segunda-feira, 9 de março de 2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

Senhor, tende Piedade!

Ontem eu voltei do Recife pegando uns 32 ônibus antes de chegar no carro da minha carona, em Paulista. Mas, embora seja péssimo enfrentar um calor escaldante carregada de malas e apreensiva em não ser assaltada, eu acho bom andar de ônibus. Quando não estou sabendo da história de quem está do lado, eu fico olhando pela janela a beleza do cotidiano, e como há beleza! Gente suando a camisa (literalmente) pra ganhar o trocado de cada dia, vejo mulheres que deixam os filhos penteados e limpos na escola e correm (tb literalmente) pra pegar outra condução pro trabalho, vejo os dizeres das pichações ( confesso que algumas me fazem rir: "respeite o próximo!" riscado numa parede branca de uma casa...), vejo também aqueles que enfretam o sol a pino para vender água no sinal e vejo também aqueles que enfrentam o mesmo sol para furtar.

Mas ontem eu não vi muita coisa porque estava mais interessada na história da Maria da Piedade, que mora em...Piedade! Ela odeia o nome dela, embora eu tenha dito que achava muito bonito. Mulata de batom vinho e cabelo penteado (e bem puxado) pra trás, tem 27 anos e 2 filhos. O pai das crianças abandonou a família para "ficar com uma nega dos cabelos pintados daquele louro horroroso de Joelma do Calypso,sabe?", e ela ficou com os dois filhos pra criar. A mãe não a aceitou de volta em casa e Piedade foi à luta. Nunca deixou os filhos faltarem um dia de aula, mesmo que não tivessem o que almoçar. Trabalhando nas casas "de família" conseguiu alugar um barraquinho e ter a casa sempre "limpa, porque ser pobre não é ser imundo não." Conseguiu, só Deus sabe como, terminar o segundo grau estudando à noite e tentou uma vaga para ser auxiliar de serviços gerais em uma indústria, em Olinda.

Para conseguir essa vaga, o candidato não devia ter apenas o 2º grau completo, mas também ter noções de inglês! Quando ela me falou isso, disse, com raiva: "até pra limpar m... a pessoa tem que falar inglês?". Caímos na risada e ensinei como falar "shit!" da próxima vez! Enfim, Piedade passou nos testes, superando outros milhares de candidatos, inclusive "gente formada!", e estava indo se apresentar levando as certidões criminais para provar sua boa índole."Ah, menina, fui lá na Justiça Federal, gastei 2 passagens, depois fui aí nesse fórum( estadual) e a infeliz da juíza não estava aí pra assinar. Já pensou se por causa disso eu perco o emprego?".

Depois de narrar toda sua odisséia, eu pergunto a ela quanto, afinal, valia esse esforço todo.Ela iria ganhar R$500,00 (quinhentos reais) por mês para trabalhar das 8h às 18h.Me doeu no coração saber que o esforço de Piedade valia só isso. Mas como ela disse, "pelo menos, tem carteira assinada e é uma coisa certa. Pior é a maioria do povo lá da rua que não tem nem o dinheiro da feira."

Como eu sempre penso, o mundo é injusto. Mas quando vejo histórias como a da minha companheira de ônibus, percebo que existem almas que fazem toda a diferença. Como seria bom se existissem mais Piedades no mundo, que "levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima".
Quando dei um abraço nela, depois de 1h de conversa e muitos anos de amadurecimento a mais, desejei boa sorte e dei meu telefone, caso ela precisasse de ajuda algum dia. Ela agradeceu e me garantiu que, se ligasse, seria pra me dizer que passou no vestibular.

Ao vê-la saindo do ônibus, lembrei de uma música que eu adoro do Cazuza, e a dedico para minha querida Piedade, com a prece de algum dia, muitos sejam "iguais a você":


Blues da Piedade

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

É preciso saber o que nos faz verdadeiramente bem. Hoje eu tenho tudo aquilo que um dia julguei essencial para ser feliz. Besteira. Nada do que a gente possa vir a ter ou até mesmo as pessoas com quem estamos dispostos a conviver irão nos trazer aquilo que nos falta. O vazio que cada um de nós experimenta ao se deparar com a realização dos sonhos é simplesmente uma pista que nos mostra a fragilidade dos nossos anseios. Descubro aos poucos que a felicidade é como uma obra de arte, que requer o lapidamento estrito, nem mais, nem menos. É preciso lutar, todos os dias, para que o sentido das coisas persista à nossa frente, correndo o risco de viver no piloto automático sem ter o direito de olhar ao redor.
Eu ando descobrindo que nosso estado de espírito não guarda muita relação com ter desejos satisfeitos. Prometo não querer mais um cargo, nem contribuir tanto para a sociedade, nem ter sonhos do tipo "Che" ou "Olga". Eu acho que hoje eu só posso querer ser uma pessoa melhor que ontem, descobrindo o que há por trás das coisas tangíveis, dando um sentido maior e mais profundo para a vida.

Raul Seixas consegue explicar melhor...

Ouro de Tolo
Raul Seixas
Composição: Raul Seixas


Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...

Ah!Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...
Ah!Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...