terça-feira, 16 de junho de 2009

"Meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé - não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. (...) Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. (...) Sinto uma dor enorme de não ser dois e não poder assim um ter partido, outro ter ficado com todas aquelas pessoas."

(C.F.Abreu)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"Não sou feliz,mas tenho namorado"


Aos que já viram a peça "Não sou feliz, mas tenho marido" (cuja autora é minha xará argentina, Viviana Goméz) me perdoem pegar esse título emprestado, mas acho a idéia simplesmente genial. Ainda não vi o monólogo, mas me permito tecer algumas considerações sobre o que tenho visto por aqui: ter um namorado (noivo, peguete ou tantas outras derivações) às vezes é mais uma forma de ter sucesso perante os outros do que verdadeiramente se sentir feliz.

Observo muitas mulheres infelizes com as relações que tem, mas que não abrem mão de jeito nenhum de ter um parceiro, por mais "tampão" que ele seja. É como se servissem apenas para mostrar à platéia: "olha só, tem alguém que me quer" e incutir nas solteiras-sozinhas uma idéia de fracasso que, definitivamente, é estúpida.Mas existe. E o pior: surte tanto efeito, mas tanto efeito, que por vezes, vejo mulheres maravilhosas que deviam ter um parceiro à altura, se contentando com um brucutu qualquer que acham que período fértil é assunto de agricultor.

Eu entendo perfeitamente que medos existem,e talvez o mais comum entre eles seja o medo da solidão. Mas não consigo classificar namoros estéreis como tentativas de fugir de tal receio porque eles conseguem transformar o medo em realidade: ter apenas um "namorado" pode ser muito mais solitário do que ser solteira.

E é fácil perceber o quanto mulheres (e homens) caem nesta armadilha. Basta uma olhadela em um shopping. Vemos casais que não se olham, não se tocam.Mulheres cansadas de ouvir seus companheiros, como se eles fossem um fardo, uma "cruz que deve ser carregada" como tantas dizem. Homens que não se cansam em adiar noivados, casamentos, por simples medo de terminar a relação e não encontrar "uma mulher direita", ou então correr o risco de que outro saiba valorizar a mulher por quem já não sentem paixão alguma.

Não jogo pedras nesse tipo de comportamento simplesmente porque sei que é uma atitude quase isenta de culpa. Se todos dizem que "é impossível ser feliz sozinho", o que todo mundo quer é encontrar alguém para amar e se sentir amado, como pressuposto de felicidade.

Mas é nisso que devemos focar: na felicidade. E não digo que relacionamentos são garantia de felicidade permanente, porque, definitivamente, não são. Mas alguns nos proporcionam uma possibilidade concreta de nos sentirmos melhores, a partir do olhar do outro sobre nossas belezas ocultas. Isso é o que todo mundo busca, e com razão. O que não podemos, de jeito nenhum, é nos conformar com uma tentativa, porque ela é só uma tentativa!

Ouço muitas frases do tipo: "Não tenho coragem de entrar pro mercado de novo, ter que ir pra balada, conhecer, esperar um tempão de namoro de novo..." ou "Vou casar com esse mesmo, porque hoje em dia homem bom tá difícil" ou a clássica "quando a gente casar, melhora". E o resultado, a gente já prevê..."Não sou feliz, mas tenho marido". E se já era difícil terminar um namoro, imagine um casamento...e lá se vem filhos, responsabilidades, e o tempo se encarrega de nos perguntar um dia: "Mas o que foi que você fez?". Aquelas pessoas a quem queríamos impressionar não pagaram a pena. Fomos nós. A vida era uma só, e não nos demos conta disso.

Fizemos escolhas esperando ser felizes no futuro, e no trajeto, fomos infelizes. E o pior: a felicidade dos romances medievais não veio. Valeu à pena?
Mulheres esperam, homens também. Mas são esperas diferentes. Mulher espera se apaixonar pelo mesmo homem de novo. Busca que ele queira isso e faça surpresas, transforme-se, e vai levando a relação esperando o milagre do encantamento acontecer de novo. Homem, nesse estágio de tédio, só espera uma nova paixão. E basta aparecer uma mulher que lhe devolva os batimentos cardíacos para ele ter coragem de acabar a antiga relação. Eu sei que parece simplista, mas é assim que acontece. E de um jeito ou de outro, alguém sofre, por algo que poderia ser evitado.

Ser solteiro não significa, de modo algum, ser só. Não falo de "ficantes" que sufocam a solidão, e sim de nós mesmos, de descobrir nossas próprias belezas, de nos apaixonarmos por tudo aquilo que é bonito em nós e não tínhamos tempo para perceber, simplesmente porque nos acostumamos a ouvir do outro. Talvez as melhores relações venham justamente com o auto-conhecimento, que nos permite não termos mais medos nem inseguranças, pois já sabemos do quão somos valiosos.

Quando a gente aprende a tirar o cascalho e ver que por debaixo dele,há uma pedra valiosa, não temos mais que nos submeter a preços de bijouterias. Já sabemos do nosso valor e só aceitaremos ser levados por quem souber nosso preço, por quem tiver o trabalho de pegar uma lente e examinar cada detalhe nosso que faz de cada um de nós uma peça rara e valiosa.

Que o dia dos Namorados seja mais que uma data comercial. Seja o dia em que você examine,com cuidado,se antes de ter alguém do lado, você está enamorado de si mesmo. E se tiver alguém, se ele é mesmo "namorado", se tem "amor" no meio. Se estiver solteiro, aproveite para se tornar a pessoa que você quer encontrar.

Por fim,esqueçamos tantos medos.

Porque medo maior é mesmo o de não ser feliz!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Fiquei tão feliz com os últimos comentários de vocês que vim aqui só pra atualizar esse nosso canto. Me sinto até meio responsável por fazê-lo, já que acredito no que a raposa disse ao pequeno príncipe (lembram, né?). E só pra colocar mais uma lenha nisso, saibam que vocês também me cativaram,e são extremamente responsáveis por este blog. Bel, querida, claro que lembro de vc, e ler seu comentário foi uma "epifania", dessas que nos fazem não saber bem o que dizer...muito obrigada.
Para os fiéis escudeiros que comentam sempre, só me resta agradecer muito mesmo porque são vocês que mantém a chama dialética acesa. E para os que leem, mas não comentam, também o mesmo agradecimento, pela mesma lógica, ainda que a chama acenda pelo "impulso vital". ;)
***
Enfim,muita coisa acontecendo nesta semana me fez pensar em uma infinidade de assuntos pra conversar aqui. Talvez falar que, depois de me mudar de novo (em pouco mais de um ano, seis vezes...) e ficar doente mais uma vez ( em pouco mais de um ano, seis mil vezes...), eu poderia dizer que mesmo assim, ainda não cansei de mudar, e rezo para que eu não descanse tão cedo. O fato de estabelecer uma moradia, conhecer cada pedaço de um lugar, conhecer os vizinhos, comprar mobília nova, e depois vender, começar tudo de novo, me faz mais bem do que me cansa. Me sinto viva e mais disposta, apesar do cansaço (esse assunto a gente conversa no próximo post) . Comungo do mesmo pensamento de Guimarães Rosa:
"Mire e veja que o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam."
Mas é inevitável não pensar na tragédia que interrompeu a busca de 228 pessoas. Ao ver na TV (pois é, as pessoas mudam rápido!) a história de cada passageiro, lembrei do livro "Por quem os sinos dobram", do Ernest Hemmingway, em que ele fala:"Quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade." Fiquei pensando que talvez este seja o motivo que faz as pessoas entrarem em estado de contemplação e consternação, e um movimento de saber quem eram as vítimas e quais suas histórias de vida dê tanta audiência: vemos o quanto é triste histórias acabarem sem entendermos o final. Como entender que o casal em lua-de-mel não foi feliz pra sempre? Como interpretar a morte de alguém que levou uma vida para conhecer Paris, e foi interrompido há poucas horas de chegar lá?
Ficamos consternados por não entender e ao mesmo tempo, sabermos que nossa história também será interrompida, sem que possamos descobrir em qual capítulo será. E "quando morre um homem, morremos todos" porque uma parte dos nossos sonhos também morre, sobretudo o de achar que a eternidade é certa. Pode ser que não.
"Somos parte da humanidade" e isso nos une aos que já foram e aos que ainda virão, na busca para que os sonhos possam ser realizados antes de serem interrompidos. Acidentes como esse, assim como as milhares de "interrupções" que acontecem todos os dias devem servir para nos ensinar a morrer. Devemos não parar de escrever nossos capítulos, não deixar páginas em branco, fomentar enredos, personagens, colocar paixões, tristezas, suspense e tudo aquilo que faz de um livro algo memorável e digno de ser lido por outras gerações, ainda que inacabado.
Sejamos então incansáveis em viver. Lembro agora do livro "A menina que roubava livros", em que a "Morte" escreve:
"Às vezes eu chego cedo demais.
Apresso-me,
e algumas pessoas se agarram
por mais tempo à vida do que seria esperável."