quarta-feira, 16 de março de 2011

O texto é de Luiz Pondé- muito bom!


"Deus me livre de ser feliz.

Existem coisas mais sérias que a felicidade. Algum sabichão por aí vai dizer, sentindo-se inteligentinho: "Existem várias formas de felicidade!". E o colunista dirá: "Sou filósofo, cara. Conheço esse blá-blá-blá de que existem vários tipos de felicidade, mas hoje não estou a fim".
Um bom teste para saber se o que você está aprendendo vale a pena é ver se o conteúdo em questão visa te deixar feliz.
Se for o caso e você tiver uns 40 anos de idade, você corre o risco de sair do "curso" engatinhando como um bebê fora do prazo de validade. A mania da felicidade nos deixa retardados.
Querer ser feliz é uma praga. Quando queremos ser felizes sempre ficamos com cara de bobo. Preste atenção da próxima vez que vir alguém querendo ser feliz.
Mas hoje em dia todo mundo quer deixar todo mundo feliz porque agradar é, agora, um conceito "científico". Quem não agrada, não vende, assim como maçãs caem da árvore devido à lei de Newton.
Mas eu, talvez por causa de algum trauma (fiz análise por 20 anos e acho que Freud acertou em tudo o que disse), não quero agradar ninguém.
Não considero isso uma "vantagem moral", mas uma espécie de vício. Claro, por isso tenho poucos amigos. Mas, como dizem por aí, se você tiver muitos amigos, ou você é superficial, ou eles são, ou os dois.
Quanto aos meus alunos e leitores, esses eu nunca penso em deixar felizes, graças a Deus.
Desejo para eles uma vida atribulada, conflitos infernais com as famílias, dúvidas terríveis quanto a se vale a pena ou não ter filhos e casar.
Desejo que, caso optem por não ter família, experimentem a mais dura solidão da existência humana, porque, no fundo, não passam de egoístas. Mas se tiverem família, desejo que percebam como os filhos cada vez mais são egoístas porque querem ser felizes e livres.
Desejo para eles pressões violentas no mercado de trabalho. E jantares à meia-noite diante de um trabalho que não pode ficar para amanhã porque querem viajar e ter grana para gastar.
Quem quiser ser livre, que aguente a insegurança da liberdade. Quem for covarde e optar por uma vida miseravelmente cotidiana que veja um dia sua filha jogar na sua cara que você foi um covarde.
Especialmente, desejo um futuro cruel para quem acredita que "ser uma pessoa de bem" a protege de ser infiel, infeliz, abandonada e invejosa.
Espero que um dia descubram que, sim, eles têm um preço (apenas desejo que seja um preço alto) e que se vendam.
Espero que percebam que seus pais não foram santos e parem com essa coisa de gente brega de classe média que tenta inventar uma "tradição ética familiar" que só engana bobo.
E por que digo isso? Porque hoje todos nós estamos um tanto infantilizados e só queremos que nos digam o que achamos legal.
O resultado é uma massa de obviedades. A tendência é transformar o pensamento público em autoajuda ou em "compromisso com um mundo melhor", o que é a mesma coisa.
Quem quer agradar é, no fundo, um frouxo. Vejamos alguns exemplos do produto "querer ser feliz". Comecemos por quem acha que o seu "querer ser feliz" é superior e espiritualizado.
Talvez você queira virar luz quando morrer porque ser luz é legal (risadas). Deus me livre de querer virar luz quando morrer. Prefiro as trevas.
Se for para continuar vivendo depois de morto, prefiro viver no "meu elemento", as trevas, porque sou cego como um morcego.
Normalmente, quem quer virar luz quando morrer é gente feia ou magra demais. Mulheres bonitas vão para o inferno, logo...
E gente que acha que frango tem mãe (só porque ele "descende" do ovo de uma galinha, e ela de outro...) e por isso é crime matá-los? Trata-se de uma nova forma de compromisso com a "felicidade social e política".
Entre esses "felizes que desejam a felicidade para os frangos" existem pessoas de 40 anos com cérebro de dez e pessoas de dez anos que um dia terão 40, mas com o mesmo cérebro de dez. Não creio que mudem.
Hoje é Carnaval. Espero que você não tenha pegado aquele trânsito idiota de cinco horas para ser feliz na praia.

ponde.folha@uol.com.br

sexta-feira, 11 de março de 2011

Dia de Trabalho

Hoje, trabalhando em meio a vielas e becos dos bairros miseráveis do Recife, quase caí em um esgoto a céu aberto por não conseguir me equilibrar em uma 'ponte' improvisada pelos moradores. Uma senhora me acudiu e estava com uma pequena bebê em seus braços, marcada por manchas vermelhas e cheia de brotoejas (é assim mesmo que se escreve?), que me olhava com um olhar profundo, como se ultrapassasse a minha retina e chegasse ao meu coração como um flecha. Perguntei se a menininha estava doente e a avó disse que não, que era apenas calor.

Eu sabia que não era. Mas tinha mandados a cumprir ali, e a área era perigosa. Peguei um hipoglós e dei àquela pobre mulher, na tentativa de aliviar a minha própria consciência. Segui em frente e encontrei a casa da moradora que eu deveria intimar para uma audiência no Juizado Criminal. Ela não sabia o que era intimação, o que era audiência, tampouco em que consiste um processo. Mas sabia que sua vizinha tinha prestado queixa em virtude de uma discussão entre as duas. Quando entrei na casa para que ela assinasse o mandado, estavam duas crianças perto de um gato, e os três estavam sentados na lama. Havia chovido e a casa era de chão batido. Na hora pensei naquele poema-"O bicho, Meu Deus, era um homem".

Sorri para aquelas pequenas criaturas, agradeci à pobre senhora que não sabia que xingar a vizinha de "amarrada" era crime, pulei na ponte de taipa, dei adeus à avó com sua neta nos braços, e saí dali cheia de sentimentos contraditórios. Já estou nesta profissão há dois anos, mas não consigo me acostumar a ver a Justiça ir nos becos pobres em busca de xingamentos e não vê-la seguindo o mesmo caminho para fazer com que um esgoto seja tratado. Não consigo entrar em uma casa de taipa para cobrar uma dívida de R$63,00 e ver milhões e milhões sonegados, desviados, usurpados sem que ninguém possa intervir, sob alegação de que existe um "devido processo legal" e até que provem o contrário, todos são inocentes. Para os pobres, até que eles provem o contrário, eles já nasceram culpados.

Pensei em como partir para outra profissão durante todo o resto da manhã e não consegui trabalhar direito. Fui na igreja do Pina (o bairro onde eu estava) e lá, inacreditavelmente, havia uma brisa suave, como um refúgio de paz. Silêncio no meio da cidade latejante, flores rosas e brancas no meio da favela cheia de lixo. Senti a presença forte de Deus ali. Fechei os olhos e chorei, como se cobrasse alguma explicação d´Ele, afinal, de quem foi a invenção de criar tudo isso? Não sei, mas não me veio nenhuma explicação. Não ouvi dos céus uma justificativa que me fizesse seguir em frente. Mas olhei para o meu Pai- terreno, Seu Renato :), que me acompanhou hoje- e senti um amor imenso por ele. Mesmo ele tendo me feito para grandes coisas, e que talvez não se orgulhe tanto do que eu me tornei (eu podia ser bem melhor, convenhamos), tenho certeza de que ele me ama.

E tenho mais certeza ainda de que eu fui uma presença de paz para as pessoas com quem conversei nesta manhã. Tranquilizei todas elas em dizer que a "Justiça" não era necessariamente
temerosa e má. Que o Juiz iria fazer a coisa certa e fazer as pazes de quem tinha brigado( pelo menos, é o meu desejo de que seja assim que aconteça). Uma das ' intimadas' daquela manhã sorriu quando lhe expliquei como era uma audiência preliminar,respirou de alívio em não ser presa e me abraçou.

Por um momento, exatamente naquele momento, se meu pai estivesse vendo, sentiria orgulho de mim e teria a certeza de que valeu à pena ter me posto no mundo. E como se Deus tivesse respondido a todas as minhas perguntas, eu parei de chorar, sorri pro meu pai e dei um beijo na cabeça dele, já quase sem cabelos, com a estranha sensação de que por trás de tudo isso há um grande propósito, que vale uma vida inteira de investigação, quem sabe.


quarta-feira, 9 de março de 2011

Carnaval de quem?

O Carnaval sempre foi uma festa pouco aproveitada, por assim dizer, para uma Miss Careta feito eu. Mas eu sempre gostei de ver as cores, a alegria, o povo esquecendo das contas e das pelejas da vida, mesmo que seja um "circo" que dure tão pouco. Sempre admirei (e vou continuar admirando) o Carnaval do Recife, que, para mim, é o mais democrático de todos, onde "brincam Carnaval" (acho linda essa expressão) desde crianças com fantasias de Toy Story a velhinhas sensuais com fantasias de milindrosas.
Mas eis que até nesta 'democracia', existe a famigerada "área VIP". Acredita ou não? Claro que acredito, já que estamos no país do "sabe com quem você está falando?". A palavra VIP já é uma piada, convenhamos. O que me faz ser um "very important person"?
Mas, língua é feita pra se morder e lá estava eu, no meio do povo, espremida até a última gota de suor no Marco Zero, no Recife, tendo ido em uma excursão que saiu de João Pessoa na qual os "teenagers" do ônibus éramos nós, beirando os 30. Lá, enquanto eu ziguezagueava pelo mar de gente, avistei um espaço grande, quase vazio, perto do palco. Perguntei a Elias: "Por que ninguém está ali?????" Como se eu tivesse descoberto um oásis que só os esperançosos(ou desesperados) conseguem ver. E ele respondeu: "É a área VIP".
Bom, eu não fui até ali para ver a Vanessa da Mata cantar e simplesmente não vê-la. Nós tínhamos pulseiras da excursão e lá fomos nós, bancar os impostores e tentar entrar na área exclusiva para pessoas especiais (mui especiais!). Conseguimos ou não? Com uma pulseira que nos diferenciava de reles mortais? Claro que sim! =D
Mas nossa pulseira era branca e as dos realmente especiais era rosa, e isso foi o meu grande temor durante todas as horas em que experimentei ser da elite: já pensou o segurança me arrastar e me jogar de novo na multidão? Não era a vergonha de ver os VIP´S me olhando com desprezo, mas sim o medo dos "não-VIP´S" me rejeitarem. "Eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém", e tive vergonha de mim mesma em não aceitar isso. Lá, me senti parte de uma exclusão paralisante, que me fazia ter uma visão clara do nosso abismo social. De um lado, a multidão espremida, com fãs de Vanessa da Mata quase tendo a metade inferior do corpo consumida pelas grades de ferro. De outro (o que eu estava?!!), várias mulheres com corpo sarado, homens com cara de rico, fotógrafos, produtores, e mais algumas pessoas com cara de quem não sabia quem ia tocar , mas que isso pouco importava.
Confesso que não consegui entender minha própria categoria. Mas preferi me sentir uma impostora, igual ao cara do 'Pânico na tv'. Só que a minha "missão" era um pouco mais nobre, porque eu sou fã da Vanessa. E quando ela surgiu no palco, confesso que amei estar ali, naquele lugar privilegiado e ser a única daquele espaço que sabia todas as letras das músicas do show.
Assim que ela foi embora, eu também fui. Tinha Lenine ainda na minha frente, mas não consegui perpetuar aquela sensação de quem está presa em um lugar que não lhe pertence. Voltei pra multidão feliz, e fui comer um churrasquinho de gato. E a farofa tinha um gosto "bom e aliviado", como diria a música...