quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Caio Fernando de Abreu

Na falta de palavras, o Caio escreve...

Pequenas epifanias

"Dois ou três almoços, uns silêncios.Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”. Há alguns dias, Deus – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus –, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor.
Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer – eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom.
Não me entenda mal – não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração.
Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector – Tentação – na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir.
Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou – descuidado, também – em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor.
Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."

Metáforas

Sobre a noite

não é difícil congelar a cena,
quando podemos cruzar o cenário
e costurar uma estrela:
pequeno botão que fecha a noite
antes do dia se abrir.

(Rita Apoena)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Caminito...


Que bom voltar ao refúgio. No meu trabalho, infelizmente, não tenho acesso ao blog e em casa,muito menos. Mas, pra ser bem clichê, o bom filho à casa torna e estou aqui. E pra ser ainda mais literal no clichê, estou voltando pra casa nos próximos dias. Não exatamente pra casa, mas pra Pernambuco, que é vizinho da Paraíba.

E todo mundo deve achar que isso é o melhor que poderia me acontecer, por causa da saudade que eu espalhava aos quatro ventos. Mas confesso que sou uma reles humana, e alguns humanos geralmente não sabem bem o que querem. Acostumam-se com o conhecido, amam o confortável, desejam o esperado. Mudar de novo, ao mesmo tempo que instiga, assusta. Fico imaginando que meu coração fica perguntando à minha mente: "-Mas o que diabos está acontecendo? Por que estou sentindo de novo um sentimento de despedida, de saudade, de amor, de perda, de alívio? O que é isso?"

Eu acho que poderia responder ao coração dizendo que isso se chama vida. Um caminho que se faz a cada dia, quando não nos cansamos com o primeiro passo. Ninguém sabe ao certo onde o caminho nos leva, mas é certo que é preciso caminhar, seguir em frente rumo ao que nascemos pra ser. Se a gente se acomoda com o que nos é conhecido e confortável, talvez o nosso destino seja a resignação de nos tornamos só uma terça parte do que verdadeiramente somos.


A filosofia budista assegura que Deus tem um caminho para cada um, permeado de felicidade, saúde, sucesso. Se insistirmos em seguir caminho diverso, jamais experimentaremos o que Ele nos reservou. Se você nasceu pra ser cantor, e teima em ser bancário, você não vai ter a vida que merece. E ninguém há de dizer "-Mas foi Deus quem quis" ou "-Esta é minha sina". Eu não acredito nisso. Acredito em destinos traçados sim, mas pelo esforço, pela coragem, pela decisão de aceitar que se nada deu certo, não há outro culpado senão nossas próprias escolhas.

Não quero dizer com isso que as mudanças não dão calafrios na espinha. E é por isso que mudamos junto com elas. Não tem preço que pague a possibilidade de mudar. E o bom é que as possibilidades existem o tempo todo, bem à nossa frente, sem que a gente perceba.


Eu só falava mal de Brasília. Achava tudo aqui estranho, a cidade, as pessoas, tudo. E tinha muitos motivos de ser feliz aqui. Amor, amigos, trabalho. Mas sempre faltava algo. Parecia que eu jamais encontraria o lugar certo de se viver, que congregasse tudo o que eu amava. Mas foi apenas surgir a possibilidade concreta de voltar para me fazer ver tudo diferente. Aliás, acabo descobrindo que é besteira fazer tantos planos, porque o essencial teima em aparecer sempre, desmascarando por completo nossas ambições fúteis. Comecei a dar mais valor às pessoas ao meu redor, a achar o céu daqui ainda mais lindo, a viver intensamente cada minuto aqui.

E por que razão a gente não faz isso o tempo todo, se a gente não tem certeza se hoje não é nossa despedida? Não sei. Acho que vou passar a vida pra descobrir. O que sei é que, pouco importa o lugar que estamos pra sermos felizes. É como disse Cybelle da frase do John Lennon:

"Eu estive em todos os lugares, mas só me encontrei em mim mesmo."