sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Maricota

Acabo de chegar do aeroporto, fui me despedir de Mari, minha grande amiga que foi embora para o Canadá. De repente, o avião subiu e foi pintando o céu de cinza. Acho que meu coração gostou da idéia e também foi descolorindo. Aí, como um efeito dominó, a cor dos meus olhos foi sendo lavada por uma água densa, que teimava em não deixar mais nenhuma manchinha castanha nos coitados. Mas foi até bom lavar tudo, porque aí eu pude enxergar as estrelas. Cada uma com seu brilho, formando uma constelação que só é bonita porque é complexa,indeterminada, infinita. Acho que a vida deve ser assim: uma constelação cheia de diferentes estrelas. Algumas brilham por muito tempo, outras precisam de mais espaço para conseguir encontrar sua luz, outras são estrelas cadentes que aparecem de vez em quando, só para iluminar nosso céu quando tudo está muito escuro. É,Mari. Já sinto falta da sua luz.Como diria aquele romancista Henrique Maximiliano Coelho Neto, "A casa da saudade chama-se memória: é uma cabana pequenina a um canto do coração."

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Prece

"Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade,faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém."

(Trecho de "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres,de Clarice Lispector)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

"ameno dori me"

Hoje fui para mais um Congresso sobre os "direitos" da vida, sequer havia feito minha inscrição tamanho meu desinteresse pelos mesmos 'debates' de sempre, e, por sorte, minha mãe se encarregou de colocar meu nome, já que ela também ia. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com o tema, e o melhor com as excelentes palestras do "I Seminário de Direitos Humanos da Criança e do Adolescente no Estado da PB".

Eu me considero sensível, me emociono facilmente e encontro muitos significados em coisas aparentemente banais, já chorei de alegria,de raiva,de tristeza ao ver as cenas cotidianas da miséria latente ao redor, lendo livros,vendo beijos de novela, ouvindo músicas. Mas eu nunca,em toda minha vida, havia chorado em uma palestra. Pelos meus cálculos,ainda não estou de TPM,então atribuo os meus olhos marejados aos dados da palestra, às suas cenas e falas.

O trabalho, a prostituição, a exploração sexual de seres tão pequenos e tão órfãos, dói no fundo da minha alma, não em um sentido caridoso ou piegas, mas aquela dor que faz você tremer de indignação ao ver o quanto somos mesquinhos,hipócritas,egoístas.O quanto a sociedade brasileira é apática,deitada em seu 'berço esplêndido', assistindo novela, achando tudo uma pena, e ponto.Neste momento, alguma menina dorme, cansada de trabalhar o dia inteiro. Amanhã, algum menino vai chegar cansado na escola e, na 2ª série, ainda não vai saber escrever o próprio nome. O bolsa família está aí, para lhe dar uma esmola mensal em troca dele engrossar as estatísticas de "15 milhões de crianças na escola" e só. De tarde, ele vai p/ o sinal, fazer malabarismo para "ajudar na despesa" e de noite, ajuda a mãe a cuidar dos outros três irmãos menores. Este menino se chama "Wesley" e me contou sua rotina semanas atrás.Perguntei se onde ele morava existia conselho tutelar. Desde então, nunca mais o vi. Naquela noite, dei uma camisa a ele, mas ele era esperto e viu que era de menina...deu à irmã.

É bom você saber que,neste momento, há milhares de crianças sendo violentadas das mais diferentes formas. Em algum lugar bem perto daqui, há uma infinidade de vidas sendo marcadas do pior jeito,para sempre,por algum depravado dos muitos que existem por aí, que adoram se auto-afirmar com pequenas crianças de 11 anos de idade. Choro de raiva. De dor. Daquele sentimento de impotência que, no entanto,também nos impulsiona a querer mudar as coisas. Eu estudo para isso, e ver que metade das crianças violentadas já tentaram suicídio, me faz estudar mais. Quem sabe,um dia, eu não possa tirar a corda do pescoço de alguma delas.