quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Drummond

Infância

Meu pai montava a cavalo,
ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:- Psiu... não corde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito
E dava um suspiro... que fundo !
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Às vezes fico me perguntando como nós, pobres seres humanos mortais, podemos ter a chance de nos transfigurar em seres divinos e eternos pela força do amor.
Quando vejo essa foto da minha irmã em um nítido gesto de amor com meu (lindo!) sobrinho, fico me perguntando se precisamos mesmo de um paraíso longíquo e ilusório para experimentar a eternidade.
O amor nos faz melhores, nos faz diferentes e ao mesmo tempo, tão iguais. Quando me sinto triste ou sem perspectivas de futuro, lembro que talvez a minha grande possibilidade no mundo seja apenas experimentar esse sentimento, e isso faz toda uma existência valer à pena.
Quando lembro de Renan e começo a desejar profundamente que ele seja saudável e feliz por todo o tempo em que ele estiver nesse mundo, fico pensando que naquele instante em que só desejo a felicidade de outra pessoa, o amor se torna real e concreto, capaz de me fazer chorar sem motivo, ou que este motivo seja um fim em si mesmo: o amor. E acredito no amor não como um substantivo, mas como verbo- amar- que surge nas atitudes e nos nossos gestos mais simples.
E é maravilhoso poder observar que cada um descobre o seu próprio jeito de amar, como naquele poema da Adélia Prado em que ela descreve uma mãe muito braba que nunca dizia que amava a filha, mas lhe penteava os cachinhos molhados antes da menina ir para a escola. E antes que eu chore lembrando de como minha mãe se parece com essa que Adélia descreveu, penso que talvez minha missão na vida seja justamente essa: perceber o amor ali, escondido pelos cantos.
Duas frases de Kant tiveram um especial significado para mim nestes últimos dias, mas depois eu escrevo sobre isso, prometo.

"Toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço."

"A moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade."

(Kant)