muita coisa, aqueles segundos de silêncio no olhar é o passaporte para uma outra porção do espaço. Eram cúmplices de um segredo que os fazia acreditar que não estavam mais sozinhos. Daí em diante, em tão pouco tempo, já não se sentiam tão inteiros quando se separavam. Parecia que sempre ficava um pouco do Branco na Preta, e da Preta no Branco. Mas não era só isso. Por serem muito intensos, não iam se misturando de um jeito comum, como tantos outros, quando estavam juntos criavam um sabor especial,ímpar.

Um dia o Manteiga do Balcão, parado, conversava com o Açucareiro do seu lado, que, por sinal, mesmo sendo tão doce, se inquietava com as formigas, aquelas tietes malucas que não o deixavam em paz um minuto sequer.

-Ei,Açúcar, cadê o Leite Branco que eu nunca mais vi por aqui?

-Ah,Manteiga,você não soube? Ele e a Preta do Café tão juntos agora. Resolveram mudar de cor e até de sabor. Parece que se deram muito bem, estão felizes e acho que o povo gosta deles dois juntos. Virou febre aqui na Padaria, Seu Cleiton até incluiu o nome da mistura deles no cardápio.

-Sério? E qual é o nome?

- "Top Capuccino".

domingo, 23 de setembro de 2007

"La mar"

Eu já tinha ouvido falar tanto de "O velho e o mar"que quando o vi, fininho e com uma linguagem aparentemente simples,senti um certo medo. Por ser um livro fino, meu medo era de terminar logo, rápido demais, sem que as palavras do Hemingway conseguissem embarcar na minha mente, ou ancorar na minha memória por muito tempo. Do começo até grande parte do livro não demorei na leitura, mas minha expectativa era enorme e sentia falta de algo. A expectativa crescia e não encontrando respostas, passei a achar que a ansiedade impedia meu mergulho nas palavras de Hemingway. Parece que meu barco não conseguia deslizar sobre aquele mar prateado de palavras e me senti meio alheia à infinidade dos "peixes" que cercam o livro.É aquela história que de tanto desejar uma coisa e querer transformar aquilo num momento mágico e inesquecível, você acaba não percebendo que o seu desejo aconteceu, por estar mais preocupado com suas próprias exigências.
Mas,como diria um escritor que não lembro bem o nome,"um clássico é um clássico. Não importa se você não está no clima, desconcentrado ou pensando em outra coisa. Um clássico sempre encontrará um caminho para lhe atingir e mudar sua vida".
Quando reparei, já era tarde, e eu estava ali no barco com o Santiago, chamando o mar de "la mar", como os espanhóis o chamam quando "lhe querem bem", dando ao mar uma alma feminina e amorosa(claro que,sendo mulher e fã incondicional do mar, acabo de rebatizá-lo).
Acredito que ao ler 'O velho e o mar' o que fica não são as palavras, mas a história e os sentimentos de Santiago, que carreado de glórias 'pesqueiras' no passado, agora está velho e amargando um longo jejum sem nada pescar, lançando-se ao mar sozinho, com a obrigação de não decepcionar o Manolim, a esta altura, a única pessoa que lhe importa no mundo. Também gostei da sua luta não só pela sobrevivência, mas sobretudo, com os limites e a solidão, o orgulho e a derrota. Percebemos que nossas lembranças são marcadas com sentimentos, entranhadas na alma que sempre reaparecem nos nossos sonhos, como o Santiago sonhando com a brincadeira dos leões.
O livro é daqueles típicos suspenses 'suaves',aumentando sempre a expectativa.Deixei de assistir o 'café filosófico´só para ver a chegada triunfal do pescador à cidade, em ter conquistado o topo. Triste engano. Após uma verdadeira luta, a queda. O autor conseguiu fazer com que eu ficasse inconformada com os rumos da história. Mas,sem dúvida o melhor anti-clímax que já passou por minhas mãos.