domingo, 12 de outubro de 2008

No Distrito...

"Longe de casa há mais de uma semana...milhas e milhas distante...dos meus amores..."

Eu sei que devia postar aqui que Brasília é uma cidade que definitivamente, não parece pertencer ao Brasil, de tão organizada, verde, perfeita, eu poderia dizer que o céu daqui consegue ser mais lindo que o da Paraíba toda, que meu coração está feliz, que o curso de formação me emociona com o trabalho gratificante e extremamente essencial na construção de um país melhor, através da educação, que os projetos educacionais são lindos, que as pessoas que conheci são bacanas, e que o Parque da Cidade me faz respirar e ter certeza de que a qualidade de vida aqui supera todas as outras cidades.

Mas só o que consigo falar agora é que, quando recebo um e-mail da minha mãe dizendo que tudo faz com que ela lembre de mim, ou quando falo com minha avó e ela diz que todos os dias faz a salada no almoço porque eu gostava, ou quando ouço a voz trêmula do meu pai, pra nào mostrar que está chorando, eu sinto meu coração encolher e ficar do tamanho de um botão.

Eu achava que a transição para a vida adulta seria fácil, e que eu iria pra qualquer lugar sem muito "drama".Sempre me achei durona e independente, do tipo que mata barata e sabe manusear uma furadeira. Mas a verdade é que sinto minhas raízes pulsarem o tempo todo, e me pergunto se não poderia escrever pra aquele programa "De volta à minha terra"...fico pensando porque razão nossas 'terras' nos expulsam pra longe tão drasticamente quando resolvemos ter uma profissão e ser justamente remunerada por isso. Enquanto não acho respostas, tenho que ver as belezas do outro caminho que Deus me mostrou, nunca esquecendo do tesouro escondido na Paraíba, onde eu guardo meu coração. Não sou de lamentar pelas coisas boas que nos acontecem, olhando sempre o lado pior. Mas é inegável que a saudade às vezes chega a sufocar.


Enquanto não me falta o ar, pretendo olhar pro céu maravilhoso de Brasília e entender que, quase sempre, o melhor mesmo da vida não é ter que caminhar ,por caminhos longos e árduos, mas é saber que temos pra onde voltar.


"E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai-a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?


A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino."


(Drummond- O Chamado)

domingo, 28 de setembro de 2008

"De olhos bem abertos"


Um belo dia eu acordei de um jeito diferente. Ao abrir os olhos, tive a certeza de que aquele era o primeiro dia do resto da minha vida. Até aquele momento, parecia que eu nunca tinha aberto os olhos. Quando enxerguei pela primeira vez, vi que a minha cama era macia, e meu travesseiro tinha o meu cheiro, impregnado de sonhos. Naquela manhã, olhei pro céu e vi que o infinito era o limite de tudo, que as nuvens eram moldadas de acordo com o que pensávamos delas, e que o canto dos passarinhos que acordam cedo eram a melodia mais gostosa de se ouvir. No dia em que enxerguei pela primeira vez, vi que o primeiro copo d´água da manhã abria espaço para purificar a minha alma por inteiro. O pão tinha o melhor gosto do mundo e o café parecia o suco que os ursinhos gummy tomavam pra conseguir realizar qualquer tarefa impossível.
Olhei pra minha avó e comecei a chorar por nunca tê-la visto tão linda, cheia de linhas no rosto que denunciavam um tempo bem vivido. A Sabedoria naquele momento para mim, se chamava Vovó Tina. Dei-lhe um beijo na testa e "saí pra ver o sol", como dizia o Zeca Baleiro. Tudo, naquele dia, se tornava claro, como nunca. Eu olhava as pessoas de um jeito diferente, sorria pra elas e de alguma forma, cada sorriso que eu recebia de volta me trazia a perspectiva de que o mundo poderia ser melhor se todo mundo começasse a enxergar o que, naquele momento, eu tinha o privilégio de ver.

Cada conversa que eu escutava era como cenas de um cotidiano secreto, como se eu fosse uma espiã de Deus a observar como as pessoas estão vivendo o melhor presente que qualquer um poderia receber: a vida.

Senti a vida pulsando em cada poro do meu corpo, e as lágrimas sem motivo denunciavam que a vida era o único motivo. Passei a lembrar das inúmeras vezes que acordei sem nenhuma alegria, desperdiçando um dia que nunca mais voltaria a mim, simplesmente porque em algum momento achei que o sentido da vida era acordar e viver aquelas horas pensando em horas futuras, que, a cada dia, ficavam mais distantes. Parecia que eu vivia para um futuro que jamais chegava, enquanto o presente já partia, sem ao menos me dar tempo para me despedir.

No dia em que enxerguei pela primeira vez, parei de reclamar de tudo, da falta de tempo, da montanha de trabalho, do meu cabelo de manhã, da comida que não estava boa. Parei de xingar gente lerda no trânsito, parei de discutir relação e parei de querer sempre algo diferente do que eu tinha. Neste dia, eu simplesmente vi que eu podia respirar, andar, podia abrir os braços e me sentir livre.

Quando eu me vi no espelho, pela primeira vez, gostei de tudo que vi. Não quis mudar nada, e me prometi que nenhuma tpm, por mais braba que fosse, iria me fazer sentir a mulher mais horrorosa do mundo. Não quis mais ter o corpo da Juliana Paes e nem o rosto da Ana Paula Arósio. Eu gostei de mim do jeito que eu era.
No dia em que enxerguei, quis encontrar todo mundo que eu amava na mesma hora. A urgência não era por eu estar indo embora daqui a alguns dias, mas era urgência em viver "tudo o que há pra viver" sem perder um minuto, porque eu já havia desperdiçado tantas horas com tantas bobagens, e tudo agora me parecia urgente e intenso. Comecei a olhar diferente pra minha própria história e ter uma profunda gratidão a todas as pessoas que passaram na minha vida. Cada pessoa me deixou um ensinamento, ainda que eu nem mesmo a conhecesse. Passei a agradecer, em silêncio, àqueles que eu não podia estar perto. E talvez, você que esteja lendo essas palavras agora, tenha tido uma importância na minha vida que você sequer imagina.
Às vezes um sorriso consegue mudar uma vida. Uma palavra no momento certo, uma escolha, um confronto, uma conversa. Tudo isso pode parecer pouco, mas às vezes a profundidade se esconde nos menores diâmetros.

O melhor dia da minha existência foi no dia em que percebi a minha existência. E, depois disso, tudo fez sentido. No dia em que enxerguei pela primeira vez, eu pedi a Deus apenas uma coisa: que eu nunca mais fechasse os olhos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Sobre o Ensaio...

Antes de falar da mudança, como prometido, falo do filme "Ensaio sobre a Cegueira", que tentou traduzir no cinema, o livro apocalíptico do Saramago. Perdoem-me os que gostaram, mas acho que, mais uma vez, o filme foi um resumo simplório demais do livro. Fui ao cinema com uma expectativa um pouco menor em comparação com a estréia do "Caçador de Pipas", mas com uma curiosidade mais aguçada do que aquela do "Código da Vinci", ou da "Insustentável Leveza do Ser" (este aqui, filme antigão), mas a semelhança em todas, absolutamente todas elas, é que o o mundo literário produz cenas absurdamente melhores que o mundo cinematográfico.

Depois de ler o "Ensaio", ninguém consegue comer um hambúrguer depois. No livro, sobram sensações humanas, o que, para mim, faltou no filme. Não consegui sofrer com os personagens. Faltou até mesmo tempo para isso, devido à rapidez das cenas. O livro faz com que saibamos, que, no caos, somos apenas animais brutos, em busca da sobrevivência. E que é preciso reconstruir o mundo a partir de uma visão mais humana das coisas. Nesse sentido, gostei muito das cenas do encontro das mãos do 1º cego (japinha) com sua mulher, do banho coletivo da chuva, e principalmente, mas principalmente mesmo, da música do Flávio Venturini (que eu já até comentei aqui no blog), "Céu de Santo Amaro", sendo tocada no piano, na cidade caótica, e que me emocionou muito, por lembrar que o filme era, em sua essência, "brasileiro". E, talvez, brejeiro.
Também é importante ressaltar o papel das mulheres no filme, a começar pela heroína, mulher do médico.Fica claro a força e a coragem de todas elas, que sabem cuidar de criança e até matar se for preciso, e percebe-se o quanto as mulheres sabem, muito mais que os homens, o que é essencial na vida.

No fim, gostei do filme, até porque nos faz pensar se é mesmo necessária uma epidemia de cegueira para que possamos enxergar o que realmente importa. E, cá pra nós, o que é que realmente importa?