quarta-feira, 26 de setembro de 2007

' Preta e Branco'

O Branco do Leite se aproximou da Preta do Café.Tava cansado da brancura de todo dia e perguntou:

-Preta, como eu faço pra ter essa tua cor?

A Preta respondeu:

-Não sei,Branco,nasci assim. Por quê?

-Tô enjoando dessa minha cor pálida...

-Óia como são as coisas. Tu reclamando de ser alvim. E eu toda no pretume,às vezes não dá nem pra notar que eu caprichei no açúcar ou que no outro dia,tô meio amarga. O escuro é sempre assim, intenso demais.

-Eu também sofro de intensidade. A brancura às vezes é tão clara que eu acabo sofrendo porque me sinto vulnerável. Tô tentando evitar e deixar minha superfície coalhar e virar nata, pra ver se eu consigo despistar minha verdadeira cor.

-Pra quê isso,Branco? Já vi dos teus ficarem com a nata tão acumulada que perderam a essência, deixaram de ser límpidos e alvos, para virarem um amarelo sem graça, como o Guido Manteiga, aquele pastoso do balcão, por exemplo. Ele era como você,bem branquinho, mas se endureceu tanto que deixou de ser o que era.

-Você tem razão,Preta..

(...)

-Tua cor é linda, Branquim.

-A sua também é,Morena.

Naquele momento os dois se olharam bem de perto e sabiam que já faziam parte da vida um do outro. Não adiantou falar muita coisa, aqueles segundos de silêncio no olhar é o passaporte para uma outra porção do espaço. Eram cúmplices de um segredo que os fazia acreditar que não estavam mais sozinhos. Daí em diante, em tão pouco tempo, já não se sentiam tão inteiros quando se separavam. Parecia que sempre ficava um pouco do Branco na Preta, e da Preta no Branco. Mas não era só isso. Por serem muito intensos, não iam se misturando de um jeito comum, como tantos outros, quando estavam juntos criavam um sabor especial,ímpar.

Um dia o Manteiga do Balcão, parado, conversava com o Açucareiro do seu lado, que, por sinal, mesmo sendo tão doce, se inquietava com as formigas, aquelas tietes malucas que não o deixavam em paz um minuto sequer.

-Ei,Açúcar, cadê o Leite Branco que eu nunca mais vi por aqui?

-Ah,Manteiga,você não soube? Ele e a Preta do Café tão juntos agora. Resolveram mudar de cor e até de sabor. Parece que se deram muito bem, estão felizes e acho que o povo gosta deles dois juntos. Virou febre aqui na Padaria, Seu Cleiton até incluiu o nome da mistura deles no cardápio.

-Sério? E qual é o nome?

- "Top Capuccino".

domingo, 23 de setembro de 2007

"La mar"

Eu já tinha ouvido falar tanto de "O velho e o mar"que quando o vi, fininho e com uma linguagem aparentemente simples,senti um certo medo. Por ser um livro fino, meu medo era de terminar logo, rápido demais, sem que as palavras do Hemingway conseguissem embarcar na minha mente, ou ancorar na minha memória por muito tempo. Do começo até grande parte do livro não demorei na leitura, mas minha expectativa era enorme e sentia falta de algo. A expectativa crescia e não encontrando respostas, passei a achar que a ansiedade impedia meu mergulho nas palavras de Hemingway. Parece que meu barco não conseguia deslizar sobre aquele mar prateado de palavras e me senti meio alheia à infinidade dos "peixes" que cercam o livro.É aquela história que de tanto desejar uma coisa e querer transformar aquilo num momento mágico e inesquecível, você acaba não percebendo que o seu desejo aconteceu, por estar mais preocupado com suas próprias exigências.
Mas,como diria um escritor que não lembro bem o nome,"um clássico é um clássico. Não importa se você não está no clima, desconcentrado ou pensando em outra coisa. Um clássico sempre encontrará um caminho para lhe atingir e mudar sua vida".
Quando reparei, já era tarde, e eu estava ali no barco com o Santiago, chamando o mar de "la mar", como os espanhóis o chamam quando "lhe querem bem", dando ao mar uma alma feminina e amorosa(claro que,sendo mulher e fã incondicional do mar, acabo de rebatizá-lo).
Acredito que ao ler 'O velho e o mar' o que fica não são as palavras, mas a história e os sentimentos de Santiago, que carreado de glórias 'pesqueiras' no passado, agora está velho e amargando um longo jejum sem nada pescar, lançando-se ao mar sozinho, com a obrigação de não decepcionar o Manolim, a esta altura, a única pessoa que lhe importa no mundo. Também gostei da sua luta não só pela sobrevivência, mas sobretudo, com os limites e a solidão, o orgulho e a derrota. Percebemos que nossas lembranças são marcadas com sentimentos, entranhadas na alma que sempre reaparecem nos nossos sonhos, como o Santiago sonhando com a brincadeira dos leões.
O livro é daqueles típicos suspenses 'suaves',aumentando sempre a expectativa.Deixei de assistir o 'café filosófico´só para ver a chegada triunfal do pescador à cidade, em ter conquistado o topo. Triste engano. Após uma verdadeira luta, a queda. O autor conseguiu fazer com que eu ficasse inconformada com os rumos da história. Mas,sem dúvida o melhor anti-clímax que já passou por minhas mãos.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Veríssimo

Sabe quando você cai, se fode,chora, acharia muito melhor não ter nascido e vem algo, do nada, e muda tudo? Um instante de lucidez? De esperança? De Deus? A respiração que, enfim, volta, com uma ordem de "desapegue!" e vc se liberta dos pesos, sejam eles quais forem? Isso é bom. Alivia, e rearruma as coisas. O necessário para seguir em frente, ainda acreditando na beleza dos dias.Eu gostaria de me livrar dos meus pesos. Tornar a vida mais leve, descomplicar mais. O que me move a continuar essa vida, por tantas vezes chata e neurótica, são os meus sonhos. São eles que me levantam quando nada dá certo. Quando as coisas tornam-se apáticas e melancólicas. Quando a gente quebra a cara, quando tudo se confunde, ou nos esvazia. Tenho medo de cair na tentação de viver sem sonhos. O mundo se torna cada vez mais subdividido em pequenos mundos que cada um cria para si. E é difícil lutar contra isso, ir na contra-mão. Permanecer com valores tão complicados de manter. Mas eu sigo vivendo assim. Algo me diz que eu estou no caminho certo, por mais que a madrugada tenha me dito o contrário, e tentado me persuadir a desistir dos sonhos, das pessoas, do mundo. Acordo com a sensação de que é preciso continuar, a perceber os outros de formas diferentes( "Perdoa, Senhor, eles não sabem o que fazem") e sentir compaixão,esse sentimento tão bom de sentir, já que nos dá uma perspectiva de divindade. De ver lá longe, de perceber os caminhos que as pessoas fazem para se sentirem plenas, sem que para isso precisamos intervir em algo. Eu ainda não desisti do meu sonho de ser feliz. E para me inspirar mais e não cair na tentação de se entregar a um mundo frio e cinza, o Veríssimo me ajuda, parece que ele alisa meu cabelo e fala assim:

"Ponha a mão no peito e sinta as batidas do seu coração. Esse é o relógio da sua vida tiquitaqueando a contagem regressiva do tempo que lhe resta. Um dia ele parará. Isso é cem por cento garantido e não há nada que você possa fazer a respeito. Portanto, não dá para perder um único precioso segundo. Vá atrás do seu sonho com energia e paixão, ou, então, recue e veja-o escorrer pelo ralo.Se você passar o tempo todo em cima do muro, acabará não indo a lugar algum no pouco tempo que lhe resta (sem falar, claro, no perigo das farpas em lugares inconvenientes). Como dizem: "não se salta uma fenda em dois pulinhos". É preciso coragem e dedicação para viver o seus sonhos. (Claro, também é preciso lembrar onde acaba a coragem e começa a estupidez). A verdade é que todos nascemos com potencial para a grandeza, abençoados com oportunidades para alcançar novas e estonteantes alturas. Mas, tristemente, muitos de nós são preguiçosos demais, preocupados demais com o que os outros possam pensar, com medo demais de mudanças, para abrir suas asas e usar todos os seus talentos. É importantíssimo fazer o que deixa feliz - e da melhor maneira possível. Não importa que seja fazer bolas de neve, prender a respiração debaixo d'água, cantar, ou conseguir efeitos dramáticos com um secador de cabelos. Só o que interessa é que você se sinta bem com o que está fazendo. Tenha sempre em mente que, faça o que você fizer, os enganos são parte da vida e não perca tempo se castigando por erros do passado. Não fique ruminando se está ou não fazendo a coisa certa. Você sempre saberá a resposta no seu coração. Em vez de desanimar-se, lembre-se sempre de que rejeição e resistência são inevitáveis quando se faz algo muito importante ou especial.
Quando você se propõe a realizar seus sonhos, muitos tentarão detê-lo (incluindo os que mais amam você). O que não falta neste mundo são pessimistas lamentáveis, que desistem dos seus sonhos, para lhe dizer: "não perca seu tempo, você nunca conseguirá." Você pode muito bem se ver cercado por pessoas que, secretamente, querem ver você fazer menos, ou fracassar por completo, para não se sentir diminuídas. "Esqueça isso", dirão. "Não vale a pena." Por isso, é importante compreender que seguir o seu próprio caminho pode ser incrivelmente recompensador, mas não é fácil não. Como todo mundo, você terá alguns dias melhores que outros. De vez em quando, tudo parecerá uma grande zona de perigo.As pessoas olharão para você com estranheza quando souberem o que você está tentando atingir e você começará a ouvir seus detratores e a ter dúvidas. "Porque não continuei vendendo bananas, meu Deus?" Mas, aconteça o que acontecer, não desista! Lembre-se de que todos têm dificuldades. É incrivelmente cansativo passar dias fazendo coisas que não nos agradam ou sequer nos interessam. Mas, se você perseguir o seu sonho, pelo menos se cansará fazendo o que mais gosta. Você pode achar que nada disto significa muito no grande esquema global das coisas. Mas, acredite: significa! Quando você tirar tudo que puder da sua vida, saboreando cada gota, isto mudará tudo à sua volta, de ordinário para extraordinário. Quando estiver fazendo o que ama, você se levantará de manhã cheio de animação para enfrentar o começo de cada dia e estará tomado de uma alegria sincera, altamente contagiante. Do mesmo modo que, ao dar uma boa risada, faz outro começar a rir, e outro, até que estão todos rindo tanto que começam a lacrimejar, ter dor de estômago e dificuldades em respirar. Mas, melhor do que tudo, fazendo coisas que enroscam os seus bigodes de fazer (presumindo-se, claro que você tenha bigodes), você inspira outros a irem atrás dos seus sonhos, e é assim, meu amigo, que se transforma o mundo!
Sabe de uma coisa? Mesmo que você cometa enganos e esteja errado sobre quase tudo, ainda assim sua vida será uma aventura fantástica e divertida; você dormirá cada noite sabendo que fez o que podia e isso fez diferença e acordará a cada dia antecipando o futuro tão belo e excitante quanto puder imaginar."